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JOHN DEWEY: UMA FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

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RESUMO

Busca-se discutir a educação ancorada em bases filosóficas, tentando estabelecer a relação entre a educação e os valores humanos e naturalistas, para compreender a concepção democrática de educação cultivada na visão filosófica de John Dewey, na obra “Democracia e Educação”. Tem-se como suporte teórico AMARAL (1990); CUNHA (1999; 2001); SCHMITZ (1984) entre outros. A pesquisa tenta esclarecer até que ponto a educação contribui de forma positiva para o processo de reconstrução e reorganização das experiências humanas, segundo a concepção de John Dewey, e fundamenta-se em duas hipóteses: a educação é vida (uma incentivação, um alimento, um cultivo, que pode ser traduzida em condições de crescimento humano); e a educação é um processo de renovação e de reconstrução da vida humana (educar significa ressignificar valores cultivados pela humanidade). Mostra-se que a educação na visão de Dewey deve ser um dos instrumentos de continuidade da vida social, o qual ressalta que, além da comunicação verbal, o homem deve aprimorar a sua inteligência, como condição necessária ao desenvolvimento dos objetivos, das crenças, das aspirações e dos conhecimentos de seu tempo e que devem ser perpetuados de geração a geração.

PALAVRAS-CHAVE: John Dewey; Educação; Valores Humanos; Reconstrução.

ABSTRACT

It tries to discuss education anchored on philosophical bases, trying to establish a relationship between education and the human values and naturalistic, to understand the democratic conception of the education cultivated on the philosophical vision of John Dewey, in her work “Democracy and Education”. It has as theoretical support AMARAL (1990); CUNHA (1999; 2001); SCHMITZ (1984); among others. The research tries to clarity to what extent education contributes in a positive way for the progress of reconstruction and reorganization of the human experiences, according the conception of John Dewey’, and is based on two hypotheses: the education is life (a motivation, a food, a cultivation, that can be translated in conditions of human growth); and education is a process of renovation and reconstruction of the human life (to educate means to reattribute values cultivated by humanity). It shows that education on Dewey’s vision must be on of the tools of continuity of social life, in which it points out that, besides verbal communication, man must improve his intelligence, as a necessary condition to the development of the objectives, beliefs, aspirations and of the knowledges of his time and that must be perpetuated from generation to generation.

KEY-WORDS : John Dewey; Education; Human Values; Reconstruction.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO
2 EDUCAÇÃO E VIDA

2.1 EDUCAÇÃO E APRENDIZAGEM
3 A EDUCAÇÃO E A RECONSTRUÇÃO DA EXPERIÊNCIA

3.1 A EDUCAÇÃO COMO DIREÇÃO

3.2 A EDUCAÇÃO COMO CRESCIMENTO

3.3 A CONCEPÇÃO DEMOCRATICA DA EDUCAÇÃO

4 CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

1 INTRODUÇÃO

O fenômeno educativo data do aparecimento da inteligência consciente sobre a terra, constituindo-se um longo processo pelo qual a natureza humana se transforma para melhor atingir os seus fins. O portador dessa inteligência consciente é o homem e os meios de ação que ele utiliza, a experiência, que, em seu nível mental, procura refletir sobre os problemas que enfrenta no dia-a-dia.
Contudo sabe-se que natureza e experiência não são coisas distintas. A experiência é uma das partes de composição da natureza na qual esta se vê, reflete sobre si e se transforma. O fato no qual o homem é possuidor de inteligência confere-lhe força ou modalidade de energia de caráter específico e individual. Isto tem sido a razão permanente de um pretenso dualismo entre a natureza e o homem, ou entre a natureza e a experiência, esta última compreendida, já enfatizamos, como um instrumento humano de análise e de conhecimento.
A educação é um processo de contínua reorganização e reconstrução da experiência e é vista pelo filósofo e educador norte-americano John Dewey como um processo individual e pessoal, sem deixar de ser social, pois em sua fase de plena consciência assume o caráter individual e pessoal que se acentua particularmente. Nesse sentido, Teixeira (2000) observa que a educação se processa por meio de um ato consciente de Readaptação, determinada pela experiência que habilita o homem a aumentar o seu poder de governo e de direção de outras experiências. Tal ato é eminentemente individual, pois, na construção de sua experiência, o indivíduo obedece a métodos e planos que lhes são próprios.
Sendo a educação o processo pelo qual o pensamento se efetiva e se incorpora à vida, torna-se, também, o processo pelo qual o homem se torna, verdadeiramente, um indivíduo, uma vez que, na medida em que o homem se torna capaz de reflexão, de pensamento e de reconstrução da própria experiência, ele se torna responsável pelas suas ações, pela sua vida.
À medida em que o homem mais conhece e mais se instrui, mais complexo se torna o seu ambiente, que passa a estar carregado de mais incertezas semeadas à sua vida, e mais difícil se torna viver em segurança e em harmonia. Dessa forma, é necessária a atuação da escola como uma instituição capaz de criar um ambiente idêntico ao da sociedade, onde se possam preparar as crianças para a participação democrática.
Esse trabalho monográfico procura discutir a educação tendo como suporte as idéias filosóficas de John Dewey que defende, entre outros aspectos, uma concepção democrática de educação vista como uma necessidade da vida humana.
Assim, busca-se compreender nesta investigação até que ponto a educação contribui de forma positiva para o processo de reconstrução e reorganização das experiências humanas, dando ao educando condições de se desenvolver plenamente, tendo em vista que na concepção de John Dewey “[…] a sociedade não só continua a existir pela transmissão, pela comunicação, como também se pode perfeitamente dizer que ela é transmissão e comunicação”. (DEWEY, 1979. p. 4).
Esse trabalho é direcionado tendo como sentido duas questões: a) A educação é vida (uma incentivação, um alimento, um cultivo, que pode ser traduzida em condições de crescimento humano)?; b) A educação pode ser entendida como um processo de renovação e de reconstrução da vida humana (educar significa ressignificar valores cultivados pela humanidade)?.
Tratando-se de uma pesquisa de cunho bibliográfico, tem como aporte teórico fundamental a obra de John Dewey Democracia e Educação. Buscamos complementá-lo com estudos de AMARAL (1990); CUNHA (1999; 2001); SCHMITZ (1984); entre outros estudiosos que tratam do assunto em foco.
A pesquisa está dividida em três seções, sendo que a primeira refere-se à Introdução, na qual se faz um apanhado geral das idéias contidas neste trabalho e apresentam-se as demais partes do texto. A segunda seção intitulada Educação é Vida, enfatiza educação e comunicação, e o papel da escola no desenvolvimento de uma educação democrática. A terceira seção trata de Educação e Reconstrução da Experiência, abordando a educação como direção, a educação como crescimento e a concepção democrática da educação na visão de John Dewey. E, por fim, Conclusão, na qual são apresentadas as respostas às duas questões formuladas.

2 EDUCAÇÃO É VIDA

Pretende-se enfatizar as relações existentes entre educação, valores humanos e valores naturalistas, mostrando que, dentre as recordações privilegiadas que o homem conserva de sua própria vida, estão as de origens familiares e, principalmente, as escolares, que se constituem como uma categoria particularmente importante. Trata-se das relações de vida do ser humano. Desse modo, cada indivíduo preserva imagens inesquecíveis do início da vida escolar, à qual se deve o desenvolvimento do pensamento e, em grande parte, a formação da personalidade. Mesmo que o homem tenha desaprendido o que aprendeu quando criança, o clima de sua vida escolar continua presente nele: a aula e o recreio, os exercícios e os jogos, os colegas.
As recordações da vida escolar e familiar estão presentes em cada homem e em cada mulher. Elas deixam marcas em cada um de nós e têm um valor emotivo elevado, pois representam os primeiros confrontos da criança e do adolescente com o mundo adulto das obrigações e das sensações. Também sobrevivem, em cada um de nós, por meio de uma de uma memória reconhecida, as feições dos mestres, alguns deles há muito tempo desaparecidos do mundo dos vivos. Essas imagens encontram-se vivas na lembrança que seus antigos alunos lhes concedem.
Entretanto, a memória faz permanecer viva, entre nós, as boas atitudes dos mestres que marcaram nossa época de criança, de adolescente e de adulto, e podem ser expressas por meio de um sorriso, uma palavra, um conselho, um elogio. Por isso, ao longo de toda sua vida o homem e a mulher conservarão a lembrança de seus primeiros professores e professoras, mesmo que sua existência tenha se desenvolvido fora de qualquer preocupação de saber. Assim sendo, o aluno, seja criança ou jovem, não esquece a imagem daqueles que foram para eles os primeiros sustentáculos da verdade – os guardiões da esperança humana e do saber social.
Entendida desse modo, a relação entre mestre e discípulo surge como uma exigência fundamental do mundo humano. Dessa maneira, cada existência forma-se e afirma-se em contato com as existências que a cercam, tais como: a dos filhos com os pais e irmãos, a relação de amizade, a relação interpessoal entre colegas, amigos, discípulo e mestre. Essa relação fraterna pode ser vista na obra de Platão, “O Banquete” (2005), na qual o diálogo entre as personagens supõe um relacionamento propício ao desenvolvimento das capacidades inatas de cada indivíduo.
Podemos citar entre esses diálogos o que se refere ao amor, cujo elogio dos protagonistas é inicialmente o amor pederástico , modo natural da educação grega – Eros –, enquanto Afrodite encarna principalmente o amor entre os homens e mulheres. O primeiro a intervir, Fedro, opta por exaltar o valor educativo da relação amorosa, fonte de salutar emulação, pois o amor transfigura quem ama, dando-lhe o desejo de se superar. É o que Fedro pretende provar por meio de muitos exemplos extraídos da mitologia.
Dessa forma, a vida de cada pessoa é uma lição de humanidade e, em particular, a do mestre é vista como o intercessor que dá forma humana aos valores. No saber do mestre, permanece sempre o segredo daquele que sabe. A experiência ensina que a sabedoria não pode ser adquirida sem custo.
Cada homem e cada mulher têm sua história. Cada homem e cada mulher são uma história e compõem a sua história. Sendo assim, o ensino seria um aspecto do período ascendente dessa história: assinala o desenvolvimento mental, intrinsecamente ligado ao crescimento orgânico. Sua função é permitir uma tomada de consciência pessoal no ajustamento do indivíduo com o mundo e com os outros.
Nesse processo de humanização, ele procura formar um mundo de novas idéias, de ideais, de valores, de crenças, de aspirações e de finalidades, com o objetivo de cada vez mais encontrar um sentido mais profundo de vida por meio do contato com as pessoas.
Pela partilha e pela comunicação dessas experiências vai-se criando a necessidade de novas experiências, de forma peculiar, de experiências diversificadas e originais. Aos poucos se cria a necessidade de uma vivência contínua e sistemática de experiências novas e mais ricas, contribuindo para que cada vez mais o homem se integre e interaja no meio onde vive.
Compreende-se que a vida é concebida como um processo que se renova a si mesmo por intermédio da ação humana sobre o meio ambiente. A continuidade da vida significa um processo de (re)adaptação do homem às condições e às necessidades do ambiente, haja vista o processo de equilibração dos organismos vivos como uma forma de perpetuação de sua espécie.
Com o renovar da existência física, também se renovam nos seres humanos as crenças, as idéias, os valores e os hábitos. A continuidade de toda a experiência humana, por efeito da renovação, dá-se por meio do agrupamento social e humano, permitindo ao indivíduo desenvolver-se em um ambiente cultural e socialmente favorável à educação, sendo papel do professor de Filosofia posicionar-se a favor da construção de um conhecimento voltado para a realidade, seja no campo da avaliação dos fundamentos do agir, ou na construção da imagem da própria existência humana.
O filosofo norte-americano John Dewey (1979) declara que a educação é uma incentivação, um alimento, um cultivo capaz de proporcionar o crescimento do ser humano. Etimologicamente, a palavra educação significa o processo de dirigir, de conduzir ou de elevar. Podemos dizer que a educação é uma atividade formadora ou modeladora; modela os seres na forma desejada de atividade social.
Nesse contexto, a educação passa a ser vista como o instrumento de continuidade da vida social, o que acontece a partir da ação dos adultos sobre os mais novos pelo processo de transmissão via comunicação, dada a importância da linguagem para a aquisição do conhecimento. A esse respeito Dewey (1979, p. 10) comenta que:

Todos os elementos constitutivos de um grupo social, tanto em uma cidade moderna como em uma tribo selvagem, nascem imaturos, inexperientes sem saber falar, sem crenças, idéias ou ideais sociais. Passam com o tempo os indivíduos, passam com eles, os depositários da experiência da vida de seu grupo, mas a vida do seu grupo continua.

Na concepção de Dewey (1979), a educação é a continuação da vida social que acontece por introjeção de valores que são transmitidos de geração a geração através da experiência e pelo processo de comunicação entre os grupos sociais. Dessa forma, educar significa transmitir às gerações mais novas os valores e as experiências vivenciadas socialmente, cuja base de transmissão efetua-se por meio da comunicação dos mais velhos para os mais novos, através dos procedimentos de pensar, de sentir e de agir humanamente. Pela comunicação os homens chegam a possuir coisas comuns, entre eles, o conhecimento.
Segundo Amaral (1990), a disposição humana para ter uma participação social baseada na cooperação só pode transformar-se em um fator extra-individual, verdadeiramente atuante, se contar com o apoio de um instrumental poderoso, o da inteligência, que não só se desprende de uma estrutura socialmente organizada, a da natureza humana, como também para tal fim deverá dirigir-se.
Teixeira (2000, p. 69) admite que a “[…] inteligência é um bem, um ativo social que se reveste de função tão pública quanto é […] sua origem na cooperação social”. A inteligência só pode funcionar efetivamente como um recurso social, porque ela própria está presa a uma atmosfera fortemente socializada. A inteligência socialmente dirigida parece ser o denominador comum que liga o indivíduo ao todo, porque conquista para a conduta individual idéias de universalidade.
Pensamento esse apoiado por Childs (apud AMARAL, 1990, p. 78), ao comentar que “[…] o social constitui a ponte que liga o comportamento orgânico ao humano”. Não devemos perder de vista que tudo isto acontece graças à inteligência humana, o único instrumento que, graças às suas características estruturais, é capaz de captar com perfeição essa onda verdadeiramente social que parece permear o universo deweyano. Afinal, o que significa a fé na democracia, senão fé na capacidade inteligente do homem comum em responder, com senso comum, ao livre jogo dos fatos e das idéias?
De fato, segundo Amaral (1990), John Dewey não só criou um mundo de acordo com suas aspirações verdadeiramente democráticas, mas também lançou as bases para a sua compreensão. Enfatizou a capacidade do homem educar-se por meio da participação social, cabendo à educação propiciar um ambiente favorável à atualização máxima de suas potencialidades, o que contribui para que ele se sinta realizado e capaz de ter uma efetiva, consciente e responsável participação social.
Comenta Schmitz (1984) sobre a proposição anterior que a sociabilidade é a garantia da continuidade histórica do homem. Sem a convivência social, perder-se-ia a ligação do homem com o passado e também com o futuro, uma vez que ele se veria privado de sua historicidade. A sociabilidade do homem não significa que ele possa ser absorvido pelos outros ou pela sociedade, mas antes, quanto mais ele for capaz de se inter-relacionar responsavelmente com os outros, mais terá garantida a sua identidade de sujeito, de pessoa.
Dewey (1979, p. 5), ressalta que:

Grande número de relações em todos os grupos sociais ainda se encontra no plano das peças das máquinas. Os indivíduos utilizam-se uns dos outros para obter resultados desejados, sem atender às disposições emocionais e intelectuais e ao consentimento daqueles de quem se servem.

Desse modo, o homem vive num ambiente social, e o que ele faz e pode fazer depende dos desejos, exigências, aprovação e reprovação dos outros, o que exige uma constante reflexão acerca de suas ações.
Na visão de Dewey (1979, p.13), “[…] conceber a possibilidade da atividade de um indivíduo como consistindo em atos isolados seria o mesmo que tentar fazer idéia de um comerciante a comprar e vender, isolado dos demais homens”. Segundo o autor, é tão social o procedimento do industrial quando se encontra só, em seu escritório, planejando uma ação, como quando compra matérias-primas ou vende seus produtos. Compreende-se por esta razão que, pensar e sentir desde que tenham qualquer coisa a ver com ação associada a de outros, é modo de proceder tão social quanto à cooperação mais manifesta ou o ato mais hostil.
No que se refere à educação, as experiências dos mais velhos constitui um aspecto importante na vida do indivíduo. É por meio da ação educativa que o homem se relaciona com os outros e com o seu próprio ambiente. Como o relacionamento é recíproco, o homem se educa, ajudando outros a se educarem, sendo ajudado por eles. “Educando-se, o homem influi sobre outros para que também eles se eduquem”. (SCHMITZ, 1984, p. 33).
Com base nesse pressuposto, compreende-se a educação como um processo individual-social, de inter-relacionamento mútuo e contínuo e, sendo social, ela sempre se realiza envolvendo todos os elementos interessados e empenhados.
Como enfatiza Cunha (1999, p. 62), “Dewey entende que o resultado do desenvolvimento da criança é o ser social”. A infância e a sociedade; o ser individual e o ser socializado; a espontaneidade natural infantil e o saber racionalmente sistematizado do adulto; o psicológico e o lógico; todos esses termos delimitam, respectivamente, pontos de partida e de chegada na trajetória do desenvolvimento do indivíduo.
No pensamento de Schmitz (1984, p. 34), verifica-se que:

A educação constitui um processo íntimo e contínuo de mútuo relacionamento entre pessoas, por meio do qual elas, tomando maior consciência de si mesmo, e agindo de acordo com ela, se aperfeiçoam, desenvolvendo as suas capacidades físicas, psíquicas, sociais, mentais, intelectuais, morais e espirituais, com o fim de se realizarem como pessoas individuais e de se integrarem ativa e criativamente na sociedade de que fazem parte.

Portanto, é por meio da educação que os homens, relacionando-se uns com os outros, de várias formas, educam-se e se aperfeiçoam mutuamente, cujo inter-relacionamento confere à educação maior força e resultados mais eficazes. Pela comunicação entre os homens, como uma maneira de transmitir as experiências dos mais velhos aos mais novos, e que abrange a vida social e exige o ensino e o aprendizado para a sua própria continuação, o ser humano é capaz de relacionar-se com os outros de forma consciente, percebendo-se sujeito de suas ações.
No processo educativo, o indivíduo e o meio são, portanto, dois fatores harmônicos e ajustados. O meio social ou o meio escolar, se bem compreendidos, devem fornecer as condições pelas quais o indivíduo libere e realize a sua própria personalidade. Logo, a escola não deve ser a oficina isolada onde se prepara o indivíduo, mas o lugar no qual numa situação real de vida, indivíduo e sociedade constituam uma unidade orgânica, e possam contribuir para a realização humana de forma integral.
Dewey (1979, p. 6), ao defender a educação como processo de comunicação, diz que “[…] toda a comunicação é semelhante à arte. Por conseqüência, pode-se perfeitamente dizer que, para aqueles que dela participam, toda a prática social que seja vitalmente compartilhada é por sua natureza educativa”. Deve-se, todavia, considerar que a educação formal é de responsabilidade da escola, a qual deve fornecer as bases necessárias para o desenvolvimento do educando de forma integral.
Dewey (1979, p. 8) ainda ressalta que:

Sem a educação formal é impossível a transmissão de todos os recursos e conquistas de uma sociedade complexa. Ela abre, além disso, caminho a uma espécie de experiência que não seria acessível aos mais novos, se estes tivessem de aprender associando-se livremente com outras pessoas, desde que livros e símbolos do conhecimento têm que ser aprendidos.

Nesse sentido, compreendemos que a educação formal é um aspecto importante na vida do indivíduo, haja vista a necessidade de transmissão dos conhecimentos, que devem ser perpetuados de geração a geração.
Em relação ao aluno, a sua capacidade de aprender, ou seja, o poder de reter algum conhecimento com que se poderá transformar a experiência futura, é de sua natureza indefinida, pois o homem não aprende por uma necessidade que, satisfeita, faça desaparecer aquela capacidade. Aprender é uma função permanente do seu organismo. É a atividade pela qual o homem cresce, mesmo quando o seu desenvolvimento biológico de há muito se ache completo. Aprender além de ser o modo de adquirir hábitos pode tornar-se um hábito em si mesmo.
Dessa forma, o processo de comunicação abrange a vida social e exige o ensino e o aprendizado para a sua própria continuação, pois, à medida que as relações alargam-se, ela é educativa quando a experiência é comunicada.
Em sua obra Vida e Educação (1975), Dewey ressalta que não deve haver nenhuma separação entre vida e educação, pois as crianças não estão em um dado momento sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo. A vida em condição integral e educação são aspectos que caminham lado a lado, necessitando haver uma contínua relação entre ambas.
Assim, para que a criança se realize plenamente, é necessário que a escola assuma a feição de uma sociedade em miniatura, ensinando situações de comunicação e de cooperação entre os aprendizes, visando a propósitos comuns. Por meio da educação, a sociedade não somente assegura a sua continuidade por transmissão, mediante comunicação, como a sua própria existência se traduz em transmissão e em comunicação.
Na opinião de Amaral (1990, p. 68), para Dewey, “[…] sociedade é o processo de se associar de modo tal que experiências, idéias, emoções e valores sejam transmitidos e tornados comuns”. Esse é o conceito de sociedade que está na base da continuidade e da visão de mundo criados por Dewey, continuidade que se evidencia entre pensamento e ação, conhecimento e crença, verdade e realidade, verdade e bem moral.
Para Dewey (1979, p. 25), “[…] sobrevivência humana significa sobrevivência social, e esta significa ação, fruto do pensamento inteligente do homem”. Na sua concepção, esse pensamento deve respeitar como único critério para a sua atuação as necessidades e os problemas comuns a um determinado número de indivíduos. Deve, portanto, respeitar as normas de uma sociedade que crê ter como único inimigo os obstáculos à livre comunicação.
Por meio da comunicação, o homem é capaz de aprimorar o seu conhecimento e de compartilhar dos problemas da comunidade. Este é um dos aspectos que caracterizam a educação como um processo de interação entre as pessoas. Como o próprio Dewey afirma, a educação não se restringe ao aspecto intelectual; abrange também a formação de atitudes práticas de eficiência, o fortalecimento e desenvolvimento de disposições morais, o cultivo de apreciações estéticas. O processo educativo abrange todos os aspectos da vida humana.
É por meio da educação que o indivíduo pode participar das experiências do meio. Essa comunhão se dá pelos objetivos, crenças, aspirações e conhecimentos. “A sociedade subsiste, tanto quanto a vida biológica, por um processo de transmissão. A transmissão efetua-se por meio da comunicação” (DEWEY, 1979, p. 3). Assim, a existência da sociedade e a sua vitalidade, para Dewey, existem pela permanência de pessoa para pessoa através do processo de emissão, na capacidade de trocar ou discutir idéias, de dialogar, acontecendo com a indução dos adultos aos mais novos, seja nos seus hábitos de proceder, pensar ou sentir, daí nascendo a importância da educação como participação social, e que conduz o indivíduo à compreensão da importância da ação integrada para o bem-estar da sociedade.
Alguns estudiosos como John Dewey, J. L. Childs, L. A. Mattos, entre outros, afirmam a necessidade de ensinar a aprender para a continuação da existência social, e isto só será possível a partir do momento em que os educadores se convencerem que cada um deve buscar modos eficazes e fundamentais para que realmente a educação aconteça de direito e de fato.
Neste contexto, a educação formal praticada nas instituições escolares tem papel importante na vida e para a vida das pessoas, de modo que, lidando-se com os mais novos, o fato associativo aumenta de importância como fato humano, tendo em vista que o relacionamento mútuo entre as pessoas faz com que a aprendizagem se desenvolva de maneira mais intensa e efetiva. A educação consiste primariamente na transmissão por meio da comunicação, que é o processo da participação da experiência para que se torne patrimônio comum.
Segundo Cunha (1999), o processo educativo, para Dewey, envolve dois elementos: de um lado a criança, um ser não desenvolvido e, de outro, a experiência, os valores e as idéias acumuladas pelo adulto, um ser amadurecido. Mas, ao invés de se considerar ambos como elementos de interação, prefere-se escolher um ou outro, isoladamente, como responsável pela essência da teoria educacional; a oposição entre o mundo infantil e o adulto enseja o desencontro entre a criança e os programas de estudos, entre a natureza individual e a experiência da sociedade, fazendo com que haja uma dicotomia entre o ensinar e o aprender.
Como se pode ver, Dewey utiliza dois conceitos antagônicos: de um lado encontra-se a criança, o ser individual que vive a experiência imediata, para quem os objetos de interesse são apenas aqueles voltados ao seu bem-estar e para quem a verdade é apenas um conceito que emana de sua afetividade e não da observação dos fatos externos; e, de outro, estão os valores adultos, a experiência da sociedade que se corporifica nos programas de ensino e que diz respeito em grande parte ao passado e a eventos não situados na esfera da experiência individual, como na escola tradicional, onde a criança é vista como um adulto em miniatura.
Como Dewey (1979) se opõe à tendência pedagógica tradicional, considera que a necessidade de educar se torna cada vez mais evidente em face de uma mudança de valores, de hábitos e de atitudes, de forma que esses valores sejam passados dos adultos para os mais novos, através da experiência mútua. Sendo assim, é necessário conhecer, imaginar a experiência de outras pessoas, para compreensivelmente falar sobre a nossa própria experiência. Dessa forma, a relação ensino-aprendizagem dar-se-á por meio de troca e intercâmbio de idéias compartilhadas e, portanto, comunicadas.
Dewey (1979, p. 6), ao defender a educação como processo de comunicação, diz que “[…] toda a comunicação é semelhante à arte. Por conseqüência, pode-se perfeitamente dizer que, para aqueles que dela participam, toda a prática social que seja vitalmente compartilhada é por sua natureza educativa”.
É preciso compreender que, dentro do vasto processo educacional, é necessário considerar que a educação formal só pode acontecer no interior da escola, pois a tarefa de ensinar certas coisas é destinada a um número especial de pessoas. As escolas são um meio importante de transmissão para formar a mentalidade dos imaturos; mas não passam de um meio – e, comparadas a outros agentes, são um meio relativamente superficial. Neste sentido, “[…] somente quando nos capacitamos da necessidade de modos de ensinar mais fundamentais e eficazes, é que podemos ficar certos de dar ao ensino escolar seu verdadeiro valor”. (DEWEY, 1979, p. 4).
A sociedade não só continua a existir pela transmissão, pela comunicação, como também se pode dizer que ela é transmissão e comunicação, pois os homens vivem em comunidade, em virtude das coisas que têm em comum; e a comunicação é o meio por que chegam a possuir coisas comuns: os objetivos, as crenças, as aspirações e os conhecimentos.
Entretanto, à medida que o homem intensifica suas relações de comunicação com os outros grupos e outras associações, amplia, estimula e enriquece a imaginação e a sua experiência educativa. É evidente a necessidade de educar e, conseqüentemente, provocar uma mudança de hábitos e atitudes. Mas isso só será possível via educação formal escolar. Esta, segundo Dewey (1979), abre caminho a uma espécie de experiência acessível à geração mais jovem, o que será possível se tivesse de aprender associando-se livremente com outras pessoas, através de livros e símbolos do conhecimento humano, no caso, a cultura letrada. Entretanto, para que o homem se aproprie do conhecimento de maneira significativa, necessário se faz um aperfeiçoamento contínuo de seu aprendizado como instrumento de direção do comportamento.
Mas a natureza circundante é repleta de coisas que o homem poderia se apropriar para o seu aprendizado e, conseqüentemente, para a sua sobrevivência? Onde inserir e como, nas escolas, lições de arte e cultura de um determinado povo, se tais elementos lhes concede a identidade de pertença a um determinado grupo?
Sabe-se que ensinar hábitos, costumes, valores e atitudes dependem em grande parte da influência dos mais velhos sobre os mais jovens. Nos dias atuais, torna-se cada vez mais complexa a tarefa de educar, pois, à proporção que se desenvolve, o ensino especializado e a sociedade exige profissionais polivalentes, face ao seu processo acelerado de crescimento globalizado e tecnológico, a escola, para executar as suas funções e finalidades, necessita dispor de meios adequados, variados e adaptados, como os professores que, como educadores profissionais, são os mais habilitados para produzirem os resultados esperados da ação da escola.
Consciente de sua tarefa educativa, a escola deverá estar continuamente refletindo sobre o seu papel e revendo os seus procedimentos, objetivos, valores, dentre outros. “Como a realidade humana é muito rica e variada, a escola deverá tornar-se um lugar em que todos os valores humanos tenham o seu lugar e o seu momento de serem vividos”. (SCHMITZ, 1984, p. 144). Isto é um compromisso, mas, por outro lado, dá uma feição muito mais humana e mais nobre à escola. Se ela for capaz de assumir esta característica de lugar favorável à educação, a escola estará mais do que justificada. Ela será necessária para a integralidade da vida e da experiência humana.
Pelos ensinamentos de Dewey (1979), a educação primeiramente consiste na transmissão por meio da comunicação e esta se dá pelo processo da participação da experiência para que se torne patrimônio comum da humanidade. Em suma, associar educação e comunicação nos remete à idéia de que a educação constitui um processo contínuo de mútuo relacionamento entre pessoas, por meio do qual elas, tomando maior consciência de si mesmas, e agindo de acordo com ela, aperfeiçoam-se, desenvolvendo as suas capacidades psíquicas, sociais, intelectuais, morais, espirituais, entre outras (cf. SCHMITZ, 1984).
O processo de educação exige que todos se tornem mais sujeitos e menos objetos, que se tornem mais responsáveis e menos dependentes, que se tornem mais cooperativos e menos manipulados ou manipuladores. Se ensinarmos aos nossos alunos apenas o que eles já sabem, ou aquilo que eles não querem aprender, eles não aprenderão nada. Para aprender, passa-se de um estado de não saber, de não querer e de não poder, para um estado de querer, de saber e de poder. Isto é aprendizagem. Não se ensina de fato se o aluno aprende o que já sabe. Não é aprendizagem, mas simplesmente uma revisão, ou uma confirmação. Não se ensina se o aluno não pode ou não quer aprender.
Para haver aprendizagem, é necessário que o professor se disponha a proporcionar a seus alunos atividades que os conduzam ao desenvolvimento de sua capacidade de decisão, pois ser sujeito é ser interdependente, guardando cada um a sua própria identidade e liberdade, e assumindo junto com o outro a responsabilidade por todas as decisões que eles juntos traçarem.
Assim, conforme Dewey (1979), para se obter uma comunicação segura, participativa e comum, é preciso ter segurança em pontos de semelhança e diferenças nas suas tendências emotivas e intelectuais, ou seja, as proximidades materiais de uma sociedade, o trabalho dos seus membros tendo um mesmo objetivo não constituem uma sociedade, mas se todos tiverem um conhecimento do objetivo comum, interessando-se por um resultado que envolva a comunicação, onde cada um saiba o que considera o outro, conservando a informação de planos e andamento das atividades recíprocas, ter-se-á uma formação efetiva para a vida em sociedade.
Para que os membros da sociedade se desenvolvam, é necessário que a escola se proponha a proporcionar-lhes condições de uma boa aprendizagem, assegurando-lhes momentos de um aprendizado direcionado para a satisfação de seus interesses e de suas necessidades educativas.

Autor: Sheylha christina da silva costa

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