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INDISSOCIÁVEL BINÔMIO – PSICOMOTRICIDADE E APRENDIZAGEM

A Psicomotricidade é uma ciência que possui uma importância cada vez maior no desenvolvimento global da criança, pois considera não só os aspectos psicomotores, mas os aspectos cognitivos e sócio-afectivos. Desde o nascimento, que o que salta aos olhos no desenvolvimento infantil é o corpo e os seus movimentos que, inicialmente, não passam de reflexos ou de reacções de adaptação. Aos poucos, estes movimentos complexificam-se, transformam-se em expressão de desejo e, posteriormente, em linguagem.

A partir daí, a criança é capaz de reproduzir situações reais, fazendo imitações que se transformam em faz-de-conta. Desta forma, a criança consegue separar o objecto do seu significado, falar daquilo que está ausente e representar corporalmente. Este processo nada mais é do que a vivência dos elementos psicomotores dentro de contextos histórico-culturais e afectivos significativos para a criança. Para chegar mais tarde a uma coordenação motora fina, necessária à escrita, a criança precisa de desenvolver a motricidade global, organizar o seu corpo, ter experiências motoras que estruturem a sua imagem e o seu esquema corporal.
E é isso que garantirá a aprendizagem de conceitos formais (da leitura, escrita e cálculo) e a aprendizagem de conceitos do quotidiano: construir textos, contar uma história, dar um recado, fazer compras, organizar a mochila, desenvolver o sentido crítico e a criatividade, resolver conflitos e compreender situações sociais, apertar os botões, utilizar as operações matemáticas para contar quantas pessoas vieram, quantas faltaram, etc.
Sabemos que a criança, ao se confrontar com conflitos, para resolvê-los, cria estratégias a partir de esquemas que já dispõe (Piaget). Se assim é, ao se defrontar com os obstáculos da aprendizagem formal, a criança terá que recorrer às experiências anteriores, que são esmagadoramente psicomotoras.
Se no lugar destas experiências houver um vazio, não haverá aprendizagem.
Portanto, a psicopedagogia e a psicomotricidade estão intimamente ligadas. Antes de aprender a matemática, o português, os ensinamentos formais, o corpo tem que estar organizado, com todos os elementos psicomotores estruturados. Uma criança que não consegue organizar o seu corpo no tempo e no espaço, não conseguirá sentar-se numa cadeira, concentrar-se, segurar num lápis com firmeza e reproduzir num papel o que elaborou em pensamento.
Os conceitos básicos da aprendizagem (dentro/fora, em cima/embaixo, escuro/claro, mole/duro, cheio/vazio, grande/pequeno, direita/esquerda, entre outros) são experimentados primeiramente no corpo da criança, para que depois possam ser representados, “inscritos pelas palavras para serem escritos por palavras”.
Para uma criança aprender a ler, é necessário que possua noção de ritmo, da sucessão de sons no tempo, boa memória auditiva, uma diferenciação de sons, um reconhecimento das frequências e das durações das palavras e uma organização dos elementos percebidos. A aquisição da palavra pressupõe uma passagem no tempo, uma vez que a linguagem é uma sucessão de fonemas no tempo.
Uma criança pequena não consegue extrapolar as suas acções para o passado ou futuro. Ela não percebe com clareza as sequências dos acontecimentos. É a estruturação temporal que lhe garantirá uma experiência de localização dos acontecimentos passados, e uma capacidade de projectar-se no futuro. A Psicomotricidade irá trabalhar a discriminação auditiva, as noções e relações de ordem e sequência, o ritmo, a sucessão, duração e alternância entre objectos e acções. A partir desta fase, a criança começa a organizar e coordenar as relações temporais. Pela representação mental dos movimentos, do tempo e das suas relações, ela atinge uma maior orientação temporal e adquire a capacidade de trabalhar ao nível simbólico. Ela terá, então maiores condições de realizar as associações e transposições necessárias aos ensinamentos escolares, principalmente em relação à leitura, à escrita e à matemática.
Outra habilidade que a criança precisa de desenvolver é a retenção dos símbolos visuais apresentados, como letras, palavras, sinais de trânsito, etc., isto é, desenvolver a memória visual. É também pela memória visual e pela organização espacial, que uma criança consegue discernir letras que possuem grafismo semelhante. A palavra a ser escrita deve estar retida na memória visual.
A partir do momento em que a criança tem condições de discriminar as diversas letras, integrar os símbolos, desenvolver a memória visual, ela atinge a etapa de organização visual. O aspecto perceptivo-linguístico, chave da organização visual, é a integração significativa do material simbólico com outros dados sensoriais. Uma criança que possua discriminação visual pobre pode apresentar uma maior incidência na confusão de letras simétricas como, por exemplo, na forma das letras d e b, n e u, p e q. Outro tipo de confusão que pode existir é nas letras que diferem em pequenos detalhes: f e t, c e e, h e b, a e o. Esta confusão ocorre porque a criança não percebe os detalhes internos das letras/palavras. Outro problema frequente, decorrente de uma discriminação visual pobre é a movimentação dos olhos de forma desordenada, em que as crianças acabam por ler várias vezes as mesmas linhas sem se aperceberem, ou saltam frases inteiras, numa verdadeira falta de controlo ocular.
Com todos os conhecimentos que possuímos em relação ao desenvolvimento infantil e à aprendizagem, fica constatada a importância de, durante a pré-escola e o 1º ciclo, serem oferecidas vivências psicomotoras adequadas às crianças, para que o seu corpo vivido, responda positivamente no processo de aprendizagem de conceitos formais e informais. É assim, indissociável a relação entre psicomotricidade e aprendizagem.


Dr.ª Carla Pereira
Educação Especial e Reabilitação | Psicomotricidade

Fonte: http://construireincluir.blogspot.com

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