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RESUMO DO LIVRO: A HORA DA ESTRELA DE CLARICE LISPECTOR

Este livro tem duas características fundamentais: a originalidade do estilo e a profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente banais. A linha condutora é a estória de um imigrante nordestino deslocado e perdido na grande cidade do Rio de Janeiro. Através desse personagem, descortina-se a pobreza “feia e promíscua” e ao mesmo tempo a singeleza de vidas tão pouco interessantes. A narrativa, cheia de digressões (que fazem lembrar o estilo machadiano), vai além da descrição realista de um cotidiano inexpressivo – questiona os valores da sociedade moderna, o papel social do artista contemporâneo e a própria existência humana. A Hora da Estrela transita entre o lado trágico e o lado esplêndido da vida, entre a fragilidade e a grandeza do ser humano. O tema da solidão tem a função de dar destaque às desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo novas perspectivas aos problemas e indagações que nos cercam.

A obra inicia com um prefácio, em forma de dedicatória, em que ela se propõe uma reflexão desenvolvida através dos verbos dedicar, dedicar-se e meditar. A seguir, uma seqüência de subtítulos que sugerem vários aspectos do livro: A culpa é minha /ou/ A hora da estrela /ou/ Ela que se arranje /ou/ O direito ao grito etc.

A narrativa é lenta, em conseqüência das inúmeras digressões do narrador Rodrigo S.M (Descrever me cansa, (…). Como échato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguiça de escrever esta história…). Há mistura de notações eneralizantes (Às vezes só a mentira salva, “O sofrimento é sempre um encontro consigo mesmo: sofrer amadurece”) com indicações nuas e cruas (Depois que ele desapareceu, eu, para não sofrer, me divertia amando mulher. O carinho de mulher é muito bom mesmo, eu até aconselho porque você é delicada demais para suportar a brutalidade dos homens e se você conseguir uma mulher vai ver como é gostoso, entre mulheres o carinho é mais fino). Há registros íntimos (Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei…) e observações de pertinência social (Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão, (…). Essa moça não sabia que ela era assim como um cachorro não sabe que é cachorro, (…) nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável).

Há vários trechos em que se fazem considerações sobre o papel do escritor brasileiro moderno e a condição indigente da população brasileira:

Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. (…) através dessa moça dou o meu grito de horror à vida. A vida que tanto amo. São abundantes as reflexões sobre a figura feminina, sua condição social e individual, sua condição humana transcendental: Teria ela o sensação de que vivia para nada? Nem posso saber, mas acho que não (…). Mas eu que não chego a ser ela, sinto que vivo para nada, (…). Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que costumava datilografar; ouvia freqüentemente a Rádio Relógio, não só para saber as horas, mas para aprender coisas curiosas, que ela achava sempre lindas. Teve um namorado, Olímpio de Jesus, também nordestino, operário de metalúrgica cujo sonho era ser açougueiro e mais tarde deputado. Acabou abandonando o namoro com Macabéa para ficar com uma amiga dela, Glória, uma carioca, oxigenada, de família classe média baixa. Sentindo-se infeliz, Macabéa, a conselho de Glória, foi consultar uma cartomante, Madama Carlota, que acertou tudo a respeito de seu passado e predisse coisas maravilhosas em relação ao seu futuro. Ao sair da casa da mulher, Macabéa foi atropelada e acabou morrendo, eis a Hora da estrela, quando um fotógrafo registra sua trajédia.

Personagens

Macabéa, a protagonista: (…) vida primária que respira, respira, respira. (…) dormia de combinação de brim com manchas bastante suspeitas de sangue pálido. (…) ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. (…) Não sabia que era infeliz. (…) Assoava o nariz na barra da combinação. Não tinha aquela coisa delicada que se chamava encanto. (…) A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. (…) A mulherice só lhe nasceria mais tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. (…) sonhava estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada. Quando acordava se sentia culpada sem saber por que, talvez porque o que é bom devia ser proibido. (…) Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade pura dos idiotas. (…) Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim.

Olímpio de Jesus Moreira Chaves, o namorado: O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram como dois nordestinos, bichos da mesma espécie que se farejam. (…) mentiu ele porque tinha como sobrenome apenas o de Jesus, sobrenome dos que não têm pai. (…) No Nordeste tinha juntado salários e salários para arrancar um canino perfeito e trocá-lo por um dente de ouro faiscante. Este dente lhe dava posição na vida. Aliás, matar tinha feito dele um homem com letra maiúscula. Olímpio não tinha vergonha, era o que se chamava no Nordeste de cabra safado. Mas não sabia que era artista: nas horas de folga esculpia figuras de santos e eram tão bonitas que ele não as vendia. (…) vinha do sertão da Paraíba (…) nascera crestado e duro que nem galho seco da árvore ou pedra ao sol. (…) Ter matado e roubado faziam com que ele não fosse um simples acontecido qualquer, davam-lhe uma categoria, faziam dele um homem com honra já lavada (…) seu destino era o de subir para um dia entrar no mundo dos outros. Ele tinha fome de ser o outro.

Madama Carlota, prostituta e cartomante: Eu sou fã de Jesus. Sou doidinha por ele. Ele sempre me ajudou. Olha, quando eu era mais moça tinha bastante categoria para levar vida difícil de mulher. E era fácil mesmo, graças a Deus. Depois, quando eu já não valia muito no mercado, Jesus, sem mais nem menos arranjou um jeito de eu fazer sociedade com uma coleguinha e abrimos uma casa de mulheres (…) a polícia não deixa por cartas, acha que eu estou explorando os outros, mas, como eu já disse, nem a polícia consegue desbancar Jesus. (…) Eu tinha um homem de quem eu gostava de verdade e que eu sustentava porque ele era fino e não queria se gastar em trabalho nenhum. Ele era o meu luxo e eu até apanhava dele. Quando ele me dava uma surra e via que ele gostava de mim, eu gostava de apanhar. (…) Ouvi dizer que o Mangue está acabando, que a zona agora só tem uma meia dúzia de casas. Em meu tempo havia umas duzentas. Eu ficava em pé encostada na porta vestindo só calcinha e sutiã de renda transparente.

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