VANTAGENS E DESVANTAGENS DA ALFABETIZAÇÃO PRECOCE

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[…] ATÉ OS SEIS ANOS, O MAIS IMPORTANTE É BRINCAR LIVREMENTE PARA DESFRUTAR A PRIMEIRA INFÂNCIA, QUE DURA TÃO POUCO

Alfabetização precoce é bom ou ruim para as crianças?

A alfabetização precoce, dúvida que tira o sono de muitos pais, ganha cada vez mais adeptos nas Escolas infantis da capital paulista. Confira matéria do Jornal da Tarde sobre o assunto.

Aprender a ler e escrever já na primeira infância garantirá adultos mais felizes, capazes e bem-sucedidos? A alfabetização precoce, dúvida que tira o sono de muitos pais, ganha cada vez mais adeptos nas Escolas infantis da capital (SP). Essa tendência não agrada grande parte dos especialistas da área, que defendem que criança tem de ser criança. Outros, porém, acreditam nessa antecipação. “As últimas pesquisas mostram que esses espaços (escolas infantis) são para se aprender diferentes tipos de linguagem. A escrita não deve ser prioridade e a alfabetização não é conteúdo desses estabelecimentos”, diz Maria Letícia Nascimento, docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Fórum Paulista de Educação Infantil.

Segundo especialistas, a corrida para saber ler e escrever foi impulsionada com a recente aprovação da lei que aumentou a duração do ensino fundamental de 8 para 9 anos, transformando o último ano da Educação infantil no primeiro do ensino fundamental.
Para que seus alunos não chegassem a essa etapa sem nunca ter pego no lápis e, claro, para não perder clientes, colégios particulares começaram a acelerar o início da alfabetização aos 3 anos.

A motivação, em geral, vem da ansiedade dos próprios pais. “Muitos acreditam que o filho tem de ser o melhor. Por isso esperam que tenham o conhecimento antecipado”, observa Maria Letícia. Mas, segundo ela, não é colocando o filho em uma Escola que ensina alemão no 1º ano de vida que os pais vão garantir que a criança seja um adulto melhor. “O importante é que nessas Escolas ela viva bem a infância, busque experiências, lide com o coletivo que não é a casa dela. Se sociabilize. A Escola infantil não prevê salas de aula, mas espaços em que a criança mantenha relacionamentos interpessoais”, explica.

Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, diz que, como política de inclusão de crianças fora de Escolas não absorvidas por creches e pré-escolas públicas, a mudança foi fundamental. “Mas é preciso admitir que o impacto pedagógico da lei e os efeitos práticos que poderiam vir a ocorrer foram poucos discutidos”, afirma.

Hoje é consenso que a criança, segundo ele, está sendo pressionada a terminar o 1º ano do ensino fundamental com 6 anos já lendo e escrevendo, tanto na rede públicas como na privada. “As crianças estão sendo cobradas cedo demais a ter contatos com conteúdos e habilidades que não desenvolveram ainda”, analisa. Para Cara, essas apostas não têm de ser colocadas na Educação infantil. “Escolas que priorizam o conteúdo precocemente podem gerar o efeito inverso e criar desinteresse pelo ensino.” De acordo com Cara, o fundamental é estimular o contato com o mundo social, a capacidade de interagir e trabalhar valores.

Maria Regina Maluf, da pós-graduação em psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC), discorda. “Inclusive em nível internacional já ficou demonstrado que não é cedo alfabetizar aos 6 anos ou até antes.” Para ela, a questão está mal colocada. “Aprender é sempre bom, porque vivemos em uma cultura letrada. Aprender a ler e a escrever é um desafio, uma conquista, algo bom. Faz parte do contexto.”

Maria Malta Campos, da PUC e da Fundação Carlos Chagas, concorda. “A criança tem interesse pelas letras”, diz. “Algumas aprendem sozinhas, outras demoram um pouco mais. O que é fundamental é que as Escolas levem em conta essas diferenças sem pressioná-las.” A pais insones, ela responde a questão lançada no início da reportagem: “Não se preocupe se o coleguinha já está lendo e o seu filho, não. No tempo dele essa habilidade será desenvolvida. Não é escrevendo cedo que ele será um adulto mais feliz.”

Como deve ser
Atividades de leitura e escrita devem ser apresentadas de forma lúdica, atrativa e adequada para cada faixa etária para não gerar desinteresse.

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Atividades corporais que trabalham noções espaciais e coordenação motora são habilidades importantes para desenvolver a escrita.

Há recursos para introduzir a criança no mundo das letras, como contação de histórias
em voz alta, facilitação do acesso a livros infantis, músicas, etc.

A Escola precisa estar preparada para diferentes ritmos de desenvolvimento.

Tentar acelerar o processo e discriminar as que não conseguem se alfabetizar é prejudicial.

As que ainda não desenvolveram curiosidade ou interesse pela leitura ou escrita vão chegar ao mesmo resultado em pouco tempo em relação às que despertaram esse interesse mais cedo.

Com cobrança para alfabetização sem amadurecimento corre-se o risco de a criança ficar estressada, perder a motivação e se achar menos inteligente que as demais.

Professores precisam se desprender de métodos antigos de ensino que preconizavam que todos os alunos deveriam ser alfabetizados ao mesmo tempo e juntos. A realidade mostra que isso não acontece.

É preciso “desembrulhar” primeiro a linguagem oral e depois a escrita.

Crianças pequenas precisam desenvolver a sociabilização e a criatividade, de preferência brincando
Fonte: Jornal da Tarde

ROSELY SAYÃO

Alfabetização precoce


[…] ATÉ OS SEIS ANOS, O MAIS IMPORTANTE É BRINCAR LIVREMENTE PARA DESFRUTAR A PRIMEIRA INFÂNCIA, QUE DURA TÃO POUCO


O pai de um garoto de dois anos conta que o filho já sabe o nome de quase todas as cores e também contar até doze, tudo ensinado por ele e pela mãe. O próximo passo será ensiná-lo a escrever o nome. A mãe de uma menina de quatro anos está aflita porque teve de matricular a filha em uma escola mais em conta neste ano, que não pede lição de casa nem ensina a ler e a escrever algumas palavras, como a anterior. Ela acredita que a filha irá regredir nos estudos.
Muitos pais de filhos com menos de seis anos andam afoitos para que estes se iniciem nas letras e nos números, aprendam conteúdos específicos na escola, tenham acesso a outra língua etc. Estudos mostram que essas crianças têm alta capacidade de aprender.
Muitas escolas, atentas a esse anseio, passaram a ofertar estímulos para a alfabetização precoce. Os pais, em geral, ficam satisfeitos com esse procedimento e orgulhosos das conquistas dos filhos. Mas essa atitude é boa para as crianças?
Nossa reflexão a esse respeito não pode se basear em estudos sobre vantagens e desvantagens da alfabetização antes dos seis anos. Tal discussão está posta há tempos e não permite conclusão, já que especialistas se dividem em posições opostas e se fundamentam em pesquisas científicas. Talvez o melhor caminho seja pensar em alguns efeitos da introdução precoce da leitura e da escrita.
O primeiro deles é que um bom número dessas crianças não aprende as letras e passa a apresentar o que se convencionou chamar de dificuldade de aprendizagem. Pasmem: muitos médicos têm recebido pais torturados cujos filhos com três, quatro ou cinco anos não acompanham os colegas em tal aprendizado.
Esse fenômeno ocorre porque nem toda criança se interessa por aprender a ler e a escrever o nome dos colegas ou simplesmente não está pronta para enfrentar o processo de alfabetização. Como a escola, em geral, não tem metodologia para lidar com grupos de alunos com diferenças de ritmos e de maturidade entre si, acaba por tratar a média como norma. Assim, crianças que não se situam nessa média costumam ser suspeitas de apresentar algum distúrbio de aprendizagem.
O segundo efeito da alfabetização precoce é que ela contribui para o desaparecimento da infância. Que crianças pequenas já carreguem grande parte do peso do mundo adulto porque não conseguimos mais protegê-las dele é fato. Mas colocá-las intencionalmente nesse mundo é bem diferente.
Até os seis anos, o mais importante é brincar livremente para desfrutar o que pode da primeira infância, que dura tão pouco. Claro que algumas se interessarão pelas letras espontaneamente. Que isso seja tratado como brincadeira, então.
Acelerar a aprendizagem na esperança de uma melhor formação para o futuro é ilusão e equívoco de nossa parte.
Cabe aos pais e às escolas a defesa intransigente do direito que a criança tem de ter infância, já que tudo o mais conspira para o desaparecimento dessa fase. Nossas escolhas mostram se realizamos isso ou não.


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)

rosely.sayao@grupofolha.com.br

blogdaroselysayao.blog.uol.com.br

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