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MANOEL DE BARROS: O LIVRO DAS IGNORAÇAS

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O LIVRO DAS IGNORAÇAS


Publicada em 1993, a obra é composta por três partes:

Uma didática da invenção, que tem como subtítulo As coisas que não existem são mais bonitas, que faz parte do poema II do terceiro livro: “Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas/ ruas de Corumbá/ Me disse que as coisas que não existem são mais/ bonitas”. Nessa primeira parte, onde os poemas são nomeados por números romanos, o poeta joga com as sensações, inverte e transforma as características dos objetos e das palavras, como nos exemplos: “E um sapo engole as auroras” (poema IV) e “Hoje eu desenho o cheiro das árvores” (poema IX), construções que tiram das palavras seus sentidos corriqueiros, fugindo da linguagem comum.

Na segunda parte, denominada Os deslimites da palavra, estão presentes as mesmas características da primeira, é dividida em três dias e cada dia é dividido em por numerais, sendo que cada número é o titulo de um poema.

Na última parte, Mundo pequeno, em que os poemas também são intitulados por números romanos, o poeta rompe com a gramática da língua, criando construções como as dos versos do poema I “Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore”. Como na primeira parte, aqui também há um subtítulo, Aromas de tomilhos dementam cigarras, que faz parte do poema IV da terceira parte.

O título do livro faz referência à ignorância, com sentido de desconhecimento de uma realidade, à própria desconstrução do conhecimento, que remete à origem de tudo, já que antes de conhecer é preciso desconhecer.

Nesse livro, a invenção poética não significa necessariamente fazer o novo, mas sim desautomatizar, desconstruir aquilo que é comum, que se tornou normal na poesia. Para isso, o poeta utiliza e cria verbos e substantivos com o prefixo de negação des-, como “descomeço”,” desinventar”, “deslimite”.

Além disso, o grande número de versos interrogativos tem função de exacerbar a incerteza do poeta e o aproximar do leitor, que, como qualquer ser humano, ainda tem dúvidas.

Análise do Poema VII

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a

criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona

para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele

delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer

nascimentos-

O verbo tem que pegar delírio.

O poema acima pertence à primeira parte de O livro das ignorãças e é composto por 13 versos, todos brancos e livres. Há encadeamento dos pares de versos 3 e 4; 7 e 8; 10 e 11. A pontuação com vírgulas, pontos e travessão, confere um ritmo pausado ao poema, dando a quem o lê a sensação de que os versos foram construídos um de cada vez, cuidadosamente.

Já no primeiro verso o poeta faz a desconstrução de uma passagem bíblica do livro de João 1:1, “No começo era o Verbo (…)” pela adição do prefixo des-, que tem função de tornar negativa a palavra a qual ele se junta. Esse prefixo parece sugerir, no poema, uma inversão do começo, que não seria o fim, mas a desconstrução da linearidade do tempo, criando o neologismo “descomeço”.

Depois do surgimento do verbo, ocorreu o “delírio do verbo”, que pode ser entendido como a mudança de função desse verbo, como se pode concluir pelos versos 7 e 8: “Então se a criança muda a função de um verbo, ele/

delira”. Essa capacidade de criar novas funções para as palavras, de brincar com a linguagem, é algo próprio das crianças, já que elas ignoram as funções dos verbos e não tem compromisso algum com a gramática e até mesmo com a lógica que os adultos têm.

No verso 4, a construção “eu escuto a cor dos passarinhos” atende aos requisitos sintagmáticos, ou seja, é constituída por sujeito, verbo e objeto), porém ela contraria os princípios paradigmáticos ao dar nova função ao verbo escutar. Essa construção pode ser lida como um trocadilho: eu escuto acordos (acordes).

No verso 9, o eu –lírico conclui, pelo uso da conjunção conclusiva pois que fazer poesia é fazer nascimentos, ou seja, criar, fazer nascer nas palavras novos sentidos, diferentes daqueles que já estão cristalizados pelo uso cotidiano. Para isso, é preciso que o verbo “pegue delírio”, que o poeta não se prenda ao seu significado ou à sua função e o desconstrua, como se ele fosse uma criança. O próprio verbo delirar sofre essa alteração de função, já que esta é uma ação própria de seres humanos e não de categorias gramaticais, o que faz com que verbo seja personificado.

A metalinguagem é o mais importante recurso linguístico utilizado pelo poeta, a qual se pode observar nos versos 10, 11 e 12, nos quais o eu – lírico ensina, dentro do próprio poema, como se deve fazer poesia: delirando o verbo, ou seja, a palavra; transformando seu sentido e a lógica dos versos.

Manoel de Barros

Autor: mariana grava de moraes

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