CRÔNICA: PONTOS DE BORDADOS – PARALELAS QUE SE ENCONTRAM

 

 

O lobo não era tão mau assim. A vovozinha continua bordando maravilhosamente bem. São tantos pontos cruzes, vazados, livres, cheios, retos, palestina, fita, rococó, de contonos, chatos, de laçada, haste, alinhavo, atrás, pequinês, de amarra, cordoné, partido, reto, matiz, de folha, pétala, renascença, treliça, de feixe, de areia, tela de aranha, entrelaçado, cruz maltesa, anjour, pé de galinha, ponto russo e richelieu. Como sei de tudo isso? E os bilros?  Lindos. A velha Lia também escapou do lobo mau. Fazia enxovais de cama, mesa banho e casamento. Se não fosse a Vovó Gege, com certeza, as camas estariam forradas com os tecidos cobertos de linhas coloridas dela.
Saudosismo à parte, aquele lençol branquinho, com destaque rosáceo, fez a minha história vir à tona. Queria muito ter talento para o bordado. Enfeitar a casa e o corpo, com peças originais, apurar minha vaidade pelo colorido seria um sonho. Mas não herdei o talento e só restou a saudade ortodoxa e aos novelos de linha que vi expostos numa vitrine na cidade; só lamento. Não dá para voltar o tempo e obedecer a velha Lia enquanto puxava minha orelha e das minhas irmãs e nos  obrigava, com uma agulha e um pedaço de pano aprendermos a bordar alguns básicos (cruzes). Ela dizia que era o começo do futuro. Mas o começo do futuro não é o presente? Eu gostava mesmo era de ler. Podia até ler sobre bordados. Mas o desenho do alfabeto sobre um pedaço de papel, este sim, era meu fascínio. Queria, pelo menos, no meu legado, deixar uma toalhinha, com um pequeno diagrama: mãe. Bordado, é claro! Mas…
A “modernidade” criou máquinas que bordam. Mas, cá entre nós, os desenhos são frios e sem sol. Os pontos são paralelas que não se encontram.
Quero, pois, compensar a falta de talento e o desinteresse pelo bordado, com muitas cartas para àquela velhinha que cozinhava, lavava, passava, bordava, pintava e além de tudo lia tanto e tão bem …Quem sabe quando nos encontramos eu entrego a toalhinha do diagrama. Só que ainda nem comecei a bordar. Vovó Gege, puxe a minha orelha, me faça sentar e começar uns pontinhos cruzes, vazados, livres, cheios, retos, palestina, fita, rococó, de contonos, chatos, de laçada, haste, alinhavo, atrás, pequinês, de amarra, cordoné, partido, reto, matiz, de folha, pétala, renascença, treliça, de feixe, de areia, tela de aranha, entrelaçado, cruz maltesa, anjour, pé de galinha, ponto russo ou  richelieu. Antes que o lobo mau me confunda com  uma “chapeuzinho vermelho”.  Se bem que que se ele enxergar bem, estou mais para “vovozinha”. Que nem borda!

Autor: Aurea Mendonça Coelho Gonçalves

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