DESENVOLVIMENTO E ESTRUTURA, VERDADE OU FICÇÃO?

Para todos aqueles que trabalham com a Educação um dos conceitos mais conhecidos é a noção de desenvolvimento. Pedra de toque que articula todo o edifício das metodologias e práticas dos professores.


Henri Wallon é, junto com Jean Piaget, um dos autores que teve maior influência na construção do pensamento pedagógico e psicológico francês. Professor em Salpêtrière de 1908-1931 e da Sorbonne de 1920-1937, será a grande figura do pensamento psicológico francês com quem Jacques Lacan debaterá ao longo dos primeiros quinze anos da sua obra.

Na sua obra Psicologia e Educação na Infância, Henri Wallon atribui o berço da Psicologia ao Colégio de França. É a esta instituição que também que designará o encaminhamento definitivo do entrelaçamento entre a Psicologia, a Educação e a Infância.

“ Por três vezes o Colégio de França foi o berço da Psicologia. No Colégio de França foi criada a primeira cadeira de Psicologia, a de Ribot e do seu eminente professor, o Prof. Pierre Janet. Foi o Colégio de França que criou para Henri Piéron a cadeira de Psicologia das Sensações. E é ele quem, hoje, tomou a iniciativa de uma cadeira consagrada à Psicologia e à Educação da Infância – o que se tinha verificado demasiado difícil noutro lugar; por conseqüência, é preciso acreditar numa espécie de incompatibilidade entre os quadros existentes e uma nova disciplina.” 1

Henri Wallon terá, para a Psicologia e a Pedagogia francesas, o mesmo peso que Lacan terá para a Psicanálise. Será o grande desencadeador de movimentos na pedagogia, psicopedagogia e psicomotricidade. Henri Wallon chegará a elaborar uma proposta educacional conhecida como Proposta Longevin- Wallon.

Para Wallon era preciso pensar o lugar da criança a partir de um vínculo novo entre a psicologia e a educação.

“ A educação foi definida como a influência exercida pela sociedade dos adultos sobre a das crianças, para as tornar aptas para a vida social numa determinada sociedade. Assim, apresentar-se-iam dois termos : um seria o que representa a forma social e o outro a matéria individual, fazendo a pedagogia o traço de união e tendo por missão descobrir os meios mais propícios para adaptar os indivíduos à sociedade. Mas uma vez feita esta distinção, absolutamente necessária, é conveniente reconhecer quanto ela é formal e distante da realidade concreta. (…) Os tipos de sociedade diferem profundamente entre si. E não seria possível encontrar um indivíduo que fosse o homem da natureza, que não fosse o homem de uma certa sociedade. (…) A atividade da criança só pode revelar-se no momento oportuno e por meio dos instrumentos que lhe fornecem tanto os utensílios materiais como a linguagem usada à sua volta.” 2

De onde extrai Wallon esta concepção? Da mesma fonte que Lacan utilizará no Seminário Problemas Cruciais da Psicanálise – Lev Vygotsky. Tanto Wallon quanto Vygotsky são autores marxistas que se preocuparam com o vínculo entre a linguagem e a sociedade, estruturado a partir da ótica pedagógica.

Para Vygotsky o símbolo ocupa no plano cultural o mesmo papel que os instrumentos materiais ocupam no processo de construção das sociedades. São elementos de intermediação. O símbolo é o instrumento da cultura que possibilita, através da linguagem, o processo de constituição dos sujeitos.

Entre as décadas de 60 e 90 se tornaram cada vez mais evidente a importância do símbolo e das imagens na elaboração do pensamento das crianças. O que acabou por acarretar a emergência de dois modelos teóricos novos, além do chamado modelo comportamentalista : o cognitivismo e o construtivismo.

Por cognitivismo se entende o estudo dos processos mentais dos sujeitos a partir dos circuitos simbólicos sociais. Por construtivismo se entende o estudo dos processos mentais dos sujeitos a partir das perspectivas individuais. Em ambos o símbolo desempenha um papel nodal. É ele que possibilita o estabelecimento dos esquemas ou estruturas mentais.

As estruturas mentais ou esquemas são padrões que possibilitam ao sujeito formas organizadas de elaboração do pensamento. Para Wallon as estruturas mentais não são dadas desde o início elas tem que ser construídas.

“ (…) O pensamento existe apenas pelas estruturas que introduz nas coisas. Inicialmente, há estruturas muito elementares. O que é possível constatar, desde o início, é a existência de elementos que estão sempre aos pares. O ELEMENTO DE PENSAMENTO É ESSA ESTRUTURA BINÁRIA, não os elementos que a constituem. A dualidade precedeu a unidade. O par é anterior ao elemento isolado. Todo termo identificável pelo pensamento, pensável, exige um termo complementar, com relação ao qual ele seja diferenciado e ao qual possa ser oposto.” 3

Mas de onde vieram estes pares de oposição? Da linguagem, do circuito social que cerca a criança. A este contexto Wallon nomeará de ambiência.

“ O objeto da psicologia pode ser, em vez do indivíduo, uma situação e confunde-se com o efeito que esta situação suscita, com a solução buscada ou encontrada das dificuldades que ela apresenta. O sujeito é visto apenas através do seu comportamento, em ligação estreita com as circunstâncias que o fazem reagir. Nada delimita a priori a parte das circunstâncias e a do sujeito. Nada permite presumir o papel respectivo das estruturas biológicas e da invenção psíquica, do organismo e da pessoa. Só a observação, a análise e a comparação tornam possível a discriminação dos fatores em jogo. Este método, estritamente objetivo, que parte da indivisão entre forças externas e internas, entre necessidades físicas e possibilidades mentais, é, no entanto, o mais capaz de mostrar as oposições ou os conflitos e de fazer as diferenciações que se seguem a tudo isso. Porque as relações mais primitivas do ser vivo e do meio são aquelas em que as suas ações se combinam totalmente.” 4

Lacan irá abordar o conceito de complexos familiares vinculando-o a uma ambiência.
“ O complexo, com efeito, liga sob uma forma fixada um conjunto de reações que pode interessar todas as funções orgânicas desde a emoção até a conduta adaptada ao objeto. O que define o complexo, é que ele reproduz uma certa realidade da ambiência, e duplamente:

1) a sua forma representa esta realidade no que ela tem de objetivamente distinto numa dada etapa do desenvolvimento psíquico; esta etapa especifica a sua gênese; 2) a sua atividade repete no vivido a realidade assim fixada, sempre que se produzem certas experiências que exigiriam uma objetivação superior desta realidade; estas experiências especificam o condicionamento do complexo. (….) o complexo é dominado por fatores culturais: no seu conteúdo, representativo de um objeto; na sua forma, ligada a uma etapa vivida da objetivação; enfim na sua manifestação de carência objetiva, em relação a uma situação atual, isto é, sob o seu triplo aspecto de relação de conhecimento, de forma de organização afetiva e de provação ao choque do real.”5

A noção de complexo familiar é um dos momentos que mais aproxima Lacan de Wallon. O complexo familiar como ambiência. Para Wallon há um ambiente que cerca o sujeito como um envoltório, tecendo-o através da linguagem e da fala.
Assim, parte-se de um modelo de teoria desenvolvimentista que não é mais pré-fixada ao universal. Há a particularidade, há a singularidade.

“ A partir de Piaget, a psicologia estuda o nominalismo e o realismo da criança e também sob o fóco da hipótese de Piaget são considerados estádios derivados de etapas sensório-motrizes peculiares. Wallon, pelo contrário, não encontra nisso estádios para ultrapassar, etapas sucessivas, mas interação entre o real que corresponde à percepção sensório-motriz e a tarefa conceptual de discernir e integrar. Donde resulta o trabalho de diferenciação e identificação progressivas(…) A primeira coisa que ressalta no pensamento infantil é a descontinuidade. A criança mostra na sua conduta prática ou intelectual perplexidade, indecisões que pareceriam revelar conflitos em potência; o desenvolvimento do pensamento na criança é descontínuo, assinalado por “crises”, “conflitos”, que Wallon compara com mutações biológicas, saltos numa palavra, e que provocam reestruturações ( não evoluções ) do comportamento. Para Wallon, o desenvolvimento da criança é dialético.” 6

A passagem de Piaget para autores como Vygotsky e Wallon vieram introduzir na Pedagogia e Psicologia atuais uma outra idéia de desenvolvimento: um desenvolvimento dialético. Pode-se mesmo dizer que um dos problemas atuais que os professores enfrentam diz respeito ao uso do modelo evolucionista que foi feito na pedagogia. Ele levou ao estabelecimento de formas estruturadas de encaixe dos alunos em duas grandes categorias: os alunos normais e os alunos diferentes ou deficientes.

A concepção walloniana possibilita a saída desta vertente ainda dentro de um paradigma desenvolvimentista. Ele irá propor uma não-linearidade no processo de desenvolvimento da criança. Esta idéia será encampada por Jacques Lacan no seminário II ao afirmar o modo de funcionamento da análise:

“A dimensão descoberta pela análise é o contrário de algo que progrida por adaptação, por aproximação, por aperfeiçoamento. É algo que vai aos saltos, aos pulos. É sempre a aplicação estritamente inadequada de certas relações simbólicas totais, e isso implica diversas tonalidades, por exemplo, a imição do imaginário no simbólico, ou inversamente. No homem é a má forma que é prevalente. É na medida em que uma tarefa está inacabada que o sujeito volta a ela. É na medida em que um fracasso foi acerbo que o sujeito se lembra melhor dele.” 7

Há na Pedagogia atual um centramento dos professores e especialistas em termos da normatividade. As consequências deste processo Lacan já havia assinalado em 1953/54 :

“Fracassará toda intervenção que se inspirar numa reconstituição pré-fabricada, forjada a partir de nossa idéia sobre o desenvolvimento normal do indivíduo, e visando à sua normalização.” 8

Qual a importância de pensarmos a questão da Educação à luz das colocações de Jacques Lacan? Ela possibilita que nós saíamos de uma concepção redutora do processo de constituição do sujeito. Uma concepção universalista que é bastante tradicional na história da humanidade.

O conceito de estrutura em Lacan introduzirá um outro diferencial. Jacques Allain-Miller assinala:

“ A estrutura não subtrai um conteúdo ‘ empírico’ a um objeto natural, como tampouco agrega “ o inteligível”. Se nós nos contentarmos em expor um objeto na dimensão de uma rede para descrever a disposição de seus elementos, isolar-se-á o produto da produção , estabelecendo-se entre eles uma relação de exterioridade, e com o fim de torná-los indiferentes à causa. ( …. ) somente se autoriza um pensamento mecanicista.” 9

Por estrutura Lacan não concebe nem uma leitura reduzida a um conteúdo empírico, nem a um processo meramente compreensível do ponto de vista simbólico. O conceito de estrutura em Lacan apresenta outros articuladores. Lacan vincula a estrutura ao registro do real, que não se confunde com a realidade concreta das coisas e dos sujeitos. Para Lacan o registro do real é aquele que volta sempre ao mesmo lugar. Ou seja, o registro do real é aquilo que o sujeito não consegue apreender através da linguagem e da fala em um determinado momento. O registro do real é tecido através do discurso sem palavras. “Algo”que não pode ser captado através das imagens e dos símbolos. “Algo”que não se confunde com o real simbolizado ou imaginirizado que a linguagem e a fala apresentam.

Lacan revela que para captar o registro do real é preciso se abrir para uma outra escuta. De coisas, pessoas e processos.

Neste sentido, diremos que com Lacan há um processo constante de captação da Educação através de imagens e símbolos. No entanto, o registro do real escapa a este processo. É nele que está o impossível de educar que Freud apontava.
Um impossível de educar que pressupõe uma passagem para a ficção da linguagem para apreender a verdade do sujeito, a verdade do aluno, a verdade da escola.

O que fracassa em relação à escola? É a nossa tentativa de visarmos conter o ensino em modelos estruturados, em modelos normalizados. O ensino esta além deste processo. Ele esta no registro do real. Onde ele se inscreve de uma outra forma, deixando outros traços: mas ai só poderíamos mapear o seu processo através dos matemas e da linguagem simbólica.

Autora: Profa. Dra. Leny Magalhães Mrech

Referências:

1 WALLON, Henri – PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO DA INFÂNCIA. Lisboa, Editorial Estampa, 1975, p. 9 – Lição de Abertura no Colégio de França, Maio de 1937.
2 WALLON, Henri – ob. cit, p. 11.
3 WALLON, Henri – AS ORIGENS DO PENSAMENTO NA CRIANÇA.( publicado originariamente em 1945). São Paulo, Sarvier, 1989, p. 30.
4 WALLLON, Henri – DO ATO AO PENSAMENTO. Lisboa, Portugal Editora, s/d/p/ p. 88.
5 LACAN, Jacques – A FAMÍLIA. Lisboa, Assírio e Alvim, 1987,p. 23 e 24.
6 MERANI, Alberto L. – PSICOLOGIA E PEDAGOGIA – As Idéias Pedagógicas de Henri Wallon. Lisboa, Editorial Notícias, 1977, p. 87.
7 LACAN, Jacques – O EU NA TEORIA DE FREUD E NA TÉCNICA DA PSICANÁLISE. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985, p. 113 e 114.
8 LACAN, Jacques – ob. cit., p. 61.
9 MILLER, Jacques – Allain – MATEMAS I. Buenos Aires, Manantial, 1987, p. 9.