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ENSINO MÉDIO- BARROCO: EXAGEROS, OPOSIÇÕES E ESPLENDOR NA LITERATURA E NAS ARTES

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Discuta as origens do Barroco no Brasil, suas manifestações nas diferentes artes e as diferenças de contexto histórico nas regiões nas quais ele se desenvolveu

 Igreja do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerai, com as celebres esculturas dos Doze Profetas feitas por Aleijadinho. Wikkimedia commons: Eric Gaba

Conteúdos
– As origens do Barroco e suas múltiplas manifestações artísticas e literárias
– A Literatura e as Artes nos dois momentos do Barroco no Brasil

Objetivos
– Apresentar as principais características da arte barroca, em suas múltiplas representações (na literatura, artes, música e arquitetura)
– Demonstrar as características do Barroco no Brasil Colonial
– Diferenciar as manifestações literárias do século 17, relacionadas a um contexto histórico, geográfico e artístico distinto dos seus correlatos artísticos, arquitetônicos e musicais do século 18
– Observar e reconhecer obras artísticas e literárias dos principais nomes do Barroco, dando destaque à produção luso-brasileira e suas características originais
– Ler trechos selecionados da obra de Antonio Vieira e Gregório de Matos Guerra
– Ouvir trechos selecionados da obra de compositores barrocos, europeus e brasileiros
– Produzir trabalhos em equipes, fazendo uso de recursos multimídia disponíveis, sobre temática relacionada ao Barroco

Tempo estimado
Quatro aulas

Materiais necessários
– Cópias da reportagem “Até parece milagre” (Veja, 2326, 19 de junho de 2013)
– Trechos da obra de Gregório de Matos Guerra (1636-1695), disponíveis aqui
– Trechos do “Sermão da sexagésima”, Padre Antonio Vieira (1608-1697), disponíveis aqui 
– Imagens e ilustrações selecionadas de obras de pintores e escultores barrocos, bem como da arquitetura barroca brasileira
– Trechos selecionados de obras musicais de compositores barrocos
– Computador, projetor de imagens e aparelho para reprodução de som

Introdução
Por sua profícua e multifacetada produção estética, em vários campos das artes e da literatura, durante um período de pouco mais de duzentos anos, é possível oferecer uma abordagem transdisciplinar do Barroco, que pode tornar o estudo deste conteúdo bastante atrativo. Os princípios estéticos do período, em especial a ideia de uma arte ultrarrealista e funcional, tornaram-se padrão como parte da reação à expansão do Protestantismo na Europa, iniciada com o Concílio de Trento.

Pode-se dizer que o Barroco foi um período em que as influências neoclássicas e o esplendor técnico do Renascimento extrapolaram seus limites. Um dos objetivos da arte sacra barroca era oferecer dinamismo ornamental e dramático através da representação de cenas vivas da liturgia, com seus elementos simbólicos sempre marcados pelos contrastes, por vezes violentos, sempre revoltos, quase sempre exagerados. Isso leva às características intensas e impactantes que marcam a arte figurativa e a arquitetura barroca.

Na arte sacra brasileira, tais opções estéticas resultaram na grande dramaticidade, em que as cenas retratadas surgem através de suas esculturas, pinturas, objetos funcionais e litúrgicos, da arquitetura dos templos, prédios administrativos e do estilo urbano de organização, passando pelas obras artísticas e musicais sacras, criadas para acompanhar missas, exéquias e demais ofícios religiosos. O artista projetava o produto artístico, não importando que se tratasse da fachada de uma igreja, dos detalhes entalhados nas suas colunas internas, de uma sala com jogo de luz envolvente, de esculturas representando a hagiografia católica, que recheavam seus altares e vitrais, projetados a partir de um clima de radical oposição entre o obscuro e o iluminado, o religioso e o profano, a dor e a exaltação, o despojamento e a ostentação. O exagero barroco conseguia abrigar toda a alegoria formal, musical e litúrgica que as técnicas artísticas podiam oferecer.

No Brasil, o Barroco teve importância fundamental na organização social da colônia. As características e o momento do Barroco colonial são diferentes do seu correspondente europeu. Mesmo assim, a literatura barroca é claramente influenciada, na forma, nos temas, no rebuscamento, nos jogos de palavras, pelos moldes do Barroco ibérico. É considerada a primeira manifestação de prosa e poesia autênticas a se produzir na colônia porque, tendo como inspiração os aspectos naturais, sociais e espaciais da terra, os autores coloniais criaram uma obra luso-brasileira – a que podemos nos referir como um período de “literatura colonial de influência barroca”, já que as condições precárias da organização social da colônia não permitem falar em “escola literária”. É de fato uma manifestação luso-brasileira nativista, que acabaria sendo uma das gêneses da literatura romântica e nacionalista do século 19.

As diferenças entre a literatura e as demais artes barrocas no Brasil são marcadas pelos diferentes tempos e locais em que ocorreram: Vieira pregava seus sermões no Maranhão e na Corte portuguesa, enquanto Gregório de Matos criticava a corrupção da sociedade baiana, ao mesmo tempo em que galanteava suas donzelas, um século e meio antes do surgimento dos marcos arquitetônicos, artísticos e musicais em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. É importante esclarecer essas particularidades, e explicar que no século 18, corresponde ao Barroco artístico e arquitetônico o movimento literário do Arcadismo.
A reportagem de VEJA destaca o roteiro turístico criado especialmente para a Jornada Mundial da Juventude, que acontece no Rio de Janeiro no mês de julho, e oferece um passeio guiado pelas principais igrejas barrocas da cidade. A reportagem pode oferecer um bom estímulo para se trabalhar os conceitos da literatura e das artes deste período que marcou a formação do Brasil Colonial.

 

 

Desenvolvimento


1ª etapa: As origens e o desenvolvimento do Barroco, na Europa e no Brasil Colonial

Selecione e reproduza trabalhos significativos da arte e arquitetura barrocas, bem como trechos de peças musicais de autores barrocos. Procure intercalares os estudos literários a trechos de obras que possam corresponder às suas características.

Forme equipes de alunos, e os oriente a sistematizar o aprendizado com apresentações. Peça para os grupos serem criativos em relação ao uso dos recursos disponíveis na escola. A ideia é que cada equipe fique responsável pela apresentação de um produto. Seja uma apresentação em PowerPoint, um fanzine, um blog, um vídeo, uma redação, um trabalho de artesanato ou ainda uma esquete artística ou roteiro musical, o que importa é que os alunos sistematizem o conteúdo em uma produção que reflita e dê sentido ao que aprenderam.

 

Faça uma apresentação geral do Barroco. Conte brevemente sobre suas origens na Itália e sua difusão pelos países católicos da Europa e da América, entre o fim do século 16 e a primeira parte do século 18. Projete para a turma uma seleção de algumas imagens do Barroco europeu. Sugestões: obras de Bernini, Rubens, Phillipe de Champaigne, Pietro da Cortona, entre outros.

Aponte nas ilustrações algumas das características do estilo barroco: o exagero formal, a exuberância dos detalhes, as tensões e contrastes quase paradoxais entre o claro/escuro, o materialismo grandioso e os temas sagrados, a explosão de luz e cor, o ardor piedoso em oposição ao êxtase das epifanias. Diga aos alunos que tais características encontram correlações no estilo literário e arquitetônico do Barroco no Brasil Colonial.

Divida a turma em quatro ou cinco grupos, que deverão ser responsável pela apresentação de um produto, ao final desta sequência.

Distribua à turma cópias da reportagem “Até parece milagre”, de Veja, e oriente uma leitura reflexiva. Depois, abra para comentários sobre o texto. Questione o que representa, individualmente, a palavra “barroco”. Anote na lousa algumas das respostas. Pegue o gancho das melhores respostas e discorra sobre a cronologia do Barroco, seu contexto histórico, artístico e social. Explique o significado da palavra “barroco” (vem da antiga palavra portuguesa “barrueco”, que significava pérolas disformes) e como ela é representativa do estilo. Demonstre que as manifestações literárias barrocas no Brasil ocorreram no século 17, (principalmente com Antonio Vieira e Gregório de Matos), enquanto a explosão artística e arquitetônica ocorre no século 18, devido à descoberta do ouro em Minas Gerais. Esclareça que, quando se fala em Barroco no Brasil Colonial, refere-se a dois momentos distintos: o Barroco Literário e Arquitetônico do século 17, que acontece na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, e está relacionado com o ciclo da cana de açúcar, cujos representantes literários principais são Gregório de Matos (poesia lírica, satírica e religiosa) e o padre Antonio Vieira (sermões), e o Barroco do século 18, também chamado de “Barroco Tardio”, ou ainda “Barroco mineiro”, cujo esplendor artístico e arquitetônico corresponde ao Arcadismo na literatura, e está relacionado com o ciclo do ouro em Minas Gerais. Seus representantes principais nas artes são o Aleijadinho, Lobo de Mesquita, Caetano da Costa Coelho, Mestre Ataíde, entre outros.

Finalize a aula distribuindo à turma o texto de um dos autores barrocos pré-selecionados. Pode ser um poema lírico, satírico ou religioso de Gregório de Matos, ou um pequeno trecho ou parágrafo de um sermão de Vieira. Faça uma leitura dirigida do texto escolhido destacando as características encontradas, sempre retomando a proximidade com as outras artes.

Como atividade para casa, peça às equipes que pesquisem sobre a vida de Antonio Vieira e Gregório de Matos, e também sobre os conceitos de cultismo e o conceptismo.

2ª etapa: A obra literária de Vieira e Gregório de Matos
Retome a abordagem apresentando as características do Barroco como um movimento literário marcado pela intensidade dos conflitos, a impulsividade, as formas e temáticas contraditórias. Destaque que o barroco é uma arte multifacetada, representada pelos contrastes entre o claro e o escuro, o corpo e a alma, a vida e a morte, o paraíso ou a danação, o divino e o humano.

Peça aos grupos que apresentem o resultado do trabalho, com um breve relato sobre a vida dos dois autores e também, em linhas gerais, expliquem o que descobriram sobre o cultismo e o conceptismo. O conceptismo, como indica seu nome, trata da concepção ideológica, buscando deixá-las claras e evidentes para o ouvinte/leitor. O cultismo, por sua vez, é o culto à forma: o texto barroco marcado pelo rigor formal de sintaxe e forma poética, fazendo uso exagerado das figuras de linguagem, dos jogos de palavras e dos paradoxos.

Para exemplificar o conceptismo e o cultismo, selecione trechos do “Sermão da Sexagésima” de Antonio Vieira, e da poesia “Ao braço do Menino Jesus de Nossa Senhora das maravilhas”, de Gregório de Matos. As características marcantes destes conceitos se expressavam nos textos principalmente por meio da linguagem composta por jogo de palavras, que visava surpreender e chamar atenção do leitor por conta não só do seu rebuscamento formal, mas principalmente pela atitude reflexiva e filosófica, em relação à lógica das construções.

Caso considere pertinente, apresente um esquema do sermão, destacando suas principais linhas retóricas. O “Sermão da Sexagésmia” foi inspirado na “Parábola do semeador”, do Evangelho de Lucas. Vieira afirma metaforicamente que pregar é semear. Compara as partes da parábola ao estilo de oradores de sua época, a quem acusa de serem os culpados pela falta de conversão dos fieis. Na época, o Estado português não estava separado da Igreja, por isso, a conversão dos fieis era também uma ação civilizatória da Coroa.

Para a construção lógica e conceptista de seus Sermões, Vieira seguia um roteiro, que consistia em a) delimitar a temática, b) subdividi-la, c) usar o Evangelho para confirmar as teses apresentadas, d) utilizar o raciocínio lógico na compreensão do Evangelho, e) confrontar o sermão com seus argumentos contrários; f) concluir de maneira persuasiva, que exortasse o ouvinte a agir de acordo com os preceitos apresentados. Este esquema retórico é o maior exemplo de como funcionava a composição conceptista no texto de Vieira.

Destaque no poema de Gregório de Matos a presença do jogo de palavras, da oposição entre parte versus todo. O texto cultista acaba envolvendo o leitor através de um cromatismo, que está embasado na utilização exagerada de figuras de linguagem, metáforas, paradoxos, comparações, antíteses, sinestesias, além da presença de elementos que trazem duplo sentido, fazem uso de trocadilhos, exageros formais, hipérbatos. O cultismo valorizava o preciosismo nas construções, a forma rebuscada (dando preferência ao soneto), a facilidade com que o autor se relacionava com as palavras.

Destaque as três vertentes da obra de Gregório de Matos (lírica, religiosa e satírica, esta última responsável pelo apelido “Boca do Inferno” pelo qual o autor ficaria conhecido). Selecione uma poesia de cada vertente (por exemplo: “A D. Angela” (lírica-amorosa); “Buscando a Cristo” (religiosa) e “Descrevo o que era naquele tempo a cidade da Bahia” ou “Epílogos” (crítica-satírica).

Finalize a aula orientando as equipes a criar um jogral ou uma leitura dramática, para a aula seguinte, a partir de uma poesia de Gregório de Matos ou um trecho de um dos sermões de Vieira.

3ª etapa: A arquitetura e as artes barrocas do século 18
Inicie o encontro organizando a apresentação dos jograis e das leituras dramáticas.

Retome a apresentação do conteúdo falando sobre a produção artística barroca no século 18. Faça uma breve contextualização histórica: relate o alvoroço causado pela descoberta de ouro nas Minas Gerais no início do século 18 e o rápido desenvolvimento social, urbano, artístico e cultural que ocorreu nas regiões da colônia relacionadas com Minas Gerais.

Explique que o florescimento da arte e arquitetura barrocas só foi possível nesta época porque houve a construção, sob o patrocínio de ordens religiosas ou leigas, de inúmeras igrejas, capelas e santuários, além da organização de escolas de escultores, pintores e decoradores, que seriam responsáveis pelo esplendor do Barroco no Brasil, quando este período já se encontrava em decadência na Europa. Associe o conteúdo desta sequência ao ciclo do ouro, conteúdo estudado em História.

Faça uma breve apresentação sobre a vida e a obra dos artistas Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), Mestre Ataíde (1762-1830), Francisco Xavier de Brito (? – 1751), Mestre Valentim (1745?-1813).

Procure destacar, entre as características da arte barroca, sua proximidade com temas religiosos, e os efeitos gerados pelos contrates, jogos de luzes, utilização de determinados materiais que produzem efeitos inusitados, a teatralidade das cenas, o dinamismo realista das figuras, a monumentalidade das construções, a excessiva ornamentação e detalhismo e a sobreposição de planos nas fachadas e nos interiores.

Ilustre a aula com imagens de obras destes artistas. Sugestões: os Profetas de Congonhas do Campo (Aleijadinho); os afrescos da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto (Mestre Ataíde); detalhes da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência (Francisco Xavier de Brito); ou ainda fachadas e altares de igrejas barrocas no Rio de Janeiro e Minas Gerais, como a Igreja de São Francisco de Assis e a Matriz Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto (MG), a Igreja do Ó e a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, com seus detalhes que remetem à arquitetura chinesa, em Sabará (MG); a Igreja da Lapa dos Mercadores (RJ); ou a Igreja de São Francisco de Assis, em São João del Rei (MG).

Encerre o encontro orientando as equipes para que procurem encontrar semelhanças entre o modo de criação poética dos autores barrocos do século 16 e a arquitetura detalhista, suntuosa e grandiloquente da arquitetura barroca de Minas Gerais.
Peça que os alunos apresentem os resultados em um trabalho (que poderá ter diferentes formatos), que deverá deixar claros as características e contextos históricos, sociais, artísticos e culturais do Barroco no Brasil Colonial.

4ª etapa: A música barroca
Após a apresentação dos trabalhos, encerre esta sequência apresentando algumas obras musicais do Barroco. Sugestões: trechos da “Missa em mi bemol número 1”, ou da “Missa em Fá Mayor”, do compositor brasileiro Lobo de Mesquita, ou trechos da obra de Bach, Vivaldi, Monteverdi, Scarlatti, Antonio José da Silva, Händel. Demonstre que também na música o Barroco possui concepções e temáticas relacionadas às características observadas na literatura, nas artes e na arquitetura.

Avaliação
Ao final da sequência, avalie se os alunos foram capazes de a) entender as origens e a multiplicidade das manifestações artísticas, musicais e literárias do Barroco; b) a cronologia e os locais onde o Barroco se desenvolveu; c) os dois momentos da Literatura e das Artes barrocas no Brasil Colonial; d) a importância do Barroco para as artes nacionais; e) as características da obra literária de Antonio Vieira e Gregório de Matos Guerra. Caso sua escola esteja em uma cidade que possua exemplos do legado da arte barroca, considere a possibilidade de fazer uma visita guiada a um desses locais. Esta é uma excelente forma de fixar e sintetizar os conteúdos estudados.

André Rosa
Professor de Literatura e mestre em Educação, faz parte da equipe do Programa Futuro Integral do SESC/PR

Fonte: Revista Nova Escola

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