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Leda Nagle: Educar é preciso

Já não sei mais se estou ficando uma velha rabugenta ou se as pessoas estão ficando completamente sem noção. Começo a ler os jornais de manhã e as histórias que vejo me levam a crer que o mundo está de cabeça pra baixo — e não estou falando só do absurdo que aconteceu em Realengo. No Rio Grande do Sul, um professor deu um tapa na cara de uma aluna. No Rio, uma professora, que não conseguia silêncio na sala, ameaçou os alunos com a seguinte pérola:

“Se vocês não ficarem quietas, eu tiro minha AR-15 da bolsa”.

No interior de São Paulo, um motorista de transporte escolar se irritou com dois meninos de 8 anos, que brigavam dentro da van, parou o veículo e deixou os garotos na beira da estrada. Eles foram obrigados a andar três quilômetros a pé para chegar em casa. E, como a falta de noção começa cedo e não faz distinção de classe, numa escola classe A, da Zona Sul do Rio, uma menina de 6 anos fica entediada durante uma aula e fala para a coleguinha ao lado:

“Queria que esta tia morresse”.

A coleguinha ouviu e decidiu que, se a menina não desse a ela o lápis importado que usava, contaria tudo pra tia. No dia seguinte, a mãe da autora da frase foi ao colégio com a filha, fez a menina pedir desculpas à tia e recuperou o lápis. Noutro ponto da cidade, um garoto ameaçou uma coleguinha com faca de co zinha em plena sala de aula.

Alguma coisa muito esquisita está acontecendo com a educação que estamos dando às nossas crianças. E não falo da educação formal, das aulas de Português, História e Geografia. Falo de valores mesmo, que vêm de outra forma de educação, da formação da cidadania. É claro que isto se aprende na escola também, mas se aprende, principalmente, em casa, com exemplos, conversas e amor. E com limites. Dizer não dá muito mais trabalho do que dizer sim, mas a vida real é cheia de nãos e é preciso aprender a lidar com eles.

E chega desta história que tudo acontece por causa do bullying, que, aliás, no meu tempo de colégio, chamava encheção de saco. Apelidos como ‘rolha de poço’ e ‘baleia’ para os mais gordos, ‘Dumbo’ para os orelhudos e ‘Olivia Palito’ pras muito magras sempre existiram e duvido que parem de acontecer porque é bullying. Claro que não é educado, que devem ser combatidos, discutidos e explicados, mas não podem justificar chacinas e perversidades. Não é tão simples assim. Do contrário, nenhum de nós teria sobrevivido aos tempos de colégio. Todos os ‘pelas’ daquela época teriam se transformado em assassinos. Chega também de ficar mostrando o dia inteiro os vídeos deste assassino monstruoso, de dar a ele a condição de galã do mal. Vamos prestar atenção nas nossas crianças, conversar com elas, dar bons exemplos, ensinar a fazer o bem, dizer não quando for o caso. Em nome do futuro, por uma sociedade melhor, por amor e pelo amor, sem medo e sem culpa.

Leda Nagle

Leda Nagle é jornalista, escritora e apresenta na TV o ‘Sem Censura’

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