SUBJETIVIDADE, EDUCAÇÃO E ESCOLHA PROFISSIONAL

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Subjetividade, Educação e Escolha Profissional

RESUMO

O nosso modo de ser, ou seja, nossa subjetividade tem elementos inatos, determinados biologicamente (pela hereditariedade), e também aspectos culturalmente adquiridos, que nós aprendemos ao longo da vida através de nossas experiências. Guimarães Rosa tem uma frase que define muito bem, esta característica psicológica que nos leva a ser mutáveis:

“O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando”. Ao buscar compreender os processo de desenvolvimento e de transformação do homem, a Psicologia (ou ainda, as diferentes escolas psicológicas) contribui para o esforço das organizações em compreender e gerenciar as relações entre os homens no ambiente de trabalho, uma necessidade importante para as empresas que precisam tornar-se sempre mais produtivas, eficazes e competitivas. Inúmeras questões teórico-metodológicas têm sido formuladas acerta da utilização da concepção histórico-cultural na pesquisa psicológica.

Dentre elas, destacam-se como centrais os problemas ligados ao caráter dialético entre a constituição do sujeito e as relações sociais, principalmente ao se considerar que este ponto de encontro é, na contemporaneidade, caracterizado por metamorfoses múltiplas.

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Esta característica torna complexo o processo de análise em estudos que se debruçam sobre os temas que levam em conta as relações humanas. Considerações sobre a importância da relação entre sujeito e sociedade podem ser encontradas em diferentes trabalhos (Rey & Guareschi, 1999; Rivière, 1985), desvelando questões epistemológicas que implicam a impossibilidade da dissociação na dialética entre sujeito e objeto.

Destaca-se, daí, a necessidade de instrumentos adequados que possibilitam o acesso aos significados da materialidade histórica e como esses são apropriados pelos sujeitos.

Palavras-Chave: Subjetividade, Sujeito Epistemologia Qualitativa, Educação.


THE SUBJECTIVITY AND ITS IMPLICATIONS IN THE PROFESSIONAL CHOICE AND THE FORMATION Of The PSYCHOLOGY STUDENT

ABSTRACT

Our way of being, or either, our subjectivity has innate, determined elements biologicamente (for the hereditary succession), and also culturally acquired aspects, that we learn to the long one of the life through our experiences. Pink Guimarães has a phrase that it very defines well this psychological characteristic that in takes them to be changeable: “O important and pretty of the world is this: that the people are not always equal, still they had not been finished, but that they always go mudando”. When searching to understand the process of development and transformation of the man, Psychology (or still, the different psychological schools) contributes for the effort of the organizations in understanding and managing the relations between the men in the work environment, an important necessity for the companies whom they need to always become more productive, efficient and competitive.

Innumerable questions theoretician-metodológicas have been formulated make right of the use of the description-cultural conception in the psychological research. Amongst them, they are distinguished as central offices the on problems to the dialético character enter the social constitution of the citizen and relations, mainly to if considering that this point of meeting is, in the contemporaneidade, characterized for multiple metamorphoses. This characteristic becomes complex the process of analysis in studies that if lean over on the subjects that take in account the relations human beings. Considerações on the importance of the relation between citizen and society can be found in different works (Rey & Guareschi, 1999; Rivière, 1985), desvelando epistemológicas questions that imply the impossibility of the dissociação in the dialectic between citizen and object. It is distinguished, from there, the necessity of adequate instruments that make possible the access to the meanings of the historical materiality and as these are appropriate for the citizens.

Key words: Subjectivity, Qualitative Epistemologia Citizen, Education.


INTRODUÇÃO

O objetivo de estudo neste trabalho é a compreensão da escolha do estudante pelo curso de psicologia, e sobre a maneira pela qual este significado pode influenciar os rumos tomados pelo estudante durante sua formação, foi utilizado a pesquisa qualitativa, com o método de história de vida, para compreensão da subjetividade neste contexto.

O presente artigo tem como objetivo uma definição da história de vida, subjetividade de um indivíduo na escolha do curso de Psicologia.

A história de vida complementa os vários elementos já apontados pelos autores cotejados, sendo como um arquivo entrelaçando o verdadeiro, o vivido, o adquirido e o imaginado. A busca da subjetividade fora considerada instrumento privilegiado para análise e interpretação, na medida que incorpora existências subjetivas a contextos sociais.

No presente artigo, a busca forneceu base consistente para o entendimento do componente individual dos fenômenos históricos.

A história devida fora extraída de algumas experiências prolongadas, nas quais a interação entre pesquisador e pesquisado se deu de uma forma contínua.

A idéia de diferenças epistemológicas entre as pesquisas qualitativa e quantitativa, defendida pelo autor em relação ao uso do termo epistemologia qualitativa, é analisada em relação a um conjunto de questões críticas da produção do conhecimento, as quais quase sempre têm permanecido fora da atenção da pesquisa tradicional. Essas questões são: o caráter ativo do sujeito na produção do conhecimento; a ciência como construção teórica; o problema da validade na pesquisa qualitativa.

Neste artigo é salientada a idéia de que a psicologia deve passar de uma epistemologia da resposta para uma epistemologia da construção, ou que pressupõe substituir o papel tradicional dos instrumentos por uma aproximação metodológica construtiva interpretada. A construção teórica é uma produção humana envolvida de forma permanente com a realidade. O real representa também um momento ativo na construção da pesquisa, de muitas formas, as quais, às vezes, estão além da própria expectativa do pesquisador.

A subjetividade representa um macroconceito orientado à compreensão da psique como sistema complexo, que de forma simultânea se apresenta como processo e como organização. O macroconceito representa realidades que aparecem de múltiplas formas, que em suas próprias dinâmicas modificam sua autorganização, o que conduz de forma permanente a uma tensão entre os processo gerados pelo sistema e suas formas de autorganização, as quais estão comprometidas de forma permanente com todos os processos do sistema.

A subjetividade coloca a definição da psique num nível histórico-cultural, no qual as funções psíquicas são entendidas como processos permanentes de significação e sentidos. O tema da subjetividade nos conduz a colocar o indivíduo e a sociedade numa relação indivisível, em que ambos aparecem como momentos da subjetividade social e da subjetividade individual.

A subjetividade social e individual atua na qualidade de constituintes e constituídos do outro e pelo outro. Isto conduz a uma representação do indivíduo na qual, a condição e o momento atual de sua ação, expressa o tempo todo sentidos subjetivos procedentes de áreas diferentes de sua experiência social, as que passam a se constituir como elementos de sentido de sua expressão atual.

Assim, desde esta perspectiva, o sujeito que aprende expressa a subjetividade social dos diferentes espaços sociais em que vive no processo de aprender. Nenhuma atividade humana resulta uma atividade isolada do conjunto de sentidos que caracterizam o mundo histórico e social da pessoa.

O sujeito é definido como o indivíduo concreto, com características essenciais e permanentes da sua condição: é atual, interativo, consciente e volitivo; por fim, portador de personalidade. (REY, 1997).

Já a personalidade constitui um complexo sistema de sentidos configurados por recursos psicológicos de diferente ordem (unidades psicológicas primárias, formações motivacionais, elementos funcionais, etc.). Este sistema constitui o conjunto de recursos subjetivos com os quais o sujeito opera na determinação de seus comportamentos nas múltiplas e diversas situações nas quais se encontra (Martinez, 1998).

A personalidade para o autor não seria um sistema fechado mas antes um sistema dinâmico, processual, com relações indiretas com o meio social e cultural.

Indiretas – destaco – pois a subjetividade individual se constrói não como internalização do social, mas como constituição subjetiva individual, o que ressalta seu caráter de mediação e não linearidade entre um âmbito e outro. Há, deste modo, a questão do sentido subjetivo, que para o sujeito concreto adquire determinados fatos, situações, etc. Sentido este mediado pela personalidade do mesmo (com seu caráter histórico).

O processo de mediação vai muito além da consciência do sujeito e envolve a importante questão da emocionalidade, que se faz através da emergência do sentido subjetivo, sendo que este último nem sempre é necessariamente significado. O “sentido é o valor emocional” “irrepetible de um conteúdo e (…) a significação é o valor que pode adquirir conjunturalmente esse conteúdo no processo de regulação do comportamento pelo sujeito” (Gonzalez Rey, 1995, p.80).

Isto é, o sentido toca não apenas a dimensão cognitiva, mas o modo mesmo de sentir o mundo ou os fatos, do sentir-se e do agir do próprio sujeito. Sendo assim, a personalidade, por sua relativa “abertura”, seria sempre um novo momento constitutivo em relação ao anterior, nunca uma extensão acumulativa, pois está estruturada em categorias de sentido subjetivo “irrepetibles” como o próprio autor destaca.

Gonzalez Rey aponta ainda uma imbricação necessária e fundamental da subjetividade pessoal com a subjetividade social, sendo esta última: “(…) o sistema de configurações (grupais ou individuais) que se articulam nos distintos níveis da vida social, implicando-se de forma diferenciada nas distintas instituições, grupos e formações de uma sociedade concreta.

Estas formas tão dessemelhantes guardam complexas relações entre si e com o sistema de determinantes de cada sociedade concreta, aspectos que devem ser integrados e explicados (…)” (Gonzalez Rey, 1996, p. 99-100). Isto é, a subjetividade social não seria a mera soma de subjetividades individuais ou ainda de intersubjetividades, mas algo novo, que integra outro nível qualitativo do fenômeno subjetivo, que seria o social (presente em grupos ou instituições sociais).

A subjetividade social, assim como a pessoal, tem um caráter histórico, e, portanto idiossincrático. Dito de outra maneira, e do modo que nos interessa aqui, cada individuo em investigação forma uma subjetividade social específica, marcada por um clima afetivo, modos e formas de comunicação e distribuição da palavra, de aceitação da diferença, etc. passíveis de serem observados, pesquisados e trabalhados.

A representação da educação apresenta a faculdade numa relação inseparável com a sociedade como um todo, assim como inseparável das historias singulares de seus protagonistas, o qual é outra expressão da subjetividade social, que aparece diferenciada nas histórias individuais.

Desde esta perspectiva as funções da escola deixam de aparecer como processos isolados e fragmentados, para aparecer como momentos de sistemas mais complexos, dentro dos quais se constituem em sua significação e sentido. O aluno na faculdade não expressa só sua condição escolar, mas sua condição social em geral, de ai a importância da ponte entre a psicologia social e educativa que se vem apresentando na literatura (González Rey (1997), Duveen. G (200)).

O transito entre a educação e outras formas de conhecimento social é possível só se compreendermos uma ontologia da psique humana que nos permita explicar o transito permanente de diferentes sentidos sociais nos momentos atuais dos sujeitos e dos cenários educativos.

A compreensão do lugar da subjetividade na educação nos leva a abandonar, por uma parte, a naturalização dos processos associados com à educação, e por outra, a compreender os diferentes momentos do processo educativo através processo de significação e sentido gerados em diferentes zonas do tecido social.

Esta compreensão leva a superação de um conjunto de dicotomias que historicamente tem estado na compreensão da educação, como a dicotomia entre o social e o individual, o afetivo e o cognitivo, entre outras, o que traz um conjunto de conseqüências para as representações dominantes até hoje na educação, entre as quais gostaríamos de especificar as seguintes:

– O espaço educativo é um espaço de convergência, divergência e contradição social, no qual entram em jogo inúmeros sentidos e significações da sociedade presentes em outras formas de vida social, e que historicamente se tem mantido ocultas à teoria e à pesquisa educativas.

– A educação é uma função de toda a sociedade, que de fato é exercida com maior ou menor consciência numa diversidade de espaços sociais que, de forma crescente, influenciam a ação das pessoas e grupos sociais.

– O objetivo da educação não é simplesmente o de efetivar um saber na pessoa, mas seu desenvolvimento como sujeito capaz de atuar no processo em que aprende e de ser parte ativa dos processos de subjetivação associados com sua vida cotidiana. O sujeito se expressa na sua reflexividade crítica ao longo de seu desenvolvimento.

– O processo de desenvolvimento não pode ser compreendido como conjunto de aquisições ordenadas, que de forma progressiva e fragmentada permitem novas operações do sujeito, senão como um processo extremamente complexo em que de forma simultânea se apresentam elementos constituídos que estão além da capacidade de simbolização dos sujeitos implicados, e elementos construídos que adquirem sentido pela emocionalidade do sujeito comprometido nessa construção.

Isto faz do desenvolvimento um processo contraditório e não linear, que não pode ser reduzido a um padrão. O desenvolvimento o compreendemos desta forma como processo vivo e contraditório, em que sentidos subjetivos de diferentes procedências sociais se configuram no processo dialógico do sujeito em seus diferentes espaços sociais.

Como resultado do anterior, a inclusão do tópico da subjetividade em educação permite “visualizar” novas zonas de sentido de este processo, o que tem uma influência direta na compreensão da pesquisa neste campo.

Na pesquisa em educação, apesar das mudanças que nos últimos dez anos se tem apresentado (Ludke, 1986, Kincleloe, 1990 e outros) ainda é dominante uma tendência objetiva – analítica, mais orientada ao estudo de funções pontuais, do que à construção de modelos teóricos que permitem apreender em toda sua complexidade os processos de subjetivação implicados nos processos educativos.

A linha experimental, quantitativa e objetiva, orientada mais ao estudo de funções analíticas, não permite o estudo dos processos e formas subjetivas de organização associadas ao processo de educação. A metodologia de pesquisa tem que responder ao processo de educação. Neste caso, o tema de subjetividade em educação define necessidades epistemológicas e metodológicas específicas, que de forma geral são compatíveis com os princípios fundamentais contidos em nossa definição da Epistemologia Qualitativa. (REY, 1997).

A pesquisa qualitativa que assume os princípios da Epistemologia Qualitativa se caracteriza pelo seu caráter construtivo-interpretativo, dialógico e pela sua tenção ao estudo de casos singulares. O processo de construção teórica das configurações e processo subjetivos presentes na educação, tanto ao nível social, como individual, tem que ser desenvolvidos dentro da própria processualidade da constituição subjetiva do sujeito, e dos processos sociais dentro dos quais sua experiência tem lugar.

A pesquisa qualitativa que propomos para o conhecimento da subjetividade enfatiza o caráter teórico sobre o empírico, assim como a construção sobre a descrição. Neste sentido a pesquisa educativa orientada a compreensão dos aspectos subjetivos deste processo, deve-se caracterizar pelos seguintes aspectos:

– O empírico e um momento de confronto, diálogo e contradição, entre a teoria e a expressão dos processos estudados, mas não uma condição de verificação do conhecimento, o qual mantém uma processualidade que não permite encurralar pontualmente as idéias em espaços de verificação empírica.

– A teoria acompanha todo o processo de pesquisa, sendo a real teia de fundo da pesquisa. A teoria aparece como viável na medida em que acompanha o diálogo constante com as formas em que aparecem as manifestações empíricas dos processos estudados. Só o desenvolvimento de modelos de pensamento no curso de pesquisa, permitirá visualizar expressões empíricas que possam ser consideradas na construção teórica dos processos e formas de organização da subjetividade implicadas nos processos de educação.

– O diálogo aparece como momento essencial da pesquisa. Os processos subjetivos complexos só aparecem na medida em que os sujeitos estudados se expressam através de sua implicação pessoal, aparecendo na pesquisa através de sua próprias construções, as que avançam e se enriquecem no diálogo permanente com o pesquisador, e no próprio diálogo dos sujeitos pesquisados entre si.

Monteiro (1995), ao discutir questões da relação objetividade x subjetividade, também aponta contradições na obra de Marx que, nas suas palavras, vão além “da clássica, e discutível, oposição entre o “jovem Marx” e o “velho Marx”. (p.24), contradições estas que vão alimentar construções explicativas ricas de sentido, dentro desta vertente.

Vai destacar três tipos de determinismos na obra de Marx (O econômico, o histórico e o sociológico) com suas contradições trazidas em várias passagens de seus textos, o que, segundo Monteiro, parece “ter conferido uma certa fertilidade aos debates e desdobramentos teóricos posteriores ao próprio Marx”.

A partir dessas contradições, ao valorizar aspectos sócio-culturais, jurídicos e políticos, ao afirmar a necessidade de ações individuais e sociais para a mudança social, ao lembrar que “a história social dos homens nada mais é que a história de seu desenvolvimento individual, tenham ou não consciência disso.

” (Marx, 1984, p.212), é que emergem conceitos que são úteis à psicologia, os quais dizem respeito à questão do indivíduo e da subjetividade, como alienação, ideologia, dominação, consciência. Monteiro (op.cit.) propõe revigorar conceitos marxianos que tenham um potencial analítico-explicativo superando determinismos enrijecedores.

Propõe resgatar a importância dos elementos superestruturais quanto ao determinismo econômico, sem ignorar este; “entender o materialismo histórico como um processo não finalístico, não teleológico, mas apenas como método descritivo e, por vezes, analítico-explicativo quanto à relação do homem com a materialidade, como sendo um fato inelutável que se transforma historicamente, mas que absolutamente não está determinado, e se, por um lado pode haver tendências expressas, por outro há a ação possível do homem e a própria imprevisibilidade; e, finalmente, quanto ao determinismo sociológico, é preciso reconhecer o indivíduo como ator concreto que, também no sentido econômico ou histórico, é a base do humanismo de Marx.” (p. 28)

Por outro lado, muitas das questões ligadas à subjetividade desenvolveram-se a partir dos estudos do cotidiano, nas “novas” psicologias e entre os autores chamados “pós-modernos” (o que quer que isto signifique). O materialismo histórico, enquanto modelo explicativo é colocado por estes últimos como parte da modernidade, em cujo bojo se construíram grandes modelos interpretativos da realidade que começaram, especialmente a partir da segunda metade do século vinte, a ter sua confiabilidade posta em questão, face mesmo às grandes transformações sociais havidas.

As suas contribuições no âmbito de uma nova lógica de análise estão, no entanto, inscritas na própria vida dos cientistas sociais, enquanto investigadores da realidade humana. Nessa esteira, no campo da psicologia, no qual questões ligadas à subjetividade humana fazem parte da própria constituição do campo, vários trabalhos surgiram, entre os que postulavam e utilizavam o marxismo como fonte de referência, agora analisando problemas conceituais – as aporias – nas reflexões de Marx, e propondo nova ancoragem em desdobramentos mais recentes de seu pensamento, nos quais a superestrutura toma visibilidade maior, como aspecto também de determinação.

Com outras categorias abre-se espaço pra criações interpretativas voltadas às interrelações humanas próximas, à discussão das subjetividades, produtos e também produtoras da história.

Em outra direção, em Foucault (1994) encontramos a idéia de formas de subjetividade, que podem colocar-nos referentes interessantes para este contraponto. Segundo o autor, a partir do século XVII as formas de subjetividade, que são potencialmente históricas, mostram-se relacionadas com a produção de saberes numa rede de poderes e de seu exercício através de controles diversos que se instalam no cerne mesmo das subjetividades em uma dada sociedade.

A idéias de formas de subjetividade está vinculada a condições culturais historicamente dadas e situadas, territorializadas, e permite delimitar contornos de saberes e práticas, seus limites e suas possibilidades de transformação, o que, para Foucault, parece repousar em um projeto ético. O sujeito se coloca aqui como o articulador desses processos atribuindo-lhes sentido próprio ou esvaziando-se em um universo pessoal desarticulado de desejos, valores, idéias, ideologias. As formas sociais culturalmente construídas direcionam a experiência de procura de uma nova ética, rearticular-se.

Entre as veredas que podem ser tomadas na construção de compreensões sobre a subjetividade, sua construção e permeabilidade com os processos educacionais socialmente realizados há proposições que se aproximam – a consideração das condições sociais específicas e históricas é uma dessas proposições.

No entanto, devemos reconhecer que há pontos de referência diversos nas construções dos processos de subjetivação. Produz uma síntese que nos permite ampliar a compreensão desses processos, incorporando as contradições que se põem entre perspectiva, e reportá-las a processos educacionais, é um grande desafio.

Cremos que o texto de Rey é um ensaio nesta direção, uma abertura de sentido, uma indicação de indícios, onde as dificuldades com o materialismo histórico e o construcionismo sócio-histórico, donde relevam as questões culturais? Como não referir-se a teoria, macroconceitos, de forma abstrata? Como não resvalar para idealismos na compreensão dos processos educacionais?


PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A pesquisa apoiada na Epistemologia Qualitativa tem entre seus objetivos essenciais a produção de modelos teóricos complexos e dinâmicos capazes de gerar inteligibilidade sobre os complexos processos da subjetividade humana, os que são inacessíveis as metodologias tradicionais.

A pesquisa qualitativa que propomos tem como objetivo o estudo do momento subjetivo dos diferentes processos e formas de organização subjetiva associados com a educação. A subjetividade apresenta-se como definição ontológica de uma representação histórico-cultural da psique, através da qual são superadas as dicotomias e fragmentações que, de forma histórica, tem orientado o tratamento dos aspectos psíquicos na educação.

Estas reflexões orientam-se a superação de uma dicotomia entre psicologia e educação que durante muito tempo apareceu com muita força, dicotomia em que, mesmo que a psicologia e a educação eram ambas compreendidas como sistemas de práticas de instrumentos, seu objetivo era completamente diferente: a psicologia se orientava ao estudo dos indivíduos, e à educação se orientava mais aos processos didáticos dominantes na prática de ensino aprendizagem na escola.

A pesquisa, sob a nova perspectiva apresentada neste trabalho, visa dar sentido a problemas novos que possam passar a constituir novas representações sobre a educação e suas diferentes áreas.

A história de vida se inscreve dentro de um movimento dialético existencial, o sujeito humano confronta-se com as múltiplas determinações sociais, familiares e psíquicas, e tenta encontrar um sentido á sua existência.

Na abordagem sociolingüística da história de vida define como uma unidade oral da interação social.


MÉTODO E PROCEDIMENTO

Participou deste estudo uma aluna do Curso de Psicologia do 1º período noturno cursando todas as matérias do respectivo período.

A instituição estudada é uma faculdade privada que segue um programa padrão no Curso de Psicologia e encontra-se ainda em processo de implantação pois iniciou o curso em questão há apenas 3 anos.

Fora feita duas entrevistas com o participante, sendo que na primeira ela relatou algo de sua história de vida concluindo-a e posteriormente entregando ao entrevistador Ana segunda entrevista a pesquisada respondeu a um questionário de oito questões proposto pela autora.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

História de vida de Juliana

Tenho uma família maravilhosa, a melhor família que alguém poderia ter, meus pais desejavam uma casa cheia de filhos, meninos no desejo de papai. Tiveram três filhas e mamãe não podendo mais engravidar, põe fim à esperança de papai ter um filho.

Involuntariamente eu procurava ser aquele filho que papai tanto queria, acompanhando-o a todos os lugares possíveis a uma menina, participava dos seus assuntos, trabalho e inteirava-me de seus projetos. Era muito diferente das minhas irmãs que brincavam de bonecas e eu de bola. Sempre fui muito alegre, extrovertida comunicativa.

Como nasci em um lar cristão, em minha adolescência, estava ativamente envolvida nos trabalhos da igreja, o que contribuiu para superar os conflitos da puberdade. Tive todo suporte, amor e aconselhamento de meus pais para me desenvolver saudável em todo meu processo de vida.

Casei-me muito jovem, tenho um filho que é minha maior riqueza e alegria, minha realização como mulher, por ele retomei meus sonhos e projetos interrompidos ao me casar, o que exigiu de mim muita força e determinação.

Diante de muitos obstáculos, concluí o 2º grau, e logo comecei a trabalhar com crianças especiais, sendo professora em uma escola inclusiva. Essa nova realidade fez-me refletir sobre minha vida e tudo que poderia fazer para contribuir para o bem estar do meu semelhante, que com suas diferenças e limitações, é um cidadão com direitos e potencialidades como qualquer ser humano.

Ingressar-me no Curso de Psicologia foi apenas conseqüência daquilo que havia proposto em meu coração. Hoje, cada vez mais certa da escolha que fiz, posso vislumbrar um futuro onde estarei capacitada e preparada para de alguma forma ajudar, através de minha profissão, muitas pessoas, pretendendo cumprir e executar fielmente, da melhor maneira, tudo que Deus confiou a mim através da psicologia.

É aqui que começamos a vislumbrar em que pontos a investigação mexia na subjetividade da aluna na escolha do Curso de Psicologia. Trata-se não apenas de uma mudança cognitiva, mas afetiva também, já que a própria questão do sentido estava sendo tocada.

Entre outras questões destaco a importância da maturidade e condição de pensar no contexto social. Neste sentido a fala da aluna é instigadora: “sou uma pessoa que se preocupa muito com o bem do meu próximo, sou muito amiga e dedicada, procuro agradar aos outros. Sou determinada, e as vezes impulsiva, o que é mais notável em mim é o carinho e cuidado que tenho com os que amo.”/

O sujeito é definido como indivíduo concreto, com características essenciais e permanentes de sua condição: é atual, interativo, consciente e volitivo; por fim é portador de personalidade. (REY, 1997).

Sou uma filha muito amorosa, adoro meus pais, que são meu maior exemplo de vida, sou muito dedicada a eles. Como mãe, procuro ser a melhor mãe, amo muito meu filho, e busco sempre dar a ele exemplos e conselhos saudáveis para ser um homem integro e honrado. Aluna, dou o melhor de mim para ser uma boa aluna, esforço e dedico da melhor maneira meu trabalho, sou muito dedicada a meus alunos, tento proporcionar a eles um ensino de qualidade. Como esposa, infelizmente não tenho sido muito legal, pois a grande demanda acadêmica e trabalho que esgota todo meu tempo, não tem permitido que eu seja a esposa ideal, mas tenho procurado conseguir isto”.

A representação da educação apresenta a faculdade numa relação inseparável das histórias singulares de seus protagonistas, o qual é outra expressão da subjetividade social, que aparece diferenciada nas histórias individuais.

“Concilio as várias partes da vida para conseguir chegar onde imagino da melhor maneira possível, mas não é uma tarefa fácil, porém procurarei conciliar tudo ao que é mais importante para mim: minha família”.

A emoção caracteriza o estado do sujeito ante toda ação, ou seja, as emoções estão estreitamente associadas às ações, por meio das quais caracterizam o sujeito no espaço de suas relações sociais, entrando assim no cenário da cultura. O emocionar-se é uma condição da atividade humana dentro do domínio da cultura, o que por sua vez se v~e na gênese cultural das emoções humanas”.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considero que a presente pesquisa trouxe várias contribuições. Um dos aspectos relevantes refere-se à necessidade de ajudar o outro. A compreensão desta necessidade foi um meio em que o aluno pode lidar com sua própria necessidade, e insegurança. O estudante enfatiza características pessoais do profissional, e não voltadas às capacidades do profissional.

O significado que a aluna deu ao curso estava relacionado às suas necessidades afetivas, e este aspecto deveria ser estudado com maior profundidade, daí a importância da psicoterapia por estudantes.

A motivação do sujeito e seu envolvimento na pesquisa passavam a ser momentos essenciais no desenho de trabalho do pesquisador. O pesquisador tem que participar, provocar, conversar, em fim se manter ativo num diálogo que de forma permanente introduz novos aspectos aos problemas objeto da pesquisa. O pesquisador se surpreende frente ao novo que de forma permanente o desafia no desenvolvimento de novas construções teóricas que, pela sua vez, são geradoras de novos momentos empíricos.

– Os instrumentos são apenas indutores de informações que estimulam a expressão dos sujeitos estudados e facilitam sua deslocação desde o lugar em que falam, o que implica que, de forma permanente, entrem em novas zonas de sua experiência.

– O sujeitos singulares, o estudo de casos vira um procedimento essencial na construção teórica da questão da subjetividade, em primeiro lugar, porque neles aparecem elementos singularizados dos processos estudados, que nunca apareceriam frente a instrumento padronizados, portanto, o estudo de casos permite a construção teórica de aspectos diferenciados do estudado, que só aparecem ao nível singular.

Em segundo lugar, os casos singulares são importantes por serem portadores da riqueza diferenciada da multiplicidade de formas em que aparece a constituição subjetiva dos processos estudados. Neste enfoque se valoriza ao sujeito individual concreto, tanto em sua história, quando em sua capacidade de reflexão e construção.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Gonzalez Rey, F. Sujeito e Subjetividade: Uma aproximação histórico-cultural. São Paulo – SP. Pioneira. Thomson Learnig, 2003.

Gonzalez Rey, F. Comunicación, personalidad y desarrollo. Habana: Editorial Pueblo y Educación, 1995.

Loyola, V.M.Z & Porto, F.G. a CONSOLIDAÇÃO DE UMA NOVA PROPOST.A In: KOHAN et all (orgs.). Escola Pública. Vol. IV. Petrópolis, 2000, pp.149-170.

  • Tema: Subjetividade
  • Autor: Ana Amelia Vieira Cardoso



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