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A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA LITERATURA INFANTO JUVENIL COMO FORMADORA DE CONSCIÊNCIA DE MUNDO

 

 

 

INTRODUÇÃO:

Partindo do atual conceito de Literatura, como palavra nomeadora do real e como expressão essencial do ser humano em suas relações com o outro e com o mundo ( ou com a natureza em geral), conclui-se que a Literatura destinada às crianças e aos jovens é um dos instrumentos de maior alcance para a urgente conscientização ecológica desse grupo básico nas sociedades. Ou melhor, a Literatura Infanto-Juvenil é um dos caminhos mais fáceis para a conscientização dos imaturos acerca dos problemas que a Educação Ambiental vem colocando para a sociedade e que estão longe de poderem ser resolvidos.

Como sabemos, a Literatura é, hoje, entendida como uma experiência humana fundamental, uma vez que atua nas mentes, nas emoções, nos sentimentos, ou melhor, no espaço interior do indivíduo e, evidentemente, atua na formação de sua consciência de mundo (a que é visada pela Educação Ambiental). Daí o crescente interesse da educação contemporânea pela inclusão dos livros literários, paradidáticos e didáticos nos currículos escolares, desde as primeiras séries.

A Pedagogia Moderna já provou abundantemente que é através do ludismo, da imaginação, do jogo ou do prazer de interagir com algo, que as crianças (ou os intelectualmente imaturos em geral) assimilam o conhecimento de mundo que lhes é indispensável para construírem seu espaço interior afetivo e racionalmente interagirem com o meio em que lhes cumpre viver.

Daí a importância dos livros literários, paradidáticos e didáticos que vêm sendo publicados entre nós (de maneira ainda incipiente), tendo como tema ou problemática a Educação Ambiental.

CRITÉRIOS ORIENTADORES DA PESQUISA:

Matéria base: Livros literários, paradidáticos e didáticos selecionados, como amostragem, entre os que foram enviados por editoras, secretarias do meio ambiente, organizações não governamentais, entre outros,  em atenção à solicitação feita pelo Instituto ECOAR .

Público-alvo: O Leitor-em-formação, crianças, pré-adolescentes e jovens (em idade escolar).

Metodologia: Leitura e análise das obras selecionadas, a partir de três enfoques básicos de avaliação: a categoria do leitor; o tipo do livro (literário, paradidático e didático) e os aspectos específicos dos livros em causa (maior ou menor conscientização da problemática ambiental, dos valores éticos/estéticos evidenciados nos textos, das relações sociedade-natureza e dos níveis de participação do indivíduo na construção da sociedade). O diagnóstico de cada livro resulta, pois, das relações existentes entre essas três esferas em cada livro.

DEFINIÇÃO DOS CRITÉRIOS:

Categorias de leitor-alvo:

Uma vez que o públi-alvo do corpus literário em questão é o leitor em formação, adotamos a classificação que o diferencia em cinco categorias, segundo o seu nível de compreensão da leitura (ou nível de maturidade mental/intelectual e não, exclusivamente, por faixa etária, como é feito tradicionalmente).

PL – PRÉ-LEITOR (dos 2 aos 5 anos)  Fase dos primeiros contatos da criança com livros antes da alfabetização, quando o objeto-livro e imagens começam a ser descobertas.

LI – LEITOR INICIANTE (a partir dos 6/7 anos)  Fase da aprendizagem da leitura; início do processo de socialização e de racionalização da realidade com que a criança entra em contato.

LEP – LEITOR-EM-PROCESSO (a partir dos 8/9 anos)  Fase do domínio relativo do mecanismo da leitura e de agudização do interesse pelo conhecimento das coisas; com o pensamento lógico se organizando em formas concretas que permitem as operações mentais.

LF – LEITOR FLUENTE (a partir dos 10/11 anos)  Fase da consolidação da leitura e da compreensão do mundo expresso no livro.

LC – LEITOR CRÍTICO (a partir dos 12/13 anos)  Fase de total domínio da leitura, da linguagem escrita, capacidade de reflexão em maior profundidade, podendo ir mais fundo no texto e atingir a visão de mundo ali presente.

(In: COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítico de Literatura Infantil/Juvenil Brasileira (4ª ed. reform.) São Paulo, EDUSP, 1995, p.16)

Tipos de Livros:

Segundo a intencionalidade dominante na matéria literária: lúdica ou instrumental, os livros selecionados apresentam três diferentes diretrizes: a literária, a paradidática e a didática. Embora as fronteiras entre as diretrizes não sejam rígidas ou indiscutíveis, é importante para a prática (na escola ou em casa) que a distinção seja feita. Aqui nos orientamos pelas seguintes definições:

Literário – o livro cuja matéria ou linguagem (narrativa ou poética) resulta da invenção, da transfiguração da realidade em matéria verbal, – matéria que tem valor em si mesma e busca inter-agir com as emoções (prazer, alegria, medo, curiosidade, tristeza, etc.) de seu leitor. Segundo as novas exigências pedagógicas, o livro literário é hoje visto como um dos grandes instrumentos de formação do indivíduo; além das leituras extra classe, deve ser usado dentro do horário escolar (em geral nas aulas de português ou interdisciplinares) como experiências de leitura, interpretação e escrita.

Paradidático – o livro (revista, álbum, jogo…) cuja matéria ou linguagem (via de regra, narrativa) resulta da fusão de duas intenções básicas: ensinar e divertir. Dependendo da orientação do professor ou da escola, pode ser utilizado em atividades dentro ou fora do horário escolar.

O livro paradidático pode assumir duas formas: lúdica ou conceitual.

O paradidático lúdico, como o próprio nome indica, é o que transmite informações através do jogo, propondo atividades ou experiências que estimulam as três esferas de vivências do ser: a das sensações (geradas pelos cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato, paladar); a das emoções (sentimentos de prazer, alegria, medo, etc.) e a da razão (inteligência, capacidade de pensar, analisar, avaliar, refletir, escolher, sintetizar, etc.)

O paradidático conceitual tem claro objetivo pedagógico (pode ser usado como complementação de informações no âmbito das disciplinas de História, Geografia, Matemática, Ciências, etc.). O que o diferencia do didático é o uso da linguagem ficcional, é a utilização do imaginário como suporte ou manipulação do conceitual.

Didático – o livro cuja matéria é organizada de acordo com o currículo escolar oficial e deve ser utilizado dentro do horário escolar.

DESCRIÇÃO DA AMOSTRA:

A amostra de livros examinada pelo enfoque de Literatura Infantil e Juvenil compõe-se de 43 títulos a saber: 20 Literários, 13 Paradidáticos e 10 Didáticos. Estes textos foram assim classificados a partir da definição dos tipos de livros apresentada acima, ou seja, considerando-se as características e peculiaridades da linguagem e do conteúdo expressos em cada um, não importando, nesse primeiro momento, o resultado da obra.

Embora enviados por diferentes fontes que atenderam à solicitação do Instituto Ecoar, a maioria dos títulos compõe-se de publicações oriundas de editoras comerciais, geralmente conhecidas no meio literário infantil. Alguns títulos, no entanto, resultam do trabalho de organizações não governamentais ou centros de estudo sobre questões ambientais.

Em todos os casos, o público-alvo é a criança ou o adolescente e, geralmente, fica subentendida a intenção de “uso” destes materiais no âmbito escolar.

Alguns títulos pertencem a coleções publicadas por grandes editoras, – coleções voltadas para a questão ambiental, onde é comum encontrarmos vários títulos de  um único autor. No caso dos paradidáticos, os autores são, geralmente, biólogos que se lançam num trabalho de Educação Ambiental através da criação de textos que, em tese, ensinem e divirtam ao mesmo tempo.

No caso dos literários, há textos de autores já renomados no cenário da Literatura Infantil, que investem em estórias de cunho ecológico.

Se por um lado, os resultados são variados, podendo ocorrer num mesmo texto, passagens bem realizadas do ponto de vista formal como também equívocos conceituais graves relativos ao conteúdo expresso no livro, por outro lado, uma visão de conjunto da  amostra revela incidências mais ou menos comuns de problemas na construção dos textos. Esses resultados estão sintetizados no item seguinte.

CONSIDERAÇÕES GERAIS:

Das leituras, análises e conclusões realizadas no corpus selecionado, chegamos às seguintes considerações:

1 – Quanto à relação existente entre a categoria do leitor-alvo (pré-leitor, leitor iniciante, leitor em literários, paradidáticos, didáticos,processo, leitor fluente e leitor crítico) e a natureza do próprio livro (literário, paradidático e didático), apresenta evidentes inadequações, em sua maioria: ilustrações de visual “infantil” em textos de assunto e linguagem que requerem categorias mais altas de leitor; informações demasiadamente prolixas (visando a transmissão correta do conteúdo) em narrativas infantis; enredos mal construídos e insuficientes para comportar tamanha diversidade de fatos ou conteúdos ali colocados, de forma a desconsiderar a coesão e a coerência nos textos. Em síntese, predomina o desajuste entre a linguagem literária/conteúdo do livro e a categoria de leitor por ele previsto. O que, a nosso ver, pode ser atribuído ao fato de este tema ainda ser novo no âmbito da literatura e também da educação.

2 – Nas três formas de livros (literários, paradidáticos e didáticos) a preocupação ecológica se manifesta principalmente em relação aos seguintes setores: a poluição dos rios e mares; a destruição das florestas ou o desmatamento em geral, o problema do lixo nas grandes cidades, a higiene das moradias e bairros, a extinção de espécies de animais, o avanço tecnológico versuspreservação da natureza. Tais problemas ambientais são colocados ao leitor, de maneira a conscientizá-lo da necessidade de ele ver o que se passa ao seu redor e de agir de maneira a não contribuir para o aprofundamento dos problemas ali denunciados (ou a tentar minimizá-los). Isso quer dizer que estamos na fase inicial do processo de resgate ecológico que se faz necessário em todas as áreas do universo e setores da sociedade. Fase da conscientização dos problemas e não, de suas possíveis soluções (estas estão ainda no plano individual, ético e político).

3 – O homem é apontado, na maioria dos livros aqui examinados, como o grande responsável pela degradação ambiental, devido à sua ganância de lucro, indiferença humana e ausência de espírito humanitário ou político. Em alguns livros didáticos, já se faz sentir uma visão mais abrangente dos problemas ambientais e apontam-se lacunas ou equívocos no sistema político-econômico predominante. Na maioria dos livros literários ou paradidáticos, a natureza (principalmente o “campo”) é apresentada de maneira idílica, perfeita, e o homem, como o único responsável pelo seu desequilíbro ou degradação.

4 – Em praticamente todo o corpus examinado, há uma clara ênfase no valor atribuído à educação, ao saber, ao conhecimento, como caminhos para a conquista da consciência ecológica, para a auto-descoberta do eu como ser-de-relação, cuja realização depende de sua interação com os outros e com o meio natural e social em que vive. Embora falhos em sua realização especificamente literária, praticamente todos os títulos analisados apontam para essa valorização do saber como caminho para o ser e para um dinâmico fazer (que, em última análise, se identifica com a consciência de cidadania).

5 – Embora um bom número de títulos tenha alcançado um grau satisfatório de realização literária, em grande parte deles predomina o desequilíbrio entre a quantidade de informações (sobre a questão ambiental) passadas ao leitor e a qualidade da ficção que lhes serve de veículo, o que redunda, por vezes, em tornar a leitura extremamente pesada ou cansativa para o leitor.

 

CONCLUSÃO:

A conclusão a que se chega, numa apreciação de conjunto do material de Literatura Infantil e Juvenil aqui analisado, é que estamos no início de um longo processo de conscientização ecológica ou ambiental, dentro do qual a Literatura para crianças e adolescentes, levada para o âmbito da Escola, será um dos grandes instrumentos.

No todo, o corpus aqui em questão (apesar das falhas formais) revela em sua maioria, a consciência de que é preciso a participação de todos os indivíduos no projeto de Educação Ambiental: a urgente necessidade de conscientização de cada indivíduo, grupo ou nação, quanto à sua própria responsabilidade na ação que se faz necessária para, não só amenizar os atuais problemas de degradação dos meios naturais do universo (dos quais o próprio homem depende para sobreviver no planeta), como também encontrar soluções para evitar a continuidade crescente daquela degradação.

Quanto ao nível ou grau de realização formal, positiva, dessa intencionalidade básica, como expusemos acima, esse material apesenta grandes desníveis. Um grande número não conseguiu o indispensável equilíbrio entre o prazer (que o “literário” deve despertar no leitor) e o saber (que o “didático” deve transmitir). Circunstância essa, muito natural, pois a Sociedade está apenas iniciando esse projeto de conscientização (ao qual, não são poucas as instituições ou focos de poder a se oporem), e nessa fase (em qualquer projeto de abertura de caminhos), o que importa mais é o objeto (o problema da degradação ambiental em curso) e não, o modo (a forma ou o discurso literário). Muito embora se saiba que um e outro estão indissoluvelmente ligados, a verdade é que sempre um deles predomina no início, – o objeto em toda a sua amplitude (aqui no caso, o problema da degradação ambiental, poluição dos meios naturais, etc.). Mas não é menos verdade que, à medida em que esse objeto vai tomando forma, mais e mais vai sendo conhecido, aprofundado e naturalmente gerando novas expressões de si, cada vez mais abrangentes. Bem sabemos que quanto mais clara for a “equação do problema”, mais fácil se torna encontrarmos para ele a melhor “solução”. O problema da Educação Ambiental, expresso em nível literário, paradidático ou didático, não será exceção à regra.

Finalmente, como possível contribuição para o aprofundamento da criação/construção do texto literário, paradidático e didático que se destina ao pequeno (ou grande) leitor, acerca da importância e amplidão do problema ambiental, registramos abaixo dados ou componentes que são essenciais ao processo literário, educativo e político.

1 – Consciência de que o conhecimento ou aprendizado das coisas, através da leitura, só se dá quando esta se oferece como algo agradável, prezeroso (daí o ludismo ter-se tornado um dos pontos-chave da pedagogia moderna).

2 – Consciência de que é urgente que se promova a formação cultural básica do povo em geral, – formação que leve o indivíduo à sua auto-descoberta como parte integrante, vital, responsável e dinâmica do todo (seu habitat, meio ambiente, universo, etc.). Formação essa que criará em todos uma nova maneira de pensar o mundo, a vida, o trabalho, as relações eu-outro-mundo. Cidadania “terrestre”, além de “nacional”.

3 – Consciência de que a inter-ação do leitor com o texto determina não só a pretendida assimilação da leitura, mas também as dimensões (ou significados) do próprio texto. Daí a constante preocupação do narrador com o seu público destinatário.

4 – Consciência de que, para solução de qualquer problema (como o da ameaça de destruição ambiental que paira sobre nós), é preciso que antes sejam conhecidos, equacionados e discutidos à exaustão, todos os seus dados constituintes (uma das tarefas da atual Comissão de Estudos do Instituto Ecoar).

5 – Consciência de que todo o material, que está sendo colocado ao alcance dos professores para trabalharem com as crianças ou adolescentes, por mais completo, dinâmico ou significativo que seja, não terá resultados positivos, se tais professores (os verdadeiros mediadores entre as fontes da cultura e os indivíduos a serem formados) não receberem a formação adequada para isso. São urgentíssimos os projetos nesse sentido, isto é, os projetos oficiais de formação adequada e atualizada, não só aos que estão em fase de formação, mas também aos professores-em-serviço. O processo de Educação Ambiental correrá pari passu com essa urgentíssima medida de formação do corpo docente, do qual depende a qualidade da Escola brasileira.

 

Autoras: Nelly Novaes Coelho

Juliana S. Loyola e Santana

 

 

 

 

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