BIELSCHOWSKY: FIM DA SEED COMPROVA QUE EAD SE QUALIFICOU

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Débora Thomé

Dizem que o bom filho, à casa torna. O que dizer, então, do “pai da criança”? Depois de passar quase quatro anos à frente da Secretaria de Educação a Distância (Seed) do Ministério da Educação (MEC), em Brasília, Carlos Eduardo Bielschowsky está de volta ao Rio de Janeiro e à presidência da Fundação Cecierj, que integra o Consórcio Cederj, a primeira experiência pública em EAD no país, idealizada e implementada por ele em 1997.

Menos de  um mês após reassumir as rédeas da Fundação Cecierj, Bielschowsky recebeu a FOLHA DIRIGIDA em seu gabinete e confirmou ter tomado a decisão de deixar o MEC motivado por razões pessoais, como estabelecer maior convívio familiar. O que aconteceu antes de ser anunciada a extinção da secretaria. A intenção de deixar a Seed/MEC já havia sido sinalizada por Bielschowsky em entrevista à FOLHA DIRIGIDA,  quando da publicação do Caderno Especial EAD, encartado nas edições do jornal. Na ocasião, afirmou que a Seed deixaria de herança, para o próximo governo, um trabalho adiantado e em pleno andamento.

Na mesma  entrevista, disse acreditar que a supervisão ao ensino a distância, que provocou o fechamento de cursos, o descredenciamento de polos e, inicialmente, uma ‘gritaria’ do setor privado, acabou provando que refrear aquele crescimento exponencial da oferta de cursos era o caminho mais acertado pela busca da qualidade e, dessa forma, para uma mudança cultural. Agora, volta a destacar a o sistema de regulação e fiscalização da EAD em âmbito nacional e afirma que a extinção da Seed/MEC é uma sinalização muito clara de que a educação a distância se qualificou.

Quais são os planos desse retorno à Fundação Cecierj? Pretende trazer alguma experiência da Seed para cá, é possível?
Os planos para a Fundação nos próximos anos é destacar a visão do secretário de Ciência e Tecnologia, que devemos trabalhar cada vez mais a ação social. Pretendemos ampliar a atuação do Cederj e também trazer para o sistema aquelas pessoas que chegam no início de sua fase adulta e têm dificuldade de estudar. Dar uma contribuição efetiva ao que hoje está acontecendo no Complexo do Alemão e ajudar a sociedade ainda sofrida a ter acesso à Educação. Nesse sentido, pensamos em abrir cursos para carreiras que tenham chances de empregabilidade mais ampla, como Engenharia Civil, em lugares como São Gonçalo, Caxias, Alemão, onde as pessoas necessitem de colocação no mercado e o Pré-Vestibular Social possa atuar de maneira significativa.

Neste momento, quais são os programas da Fundação que podem ser considerados uma espécie de carro-chefe?
O fato de ter coordenado o plano nacional de desenvolvimento dos professores nos trouxe uma visão sobre a questão da formação dos professores. A ideia é que nós podemos dar uma contribuição destacada para a formação dos professores do Estado do Rio de Janeiro. Isso, certamente, será uma prioridade nossa. Nesse sentido, já temos um projeto com a Secretaria de Educação que, quando estiver maduro o suficiente será anunciado pelos dois secretários, mas que, tenho impressão, dará uma boa ajuda à questão dos professores do estado e dos municípios.

E a Fundação Cecierj? Evoluiu enquanto esteve em Brasília?
Encontrei a Fundação muito bem. Quero parabenizar a equipe que aqui estava e as universidades do consórcio. Encontrei o Cederj mais maduro, mais organizado, aumentaram o número de polos, consolidaram o pré-vestibular social e tiveram ainda uma experiência bastante positiva na área de Ciências, que foi a criação do Museu de Ciências de Caxias, que é fantástico. Fui visitar e fiquei maravilhado. No meu entendimento, a Fundação avançou e se consolidou. É um terreno muito fértil, com um clima muito bom, colaborativo, entre as universidades, e tenho a impressão de que teremos condições de fazer muita coisa daqui para frente. Estou muito animado.

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Algum plano de enveredar pelo mesmo caminho da UAB, chegando ao mestrado profissional a distância?
Do mestrado profissional não. O projeto que a secretaria deseja e que nós também desejamos é muito vinculado ao cotidiano do professor. Vai ser trabalhado mais adiante. O que eu quero destacar neste momento é essa condição nossa, tendo participado do programa nacional de formação de professores, de vislumbrar o dia a dia do professor. É muito importante estar conectado com o professor na sala de aula.

Sobre a extinção da Seed, há prós e contras?
Antes de qualquer coisa, é preciso destacar o avanço da EAD que nós conseguimos nos últimos anos. Os dois elementos principais da área de educação a distância foram muito bem realocados. Vejo nisso um avanço. O ministro Fernando Haddad também disse que manteria o ProInfo num outro loccus, e isso está se consolidando, que é um outro elemento importante. Claro que a gente sente. Ainda estou sensibilizado. Traz uma certa dor para quem é da área ver a trajetória de extinção da Seed. Mas, por outro lado, eu também vejo como positivo, como um processo. Fica esse sentimento de que estamos caminhando para a evolução do setor.

O sr. fala em evolução da EAD nos últimos anos no país. Quais pontos apontaria como fundamentais para isso ter ocorrido?
É absolutamente inequívoco dizer que a educação a distância se qualificou por dois motivos principais: primeiro porque está sendo exigido das empresas privadas que elas ofereçam aos estudantes um conjunto de elementos que implicam numa certa qualidade. Isso significa, entre outras coisas, que a margem de lucro dessas instituições diminuiu muito. Isso está sendo observado na conversa com empresários, e tem que ser. Um dos aspectos que fizeram a EAD avançar foi o sistema de regulação e supervisão. Descredenciamos várias instituições e não recredenciamos outras. Isso não apenas tirou do mercado as instituições que tinham sérias dificuldades – e que podem voltar depois, podem se requalificar – como sinalizou para as outras que o que fizemos era para valer. Outro aspecto importante foi a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB), que hoje tem 90 instituições participantes e está cada vez mais consolidada. Esses dois elementos seguiram trajetórias dentro do MEC de consolidação. A ida da UAB para a Capes é um claro indício disso. Nos últimos dois anos, inclusive, a Seed começou a fiscalizá-la. Descredenciou alguns polos. Outro processo, o de supervisão e regulação, organizado em apenas uma secretaria, mantendo as característica de cada um deles, é bom também. Do meu ponto de vista, está surgindo um loccus de regulação e supervisão dentro do MEC que possivelmente desembocará, no futuro, em uma agência reguladora com autonomia. Acho que isso denota um avanço também.

Voltando ao assunto da extinção da Seed, a impressão que dá é de descentralização. Não houve a perda de um interlocutor da área, que ainda está em processo de evolução?
É difícil responder a essa pergunta. Como disse, os setores mais importantes da Seed têm interlocutores garantidos em seus novos locais de atuação. Me parece que essas interlocuções se reconstróem numa boa colocação. Tenho muita admiração e respeito pelo ministro Fernando Haddad. É uma pessoa de uma inteligência fora do padrão, e ele tem um plano para o MEC como um todo, e me parece que o que aconteceu com a Seed faz sentido. Tenho muita confiança que o ministro está tomando direções globais para o MEC que levam a aspectos positivos. Um dos pensamentos do ministro, por exemplo, é que não devemos separar educação a distância da educação presencial, no sentido que elas se misturam cada vez mais. E essa visão dele se reflete em fazer um setor de regulação e supervisão único. Parece correta essa visão. E também esses acontecimentos.

Esse processo pode ser, então, encarado como um indício de casamento da EAD com a educação presencial?
É uma sinalização muito clara de que a educação a distância se qualificou. É um reflexo disso, e de que ela já está pronta para enfrentar um processo mais homogêneo. Estou conjecturando sobre os pensamentos do ministro Fernando Haddad. Meu pensamento é que cada vez teremos menos diferenças entre a educação a distância e a educação presencial. Cada vez mais as tecnologias serão utilizadas, cada vez mais as atividades estarão mais próximas. Nos cursos EAD, por exemplo, o aluno entra para uma instituição. E ele escolhe se quer fazer determinada disciplina de forma presencial ou a distância. E aqui no Brasil nós já temos 20% da carga horária das graduações presenciais para serem dadas a distância. Acho que a tendência é ficarem cada vez mais próximas.

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