WALLON: O EDUCADOR INTEGRAL

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1. INTRODUÇÃO

Este trabalho convida você fazer uma reflexão sobre um pouco das obras e trajetória do pensador Henry Wallon que deixou uma significativa contribuição para nossa educação. Henri Paul Hyacinthe Wallon nasceu em Paris, na França, em 15 de junho de 1879. Antes de se dedicar à psicologia passou pela filosofia e a medicina. Viveu em um período marcado por instabilidade social, turbulência política e crises sociais que foram fundamentais para que esse francês construísse sua teoria pedagógica.

As duas grandes guerras mundiais, o avanço dos regimes fascista e nazista na Europa, a revolução comunista na Rússia e as guerras pela libertação das colônias africanas, na primeira metade do século 20, serviram de estímulo para que ele organizasse suas ideias. Atuou como médico durante a 1ª Guerra mundial, no batalhão do exército francês. Teve contato com lesões cerebrais de ex-combatentes, adultos traumatizados e renovou e aprofundou as suas conclusões. Podemos também ressaltar sua experiência como médico em meados de 1931, em uma clínica psiquiátrica. Já em 1925, fundou um laboratório destinado à pesquisa e ao atendimento de crianças ditas deficientes como também publicou sua tese de doutorado intitulada “A Criança Turbulenta”.

Ao longo de toda a sua carreira se interessou e se dedicou a conhecer à infância e os caminhos da inteligência nas crianças. A psicologia da criança é um dos principais ramos do estudo da psicogenética do homem, pois é na infância que se localiza a gênese da maior parte dos processos psíquicos, esse foi um dos motivos do interesse dele em trabalhar com crianças. Após a segunda guerra mundial em 1947 propôs mudanças estruturais no sistema de ensino educacional francês. Coordenou o projeto Reforma de Ensino que dizia que nenhum aluno deve ser reprovado numa avaliação escolar, pois reprovar era sinônimo de expulsar, negar e excluir, ou seja, a própria negação do ensino. Em 1948, lançou a revista Enfance que revolucionou o mundo da educação e rapidamente se tornou uma espécie de bíblia de muitos pesquisadores e professores.

Publicou ainda vários trabalhos. Podemos destacar os de maior repercussão. São eles:

– Evolução psicológica da criança, Andes, Rio de Janeiro, s.d.
– Psicologia e educação da infância, Estampa, Lisboa, 1975 (coletânea)
– Objetivos e métodos da psicologia, Estampa, Lisboa, 1975.
– Origens do pensamento na criança, Manole, São Paulo, 1989.

Ao longo da sua trajetória foi crescente seu interesse cada vez maior pela educação. Wallon via a escola com um contexto privilegiado para o estudo da criança e foi nas fases iniciais da infância que concentrou seus trabalhos, estudando o campo da consciência.

“Acreditava que a pedagogia oferecia um campo de observação a psicologia e questões para investigação. A psicologia por sua vez ao construir conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil oferecendo elementos diversos aos educadores para reflexão sobre o aprimoramento da prática, campo de observação, de aplicação e controle, provocando uma adequação tanto da escola como dos professores a um aprendizado que atenda as necessidades da criança nos planos cognitivo, afetivo e motor promovendo seu desenvolvimento de forma integrada. Enfim, Psicologia e Pedagogia servem de instrumento uma para a outra. Dependo do objetivo de que se tem em vista, a psicologia pode ser instrumento para a pesquisa pedagógica, assim como a Educação pode ser campo e pretexto para a investigação psicológica.” (GALVÃO, 2007. P. 34)

Embora não sendo um pedagogo, toda a sua obra está impregnada de elementos que permitem elaborar uma proposta de educação. Henri Wallon presidiu a comissão que elaborou um projeto de reforma de ensino para a França de teor tão avançado que permanece parcialmente irrealizado.
Ele baseou sua teoria em quatro elementos centrais que se comunicam o tempo todo: emoção, movimento, inteligência e a formação do eu como pessoa. Essa teoria do desenvolvimento chamada de Psicogenética acreditava no estudo da pessoa completa, desenvolvendo os aspectos cognitivo, afetivo e motor da criança.

“Diferente dos métodos tradicionais (priorizam a inteligência e o desempenho em sala de aula), a proposta walloniana põe o desenvolvimento intelectual dentro de uma cultura mais humanizada. A abordagem é sempre de considerar a pessoa como um todo. Elementos como afetividade, emoções, movimento e espaço físico se encontram num mesmo plano. As atividades pedagógicas e os objetos, assim devem ser trabalhados de formas variadas. Os temas e as disciplinas não se restringem a trabalhar o conteúdo, mas a ajudara descobrir o eu no outro. Essa relação dialética ajuda a desenvolver a criança em sintonia com o meio”. (FERRARI, 2008, P.1)

Wallon (1979) destacou ainda um tipo específico de manifestação afetiva para estudar com mais afinco, as emoções. Elas têm papel preponderante no desenvolvimento da pessoa, é por meio delas que o aluno externa seus desejos e suas vontades. Por que as emoções? Por serem as primeiras manifestações afetivas presente na criança e como é um fator fundamental de interação da criança com o meio no qual ela está inserida.

Olhar a criança de forma integrada compreende 4 campos funcionais:  o primeiro campo é o da afetividade, um dos principais elementos de desenvolvimento humano que revela traços importantes do caráter e da personalidade. Em geral essas manifestações expressam um universo importante, porém pouco estimulado pelos padrões tradicionais de ensino. Ele era a favor de que a criança pudesse ser menos imobilizada, realizando atividades lúdicas, pedagógicas, sair um pouco destes padrões de rigidez de que ela deve permanecer sentada em uma cadeira durante toda a aula, limitando a fluidez de suas emoções e seus pensamentos tão importantes para seu desenvolvimento completo de uma pessoa. Sem falar que é fundamental um bom relacionamento entre aluno e professor para que facilite o processo de ensino aprendizagem, caso essa relação seja difícil ou conturbada pode-se criar um bloqueio, fazendo com que a criança tenha dificuldades de aprendizagem e assimilar as informações.

“A afetividade, nesta perspectiva, não é apenas uma das dimensões da pessoa: ela é também uma fase do desenvolvimento, a mais arcaica. O ser humano foi, logo que saiu da vida orgânica, um ser afetivo. Da afetividade diferenciou-se, lentamente, a vida racional. Portanto, no início da vida, a afetividade e inteligência estão sincreticamente misturadas, com o predomínio da primeira”. (DANTAS, 1992: P. 90)

A afetividade é a mais antiga das fases do desenvolvimento, pois o ser humano é afetivo. Tanto a afetividade quanto a inteligência estão intimamente ligadas e são indissociáveis, elas se misturam e formam uma só.

“A afetividade se faz presente por meio das manifestações fisiológicas da emoção constituindo o ponto de partida do psiquismo. É por isso que o bebê, neste longo período de dependência do outro, mobiliza o meio para ser entendido, em suas necessidades de sobrevivência, caso contrário, morreria. O choro é um exemplo de como uma função biológica que é contagiante e epidérmica, mobiliza o outro, constituindo-se numa das características da expressão emocional”. (MARQUEZANO, 2008, P. 30)

No período de dependência da criança, como ainda não consegui falar concentra seus esforços no apelo emocional, gritando ou chorando alto para chamar a atenção dos pais e ser compreendida. Isso é uma característica marcante da afetividade. O segundo campo estudado foi o movimento, que é a ação de se deslocar.

“1º sinal de vida psíquica. Pode ser uma ação executada para alcançar um objetivo como andar, correr, como também não necessariamente pode ser deslocamento, mas expressão na base das emoções como se comunicar, falar, sorrir, associado a outros indivíduos. Também é importante uma organização dos espaços para elaboração de atividades que promovam o desenvolvimento motor com fins educativos”. (GALVÃO, 1999, P. 58)

Qualquer tipo de deslocamento, ação, reação emocional, comunicação, expressão é considerado movimento. Outro campo importante analisado por Henri Wallon é a inteligência.

“A teoria pedagógica de Wallon diz que o desenvolvimento intelectual não se limita apenas a cérebro é muito mais que isso. Ele foi o primeiro a levar não só a cabeça da criança, mas também suas emoções para dentro da sala de aula”. (GALVÃO, 1999, P.62)

Conforme essa teoria a criança não é só o aspecto intelectual, mas também suas emoções, o que está sentindo e a importância de serem manifestadas. Wallon foi um o pioneiro a defender esse elemento no campo das ideias, depende essencialmente do como cada indivíduo interage e destacou a inteligência discursiva que se expressa e se constituem por meio da linguagem, a fala. O último elemento no campo das ideias é a personalidade que significa caráter pessoal de um indivíduo.

“A personalidade tem uma relação direta com os outros campos funcionais. A construção do eu depende essencialmente do outro e quanto mais diferente for à vivência social do sujeito, mais importante será para a formação e o enriquecimento da personalidade da criança”. (WALLON, 1979, P.278)

Afetividade e inteligência caminham juntas, não se pode trabalhar os currículos escolares de forma unicamente cognitiva deixando as emoções em segundo plano, a psicogenética Walloniana considera a pessoa como um todo, sendo assim, a evolução da afetividade depende das construções realizadas no plano da inteligência, assim como o plano da inteligência depende das construções afetivas. Trabalhando a educação de forma tradicional destacando apenas o aspecto cognitivo a escola acaba engessando a criança limitando-a apenas a uma carteira impedindo a expressão de suas emoções e pensamentos, tão importantes para o desenvolvimento completo da pessoa.

Conclui-se que a teoria walloniana revelou-se como uma importante contribuição para a educação, pois um estudo da criança não é um mero instrumento para a compreensão do psiquismo humano. Essa teoria é uma ferramenta que pode ampliar a concepção do professor sobre as possibilidades do aluno no ensino aprendizagem e fornecer subsídios para aprofundar a reflexão sobre a prática pedagógica de como o ensino pode criar condições para favorecer esse processo, proporcionando a aprendizagem de novos comportamentos, ideias e valores como também motivar a investigação educacional e ao mesmo tempo impõe exigências sobre esta prática, cobrando da escola o atendimento do indivíduo não só no âmbito intelectual, mas também como um todo.

Há também um grande desafio para o professor de hoje, que teve uma formação na qual sua integridade não foi levada em conta. Enxergar seu aluno em sua totalidade, pois professor e aluno participam de vários meios, dentre eles a escola. Esta escola é fundamental para o desenvolvimento de ambos, ao dar oportunidade de participar de diferentes grupos, nesse meio, professor e aluno são prejudicados um pelo outro e pelo contexto onde estão inseridos. Não satisfazendo as necessidades cognitivas, afetivas e motoras, isso compromete diretamente o processo ensino-aprendizagem no aluno, podendo gerar dificuldades de aprendizagem. Já no professor pode causar insatisfação, descompromisso, indiferença, prejudicando sua atividade.

2. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DANTAS, Heloysa. Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias Psicogenéticas em Discussão, LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl de; São Paulo, Summus, 1992.

FERRARI, Márcio. Henri Wallon: o educador integral. Revista Nova escola, Edição especial, jul. 2008.

GALVÃO, Isabel. Uma Reflexão Sobre o Pensamento Pedagógico Sobre Henri Wallon. Disponível em:http://www.crmariocovas.sp.gov.br/ dea_a.php?t=009: Acesso em 04 mai. 2010.

_______________. Henri Wallon: Uma Concepção Dialética do Desenvolvimento Infantil. 4ª Ed. Petrópolis, Vozes, 1995, 133p. Disponível: www.crmariocovas.sp.gov.br/dea_a.php?t=009. Acesso em 4 mar. 2010.

MARQUEZANO, Viviane Laperuta, O cuidar na ação do formador de professores, Mestrado em Educação: Psicologia da Educação. Disponível: http://dominiopublico.qprocura.com.br/…/O-cuidar-na-acao-do-formador-de-professores.html. Acesso em 28 abr. 2010.

Autor: Autor: Rafaela Lima


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