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O BARROCO NO BRASIL


O barroco no Brasil é um tema que atrai o estudioso de nosso passado e está longe de ter sido suficientemente explorado em todos os seus ângulos. Foi esquecido, abandonado e dilapidado. Hoje, volta-se o interesse publico para este remanescente da nossa era colonial. Agora se percebe o alcance da incúria a que foram relegados os monumentos artísticos coloniais, vêm eles sendo estudados sob os mais variados aspectos, numa ânsia de revalorizar nosso patrimônio cultural dos três primeiros séculos após a Descoberta.
Mas não seria justo carregar demasiado nas recriminações porquanto razões houve, que conviria analisar e estudar, tanto para o descuido como para a revivescência do interesse pelo barroco.
O barroco testemunha a nossa primitiva arrancada colonial proporcionada pela riqueza criada com a produção de açúcar, fumo e madeiras nos séculos XVI, XVII, XVIII, e com o predomínio da mineração do ouro durante todo o século XVIII e principio do XIX . Após uma estagnação que durou século e meio, reinicia-se agora a arrancada com novo surto, definitivo e em crescente ascensão, que de novo estimula o ânimo e o entusiasmo de nosso povo.
A arte barroca, no Brasil, vem sendo estudada com afinco, com as construções religiosas da orla marítima e de Minas Gerais. Mas existem manifestações de arte barroca menos exuberantes, modestas mesmo, em Goiás, Mato Grosso, São Paulo e, na costa sul, até o Rio Grande do Sul. Tais construções, embora sem o brilho e a magnificência das de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, foram expressões artísticas que ocorreram no século XVIII, tendo forçosamente alguma representação barroca, já que este estilo era o reinante na época.
Existem várias questões a serem feitas para o entendimento do que representou o barroco e como ele foi implantado no Brasil-colônia:
O que é o barroco?

Como chegamos a esta expressão artística?

Por que sua manifestação é quase totalmente religiosa?

Quais os acontecimentos ocorridos no mundo ocidental relacionados com o barroco durante os dois séculos de sua predominância?

Qual a razão de sua decadência?

Por que foi esquecido e desprezado?

Quais os elementos de nossa história que influíram na construção religiosa barroca?

E finalmente, o mais importante: quais os elementos psicológicos que motivaram as grandiosas ou modestas criações da arte religiosa barroca?
A resposta a estas questões permitirá o desenvolvimento de um esboço histórico do barroco no Brasil. Este bem compreendido, como um todo, consegue-se perquirir o que, na época, se passou na alma de nossos ancestrais para proporcionar fundos que permitissem tão abundante construção de igrejas barrocas. Estas, hoje redescobertas, causam admiração, encorajando-nos a preservar o que restou de todo este acervo de nossa cultura.
O barroco, longe de ser uma arte em decadência, como se acreditava até o fim do século XIX, revelou-se aos olhos dos que o estudaram sob um novo enfoque, como manifestação surpreendente de arte criadora, original e consentanêa com a evolução do mundo ocidental dos séculos XVII e XVIII. Deve-se a Wolfflin esta reviravolta sobre o conceito do barroco. Este estudioso suíço publicou em 1.888, quando tinha apenas 24 anos de idade, um livro intitulado “Renascença e Barroco”. Esta obra pioneira desencadeou a febre do conhecimento barroco, que passou a atrair a atenção dos estudiosos de História da Arte em todo o mundo. Desses estudos veio o interesse nacional pelas nossas construções barrocas que se revelaram de inestimável valor artístico.
Para melhor compreensão do fenômeno artístico entre nós, convém situa-lo no contexto da evolução das manifestações de arte no mundo ocidental. Assim, poderemos compreender melhor as implicações psicológicas responsáveis pelo seu desenvolvimento em nosso meio.
Num renovado exemplo do “sir transit gloria mundi”, o barroco, testemunho dos desvarios da fortuna colonial, era substituído pela sobriedade; por isso mesmo foi condenado como arte decadente e de mau gosto; julgamento que mal disfarçava a decepção e a inveja das gerações subsequentes pela opulência imaginária dos ancestrais que testemunharam, viveram e sofreram, na exaltação e na miséria, o ciclo do ouro no Brasil-colônia .
A configuração sócio-ecônomica do Brasil colonial foi propícia ao desenvolvimento do barroco ligado à religião católica. Existem, entretanto, construções civis com as características do barroco, sobretudo cadeias, fortes e chafarizes e algumas moradias das autoridades da coroa ou potentados da época, sem falar nos inúmeros detalhes arquitetônicos de residências em cidades mais prósperas, tais como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto.
Para análise das reações emocionais ligadas às construções barrocas, vamos nos cingir às igrejas . Estas constituem a grande maioria destas construções e têm em comum a intenção religiosa, adequada ao nosso estudo. O barroco nas construções civis é a representação do estilo vigente na época, subordinado aos recursos da metrópole ou dos cidadãos. A análise das reações psicológicas que determinaram estas construções teria que ser a análise da riqueza de cada um e das usuais conseqüências das relações humanas em comunidade – vaidade, ostentação, competição, inveja; estas levaram ao esforço de execução de requintes arquitetônicos em beneficio de construções mais vistosas e confortáveis, que se destacaram do comum das moradias simples, mais consentanêas com as condições frugais da vida ambiente.
A palavra “Barroco” era usada pelos portugueses para designar as pérolas naturais de forma bizarra, irregulares, diferentes da conhecidas pérolas esféricas.
A arte barroca é também conhecida como o “estilo da Contra-Reforma”, já que se aparecimento coincide com o período da efervescência religiosa que deu origem ao Concílio de Trento, em 1545.
O barroco é o característico de um largo período da história do mundo ocidental durante o qual surgiram tantos estilos diversos quantos foram os grupos sociais que produziram obras de arte. Este conceito de Hauser esclarece o significado de vários qualificativos do barroco, tais como plateresco, jesuítico ou estilo D. João V e rococó, que são manifestações específicas de determinadas épocas, todas dentro do conceito geral do barroco.
O barroco exprime o imponderável, visando ao infinito, pois nem os tetos das igrejas limitam o espaço, quando decorados com pinturas que os projetam para as nuvens, representando a assunção da Virgem, a ascensão do Senhor ou a corte celeste.
Esta imponderabilidade tem seu complemento nos elementos de sustentação que se multiplicam graciosamente, sem nada sustentar; nos arcos que se curvam e torcem como se fossem maleáveis; na pintura com iluminação artificial e de caráter ilusionista; enfim, um mundo plástico criado com o objetivo de enaltecer o Altíssimo, numa glória e exaltação religiosas que bem indicam a reação da contra-reforma dentro de uma religião necessitada de renovação saneadora.
Mas afinal, o que é o barroco? E como é representado artisticamente?
Ele foi a expressão artística de 200 anos de atividades construtivas, e sua manifestação teve que representar as emoções dos povos e das civilizações da época. O barroco, na sua expressão religiosa, tem o característico geral de uma aspiração ao infinito. É suntuoso, porque assim exalta a glória de Deus; é redundante, porque reforça a expressão dessa glória; é cheio de formas esvoaçantes, que exprimem a espiritualização da fé. Dentro dessa aspiração, manifestou-se com riqueza espantosa onde houve recursos, sobretudo o ouro que amparava suas pretensões; e foi modesto, pobrezinho, humilde onde, mesmo a míngua de recursos, deixou sua marca nesta ou naquela composição que exprimiu tudo o que a veneração modesta do fiel pôde oferecer a seu Deus. São todas expressões do barroco, com cambiantes ligadas à situação social das comunidades. Se o suntuoso representa o barroco na sua plenitude áurea, o modesto exprime o mesmo barroco que, por sua vez, é a sua linguagem de fé.

 

 

O Barroco no Brasil – 2

O Brasil, sendo colônia riquíssima pela cultura e comércio do açúcar e pela mineração, teria que produzir um barroco rico na sua representação máxima, em talha polimorfa recamada do mais fino ouro brasileiro. Aí estão as construções de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Por exemplo as igrejas barrocas com sua arquitetura imponente, com volutas imensas, cornijas, janelas, portadas com linhas características onde predominam a curva e a simetria de ornatos. O encanto das torres com suas cúpulas esféricas, e às vezes sobrepostas, e suas pináculas.
Em meio a esse turbilhão de formas de sustentação e de enfeites, anjos, cariátides, pelicanos e grifos completam o conjunto como chamas esvoaçantes de ouro, que exaltam a efígie de Cristo e dos santos de sua corte celestial. Entre os altares, quadros a óleo ou talha decorativa, num movimento contínuo, envolvendo os fiéis que, olhando para cima, vêem o próprio céu no além representado no forro pintado: a porta celestial para o infinito, para a companhia dos anjos, da Virgem, dos apóstolos e do próprio Deus.
Em contraposição, temos que reconhecer que nem sempre o Barroco no Brasil foi assim representado, pois houve regiões onde as condições sócio-econômicas determinaram outros tipos de construções. Nelas, teve expressão modesta, sem ouro; a talha ambiciosa na sua pobreza, manifesta-se em algumas colunas salomônicas, em raras volutas simétricas, em linhas curvas, numa ou outra folha de acanto, em raros e grosseiros anjos. O intuito na fé foi o mesmo, os recursos é que foram mínimos. Havia abundância de ouro bruto; mas faltavam artistas e material adequado que permitisse uma representação consentanêa com o desejo do clero. A diferença é tão grande que se poderia negar o espírito barroco no ambiente do pobre, o que não é nem justo nem verdadeiro.
Aí estão, em rápidas linhas, os dois pólos do barroco como o vemos no Brasil. Nesta faixa, oscilando entre o maior e o menor, podemos observar as manifestações de arte religiosa do nosso período colonial. Tal constatação faz supor uma profunda influência dos acontecimentos sócio-econômicos no seu desenvolvimento.
Na idade média a população católica predominou numa população constituída por senhores e servos; os sentimentos supersticiosos e a feitiçaria criaram condições propícias para o predomínio do clero.
Nos séculos XV e XVI o mundo como que acorda da estagnação multise-cular, surgindo a Renascença. Há um extraordinário surto de progresso no comércio, com o advento das repúblicas da península itálica, cuja atividade no comércio exterior e no manejo do dinheiro trouxe considerável riqueza à Europa. O comércio marítimo, veneziano e genovês, trouxe ainda a ânsia das descobertas, resultando na descoberta do caminho marítimo para as Índias, da América e do Brasil. Descobertas, terras exóticas e riquezas foram uma seqüência lógica e a conseqüência foi o enriquecimento cada vez maior da Europa, que perdeu a tranqüilidade da parcimônia da Idade Média para passar para a agitação política, corolário das riquezas geradoras de ambições e lutas. Surge então o domínio das grandes casas reinantes: o absolutismo que exprime o poder único e pessoal, indiscutível e divino dos reis. O Papa, com a igreja católica dominante, tinha já considerável poder temporal.
Esta seqüência mostra como o barroco, independentemente das razões artísticas que o tenham condicionado, estava com o campo fecundado para seu pleno desenvolvimento, Até o começo do século XIX, o ambiente religioso foi de vigilância e terror causados pela Inquisição com seus autos de fé, suas perseguições injustas, onde se misturavam à verdadeira crença, os conceitos supersticiosos e a satisfação de interesses econômicos e políticos escusos, sempre na atmosfera sombria dos tribunais secretos e da terrível luz das fogueiras.
Com uma religião assim representada às massas não se podia facilitar, e foi essa, em parte, uma razão para o aparecimento das mais efusivas manifes-tações de fé que dominaram por dois séculos a atitude devocional do povo.
Em nosso meio colonial a Inquisição foi antes uma ameaça do que uma prática habitual. Houve devassas esporádicas e visitações do Santo Ofício no século XVI, mas não se chegou a queimar ninguém. Nem por isso ela foi menos temida, pois os colonos, todos portugueses, sabiam das terríveis incursões em Portugal.
Embora não se tenha havido suplícios em fogueiras, não deixou o povo de ficar alerta e temeroso, pois, muitas vezes encontrava-se atividade inquisitorial. Parece-nos evidente que no inconsciente dos homens desse tempo a ligação com os pais, no caso, representados pela Igreja e por Deus, assim punidores e severos, teria que determinar uma atitude de defesa psicológica contra os conhecidos e comentados horrores das punições pela inobservância dos preceitos da igreja. Havia o profundo e natural sentimento religioso do povo; a ostentação desse sen-timento por palavras e obras poderia ser, porém, conseqüência da pressão exercida pelo poder eclesiástico.
Nesta atmosfera nasceu, cresceu e atingiu seu ápice o barroco no Brasil.
Como decorrência da Contra-Reforma religiosa, o que os protestantes condenavam e aboliram foi retomado e exaltado do lado católico. Os primeiros pugnavam pela simplicidade dos templos, negavam a santidade da Virgem e dos Santos. A Contra-Reforma reagiu, reforçou o conceito da Imaculada Conceição e enalteceu o papel de seus santos e mártires, incentivando a representação iconográfica. Fez mais, promoveu a pompa nas cerimônias religiosas com templos suntuosos, numa exaltação a Deus e aos inumeráveis santos.
A Companhia de Jesus logo se engajou nesta nova orientação, tendo sido a primeira a empregar a arquitetura suntuosa do barroco. Ao mesmo tempo, lançou-se na luta pela catequese, estando seus membros entre os primeiros a chegar à nova colônia, o Brasil. Logo depois chegaram várias outras ordens religiosas, todas com o mesmo afã de catequese e difusão da fé. O mesmo espírito reinante da Europa desde o Concílio de Trento as imbuía, sendo, portanto, fácil compreender o porquê das grandes construções religiosas, da suntuosidade dos templos, e sobretudo, da quase completa exclusividade da ligação do luxo então existente com o tema religioso.

O Barroco no Brasil – 3

O barroco nasceu, pode-se dizer, com o Brasil, pois enquanto no século XVI, o da Descoberta, se implantava à luz trágica das fogueiras a nova ordem religiosa na Europa, iniciávamos nossa colonização, a princípio deficitária e, já no fim do século, pujante, com a implantação da cana-de-açúcar, a montagem dos numerosos engenhos na orla marítima e a acumulação de recursos que permitiram as disponibilidades para a construção e decoração das igrejas.
No século XVII acentua-se o comércio do açúcar a tal ponto que desperta a cobiça das nações européias; daí as invasões holandesa e francesa.
Ainda que o barroco não tivesse tido ampla execução no Brasil senão a partir do fim do século XVII, o acontecimento se deveu antes ao atraso da colônia do que à falta de ardor religioso. Não se pode separar o dinheiro da suntuosidade, pois, ainda que haja a intenção de uma homenagem condigna a Deus em templos ricos, somente com a presença de recursos abundantes foi possível dar execução aos planos existentes. A beleza deslumbrante dos templos barrocos da Itália e da Península Ibérica estava quase sempre presente na memória dos nossos primeiros religiosos; esperavam apenas o aparecimento de recursos para a sua efetiva execução.
Na vigência do barroco houve profundas alterações da economia dos povos em relação à Idade Média. No século XVI surgiram as grandes cidades com seu poderio econômico, o intenso comércio, a navegação e as grandes descobertas. Com novas terras dominadas pelos europeus, inicia-se a sua explo-ração, sendo logo buscados o ouro e a prata tão carentes no velho mundo. Depois da era romana, e por toda a Idade Média, pouco de acrescentou às quantidades de ouro na Europa. As minas da Transilvânia e do norte da África eram as minguadas fontes do metal tão cobiçado. Falando-se em descobertas de novos mundos, o ouro sempre foi a ambição dos reinantes e vassalos e a mola mestra para a conquista dos mares.
Com as novas descobertas, sonhava-se com a abundância de ouro para o alívio da situação de permanentes dívidas em que se debatiam os reinos europeus. A euforia da descoberta da América por Colombo foi logo em seguida do travo amargo da decepção: os navios voltavam, não pejados de ouro e prata, e sim de índios. Dessa decepção segue-se o empenho com que a Espanha envidou esforços para a busca do ouro, afinal descoberto na Colômbia e no fantástico tesouro dos Astecas, no México, e dos Incas, no Peru. O ouro assim obtido não constituiu, porém, fluxo regular; ao contrário, esgotava-se rapidamente o que se rapinava à custa de expedientes e de violência das reservas em objetos de adorno e de culto, acumuladas por séculos pelas civilizações pré-colombianas da América.
Foi somente com a descoberta das minas de prata do Peru que a Espanha obteve um fluxo regular de riquezas, o que tornou o nome “Peru” lendário como sinônimo de opulência.
Com a extensão da navegação portuguesa para a costa da África, no caminho para as Índias, obteve Portugal ao mesmo tempo de D. Manuel, no século XVI, ouro da Guiné e mercadorias de grande valor na época – as famosas especiarias das Índias, que também carrearam para o pequeno reino ibérico considerável riqueza.
A conseqüência destes fatos foi o advento, na Espanha primeiramente e em Portugal depois, de um considerável surto artístico, corolário das riquezas recebidas de além-mar. Na Espanha surgiu o exuberante barroco caracterizado pelo estilo plateresco. Já em Portugal, ao mesmo tempo de D. Manuel, floresceu o conhecido estilo manuelino.
Enquanto a Espanha prosseguia no surto artístico proporcionado pelas riquezas do eldorado peruano, Portugal estacionava pelo declínio do comércio com as Índias, agora, com a concorrência de outras nações, sobretudo a Holanda. Mesmo assim, o barroco em Portugal já era usado nas construções de igrejas, mas num compasso de espera, sempre almejando o eldorado brasileiro. Não se conformavam os governantes portugueses com o fato de no Brasil não existir a prata tão abundante e tão invejada do Peru. Afirmavam inutilmente os governantes de então “ao seu monarca que as verdadeiras minas do Brasil eram os canaviais e as plantas da essência de Braza”. Grande verdade, pois o açúcar veio a proporcionar três vezes mais riquezas do que todo o ouro aqui minerado. Mas era o metal, a prata sobretudo, que obcecava os portugueses, numa porfiria pertinaz e impositiva.
Prata, entretanto, jamais foi descoberta no Brasil; nossa fonte do metal branco foram sempre as trocas com os espanhóis, sobretudo em Buenos Aires e, geralmente, sob o sigilo do contrabando. No mais, usava-se fundir moedas espanholas de prata, certamente obtidas no intenso comércio da época.
A prata não foi encontrada, mas Portugal virou-se numa ansiedade, agora pelo ouro, que não se cansavam os governantes de incentivar os brasileiros que seguiam em busca do índio para escravizá-lo, sob a capa de uma piedosa intenção de salvar suas almas selvagens. Honrarias e recompensas de toda ordem eram oferecidas em nome de El Rei, aguçando a ambição dos rudes povoados de São Paulo e espicaçando-se nas marchas atrás de selvagem cada vez mais vasqueiro e distante, mas sempre com a atenção voltada para a prata e, senão ela, pelo menos o ouro.

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O resultado desse trabalho dos paulistas, depois apelidados de bandeirantes, foi a descoberta das minas de ouro de Cataguases, depois Minas Gerais, em 1697, de Cuiabá em 1719 e de Goiás, em 1727.
Estava finalmente Portugal na posse do verdadeiro eldorado, que eclipsou, pela sua abundância, a riqueza da América espanhola.
O ouro do Brasil provocou a primeira corrida do ouro no mundo ocidental, que só teria segundo no ouro da Califórnia, em 1847, seguido logo depois, 1851 pelo da Austrália. No último quartel do século XIX sucedem-se novas descobertas na África do Sul e no Alaska, ao mesmo tempo que surge o processo de mineração de ouro com o ácido cianídrico (1887), possibilitando, até nossos tempos, uma grande extração do metal contido no minério. Mas a quantidade comparativamente pequena do século XVIII foi enorme para a época, pois, como visto, foi o primeiro grande fluxo de ouro puro que a Europa recebeu.
O ouro brasileiro, como o das demais partes da América colonial, foi de aluvião e por isso se esgotou com relativa rapidez.
Nosso ouro se exauriu no decurso de um século. Acredita-se que até 1760 o fluxo abundante da extração se manteve, iniciando-se, após essa data, a decadência.
O ouro criou, lá como aqui, um estado psicológico de euforia, uma negação da realidade: sendo o ouro um aluvião, teria forçosamente existência efêmera. Tão onipotente se sentiu Portugal, que assinou com a Inglaterra o famoso e infeliz Tratato de Methuen, já no início do século XVIII. Esse tratado foi negociado com Portugal pelo agente inglês John Methuen, em 1703. Por este acordo comercial, Portugal, que era auto-suficiente em manufaturas, aboliu os embargos para a importação dos tecidos ingleses; a Inglaterra, em contrapartida, concedeu aos vinhos portugueses uma redução de 1/3 dos impostos aduaneiros pagos pelos vinhos franceses. O efeito desse tratado foi nefasto para a economia de Portugal, que passou a ser um mero agente nas transações de produtos manufaturados ingleses com o ouro da colônia, pois a presença dos tecidos ingleses, melhores e mais baratos, matou no nascedouro, toda a incipiente indústria lusa. O ouro bruto brasileiro chegou a entrar em Londres, em certas épocas, no ritmo, em dinheiro, de 50.000 libras por semana. Este ouro contribuiu decisivamente para o êxito da revolução industrial da Inglaterra e garantiu mesmo a vitória dos ingleses na guerra napoleônica.
Em compensação, “tornou Portugal e o Brasil dependentes da Inglaterra, que vestia até os escravos que mineravam ouro e extraíam diamantes. Em síntese, significou para Portugal a renúncia a todo o desenvolvimento manufatureiro e implicou em transferir para a Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera do Brasil.
Portugal, vivendo às expensas do ouro, e depois, dos diamantes brasilei-ros, teve que pressionar constantemente, lançando mão de todas as artimanhas fiscais para aumentar, ou, pelo menos, manter suas entradas que, juntamente com o vinho e o açúcar, eram suas principais fontes de riqueza.
D. João V reinou de 1706 a 1750 e usufruiu e esbanjou ouro do Brasil, sem falar da riqueza proporcionada pelo açúcar, fumo e madeiras. Com ele, teve Portugal sua época áurea; durante o reinado imperou também em sua plenitude o barroco que, com características próprias, foi chamado de estilo D. João V. Por coincidência, a morte do monarca se dá ao mesmo tempo do início do declínio da mineração, da destruição de Lisboa pelo terremoto de 1755 e do início das dificuldades, com a diminuição dos recursos, enfrentadas vigorosamente pela ação de Pombal, ministro autoritário de D. José I.
Pombal, com sua energia e poder absoluto, apertou ao máximo o mecanismo do fisco metropolitano, provocando acentuado desajuste e inquie-tação na colônia. A conseqüência principal foi a insurreição mineira em 1789, precedida, em 1759, da expulsão dos jesuítas, já em si um fenômeno sócio-político que indicava a intranqüilidade na colônia portuguesa.
O barroco no Brasil sobreviveu por mais de 60 anos ao europeu, pois Aleijadinho trabalhou em suas geniais produções até 1814, ano de sua morte. O término da Igreja São Francisco de Assis, de Ouro Preto, alcançou mesmo a república. O barroco nacional se desenvolveu num clima próprio, tanto que continuava florescente quando em terras da Europa, já estava, havia muito, superado. O atraso cultural da colônia, distante e alheia aos acontecimentos artísticos da Europa é uma explicação plausível para esta sobrevivência.
Relata-se e discute-se teorias do barroco e sua relação com o barroco brasileiro. O barroco é explicado pela evolução fatal da Renascença, inde-pendente de conexões com os fenômenos sociais e econômicos porventura existentes. O barroco é uma fatalidade evolutiva do Renascimento, um desenvolvimento formal, independente de condições materiais. Não somente o barroco histórico do século XVII é necessariamente um estilo tardio, mas todos os estilos se transformam, em suas últimas fases, em barroco, porque as formas características do barroco não são mais em suma do que a conseqüência da transformação imanente perpétua que se efetua nas formas, uma vez criadas. Esta teoria não se encaixa no barroco brasileiro, que sabemos ser totalmente dependente, primeiro de Portugal e, depois, das injunções político-religiosas, assim como sociais, da vida colonial.

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Pelos estudos já realizados sobre nossas principais igrejas barrocas, verifica-se que algumas suntuosas construções jesuítas, beneditinas, franciscanas e carmelitas datam do século XVII. São os marcos iniciais das igrejas das ordens religiosas nas cidades principais da orla marítima. Outras são da primeira metade do século XVIII.
Mas, dadas as condições da época para a obtenção de recursos destinados às construções, houve um lapso muito grande, décadas sucessivas, entre o início e o fim de uma construção. Acresce que se filia com freqüência a época de uma igreja à sua instituição primeira, muitas vezes como uma simples capela. Também, pela precariedade das técnicas de construção, geralmente de taipa de pilão, as igrejas ruíam com facilidade, ocasionando sucessivas reconstruções que não são levadas em conta, ficando a data de construção inicial como época da atual.
Mas para o barroco religioso a decoração interna, o acabamento da igreja, é realmente o fato de maior importância. A talha dourada dos retábulos e, às vezes, de toda igreja ficava forçosamente para o fim, e este acabamento é justamente o que, em boa parte, se realizou na segunda metade do século XVIII.
Lembra-se a esse respeito que em São Paulo as igrejas coloniais ruíram ou foram demolidas por ameaçarem ruína. A igreja de São Bento teve sua ermida inicial em 1610 e a atual, feita neste século, foi a 4º construída no mesmo local. A anterior, do clássico estilo colonial, com uma torre foi demolida em 1910.
A Igreja de São Francisco de Assis, de Ouro Preto, considerada a jóia da arquitetura barroca de Minas Gerais, foi iniciada em 1756 e teve “construção rápida”, mas seu acabamento interno – os altares laterais – só foi terminado na República, em 1890.
O curioso é que quando já se acentuava a decadência econômica da colônia mais se incrementavam as construções e o acabamento do interior das igrejas. Mas neste sentido importa assinalar que o ouro não acabou de repente. Foi escasseando aos poucos; pela escassez se incrementavam as buscas e se apuraram os métodos de extração e, por isso, muito ouro se extraiu por todo o século XVIII, entretanto pelo XIX, até 1820.
A decadência da mineração foi tumultuada pela pressão do fisco português que causava, pela sua ganância, alterações sociais agudas, com queixas e lamentações sobre a situação reinante das minas. Com a diminuição da produção, os humildes e os fracos eram os primeiros a perder seu sustento, daí a miséria crescente.
Tem-se que admitir que à euforia da magnificente mineração da primeira metade do século XVIII seguiu-se o desânimo, causado pela realidade da queda da produção, com maior pobreza e até mesmo miséria. Mas a riqueza nas mãos dos grandes continuou farta e é esta riqueza que importa para se compreender a obtenção de fundos para as construções das igrejas.
É sabido que mais da metade do ouro minerado foi contrabandeado. O que quer dizer que a coroa portuguesa não partilhou, sob as mais variadas formas, dos tributos desse ouro. O metal passou das catas para as mãos de quem o entesourou ou gastou e, com muita probabilidade, foi com esse ouro que se construíram as igrejas; o ouro arrebatado ao fisco e, por isso mesmo, mais fácil de veicular para esmolas. A euforia e a abundância que foram contemporâneas do barroco haviam já acabado em Portugal, enquanto no Brasil o conúbio entre a riqueza e o barroco teve campo fértil por mais de 50 a 60 anos. Aleijadinho e Ataíde, os dois maiores artistas barrocos de Minas, trabalharam justamente no fim do século XVIII e começo de XIX. É evidente para nós que sua atuação artís-tica, sobretudo no acabamento das igrejas, já que Ataíde era pintor e Aleijadinho além de construtor era escultor e entalhador, só poderia ter livre curso onde os recursos em ouro não faltassem. É o que se pode verificar na minuciosa história da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto.
O barroco no Serro e em Diamantina é ainda mais recente. Com a descoberta do diamante no Brasil, em 1729, Portugal viu-se em súbito como o maior produtor do mundo e teve que se precaver contra as alterações de preços no mercado internacional. As providências que tomou foram brutais e desumanas: delimitou e bloqueou a zona diamantífera, controlando a população livre e a escrava para limitar a extração, visando manter altos os preços internacionais do precioso carbono. Proibiu ou regulou o tráfego de nossos garimpeiros e aboliu drasticamente a mineração de ouro que eventualmente existia, como existe ainda hoje, nas terras diamantíferas. Com ausência de liberdade e uma economia estrangulada pela Coroa, as obras barrocas dessa zona só apareceram quando afrouxaram as garras do fisco e se estabeleceu uma atmosfera propícia para as manifestações do espírito barroco reinante no resto do Brasil. Compreende-se, assim, a diferença, em tempo de amplitude, entre as igrejas de Diamantina e as de Ouro Preto, o que constitui um exemplo entre muitos outros.

 

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Com a vinda para o Brasil da família real, em 1808, começou o chamariz da Corte, com os recursos eventuais dirigindo-se para a capital. Estabelece-se aos poucos a decadência, não só econômica mas também social, dos centros de mineração. A situação se acentua com a independência, que efetiva a hipertrofia do Rio de Janeiro por todo o Império e a primeiro década da República. O barroco perdeu seu clima, suas condições psicológicas e sócio-econômicas de desenvolvimento. O brasileiro caiu então na dura realidade que muitas décadas antes já estava estabelecida na metrópole, após o terremoto de Lisboa.
Implanta-se aqui também o neoclassicismo, que traduziu a pobreza e a necessidade de esquecer o luxo faustoso do ciclo do ouro. O século XIX o acolhe, o que se poderia interpretar como uma defesa psicológica contra a angústia da parcimônia imposta pelo esgotamento do ouro.
O barroco passou então a ser difamado, sendo tido como uma arte decadente, de mau gosto, feia. A idéia de coisa decadente, de aberração, andou tanto tempo associada à noção da arte barroca, que, ainda hoje, muita gente só admira tais obras por condescendência, quase por favor.
O clima, a atmosfera e o espírito próprios do barroco estavam superados no plano da religião, do absolutismo e da economia. É pois natural que as novas gerações, empenhadas em lutar pela sobrevivência, já sem o ouro e com maior número de bocas pelo crescimento demográfico, só pudessem demonstrar desprezo pelo “mau gosto” de seus ancestrais. No Brasil, muita coisa caiu em ruínas pelo abandono e muito mais foi destruído friamente por conta do falso conceito contra o barroco na época. As exigências da urbanização e a valorização territorial das cidades contribuíram com o ouro tanto de razões. O que restou, e é muito deve-se, no interior do país, à decadência e ao abandono das povoações, tendo o acervo artístico se preservado por si mesmo. Nas cidades da costa, as ordens religiosas, conservadoras, mativeram incólumes seus monumentos co-loniais, mais por espírito conservador do que por ciência.
Neste século as gerações modernas, sem mágoas ou inveja, podem dar o devido valor ao surto barroco. Talvez porque com o enorme progresso atual nossa atmosfera sócio-econômica seja, de certo modo, equivalente em explosão criadora à época do barroco.
Na história de algumas igrejas, que documentos encontrados permitiram reconstruir, com a de São Francisco de Assis e a de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto, assim como a da Capela da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, em São Paulo, podem seguir cronologicamente todos os detalhes da contrução. Os assentamentos dos livros das irmandades são documentos de grande valor; por eles se observa a seqüência de acontecimentos que ocorreram por várias décadas. Verifica-se então que o clima do Brasil-colônia não mudou enquanto desaparecia o barroco na Europa. Aqui acentuava-se gradativamente a penúria, mas a devoção, o poder real e o ouro continuaram existindo até quase o advento da Independência.
O barroco foi o testemunho da euforia maravilhosa do ouro que se acabava com rapidez.
Com o fim do ouro, foi-se o rei de Portugal e tudo o que lembrava a insaciável Metrópole (Portugal). Estávamos pobres, mas com que era nosso. Não tínhamos o ouro, mas pelo menos o berço onde ele existira: a terra era nossa. Aceitar o barro-co como algo extraordinário e digno de ser admirado e preservado era pedir muito ao homem pobre pobre e carente que vegetava nas lembranças dos faustos auríferos. Restava negar que tivesse havido ouro, toda a mirabolante riqueza não passara de um fogo-fátuo: o barroco foi desprezado e esquecido.
O Brasil-colônia foi uma imagem refletida da Metrópole. O que aqui se fez foi sempre uma reprodução sem originalidade específica dos usos e costumes portugueses. Com a mesma religião controladora administrada pelas poderosas ordens religiosas, os portugueses que emigraram para a colônia ou os dirigentes que para aqui vieram mantiveram por séculos o clima religioso cheio de devo-ção, temores e preocupações pela incógnita do outro mundo. Obedeciam aos preceitos religiosos impostos com a arma da excomunhão, cuja ameaça os padres usaram e abusaram para manter o domínio sobre a população. Deste controle não escapava a própria coroa portuguesa, seja pelo mesmo temor religioso comum a todos, seja pelo próprio interesse político com o útil e prático binômio igreja-estado, o poder eclesiástico e o poder real agindo sincronicamente. Daí, no século XVII, as referências testamentárias incluírem sempre “às justiças reais e eclesiásticas”.

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As ordens religiosas trouxeram seus próprios artistas, cuidando de cons-truir igrejas e conventos na orla marítima, os primeiros a serem levantados. Os jesuítas construíram em Lisboa a Igreja de São Roque; nessa construção trabalhou o irmão Francisco Dias, arquiteto que veio depois missão para a Bahia. É eviden-te que aqui exerceu suas aptidões, colaborando na construção das igrejas que foram barrocas, pois este estilo era o usado em Portugal.
Os membros das ordens eram constantemente removidos da metrópole para a colônia e vice-versa, já que então, como hoje, não tinham estabilidade nos cargos ocupados, ocorrendo freqüentes mudanças. Nestas ordens havia profes-sos de vários países; em geral elementos de escol, muitos deles artistas ou bons artesãos. Como não podia deixar de ser, somente poderia empregar aqui técnicas aprendidas na Europa. Usaram na arquitetura e na pintura, assim como em artes menores, tais como talha, a imaginária e a ouriversaria, o estilo barroco, que avassalava os centros artísticos do velho mundo.
A princípio as construções foram provisórias e precárias, como que apenas ocupando o lugar das futuras igrejas; foram construídas com as possibilidades locais, com a intenção de fazê-las depois definitivas. Usava-se a taipa de pilão, salvo nas construções da orla marítima, onde a pedra e a cal tiveram larga apli-cação. Nas regiões interioranas, a partir de São Paulo, depois em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, a taipa de pilão ou o adobe foram empregados com exclu-sividade. Por isso, muitas edificações de terra tiveram uma vida limitada, ruindo pelo desgaste do tempo e pela incúria dos paroquianos. Em São Paulo, pouquís-simas são as construções coloniais residuais, estas mesmas já reconstruções do século XVIII. Nada resta das que foram feitas anteriormente.
O Brasil-colônia não tinha economia própria. Tudo girava em torno das relações com a Metrópole. Os que aqui enriqueciam viviam num ambiente res-trito, sem maiores aspirações ao luxo e às relações sociais. O luxo de então existia em função da corte portuguesa e, mais propriamente, em Lisboa; mais tarde, após a vinda da família real, o Rio de Janeiro monopolizou e concentrou toda a vida social do país até o começo do século XX. Nossos ancestrais tiveram, sem dúvida, vida farta, em vivendas aprazíveis mas sem luxo, rodeados pelas facili-dades criadas pela presença de escravos. Não tiveram estímulo criador para a vida social, que os levasse a construir palácios com requintes artísticos. Estes, se existiram, foram exceção, pois toda a arquitetura erudita esteve monopolizada pela Igreja e, em muito menor escala, pelas construções governamentais, sobretudo cadeias, ou seja, o poder judiciário essencial numa economia de usura, onde o controle do fisco era o principal objetivo da Metrópole, sempre ávida do açúcar e do ouro do Brasil. As manifestações artísticas dos três primeiros séculos após a descoberta cingiram-se às construções religiosas. Estas tiveram como modelo as da Metrópole; pelo seu número, tiveram que ser criadas com cambian-tes que proporcionassem oportunidades aos artistas imigrados e, depois, aos da terra. A arquitetura colonial é simples; constituíram mesmo um característico geral do nosso barroco a simplicidade do exterior das igrejas e a suntuosidade do seu interior. Esta discordância tem sua explicação nas dificuldades a serem supe-radas na construção de elementos ornamentais nas fachadas e exteriores das igrejas, quando a colônia não contava com os recursos humanos e materiais, sobretudo a pedra, para as embelezar. Entretanto, havia facilidades para a decoração do interior, com a abundância de madeiras próprias para a talha e de ouro para a sua douração. Nas contruções da Bahia usava-se pedra importada de Portugal, trazida com o lastro dos navios que vinham buscar nosso açúcar e nossa madeira. O Igreja da Conceição da Praia é, toda ela, construída em pedra portuguesa. A palavra pedra lavrada, raramente encontrada, tem uma belíssima exceção na fachada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, também em Salvador. Na orla marítima, por causa da maior facilidade de materiais, encontra-se a pedra dos cantos, nas soleiras e vergas de portas e janelas, mas sem o lavor que se vê nas construções de conventos e igrejas portuguesas a partir da época manuelina.

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A pedra era escassa no interior da colônia e, mesmo que não o fosse, seu transporte seria penosíssimo, ainda que tivesse sido lavrada, o que não ocorreu com freqüência.
A ausência de pedras na construção dos alicerces e das paredes externas contribuiu para a ruína da grande maioria das construções coloniais, todas precárias. Terra socada poderia resistir às intempéries se protegida contra a umidade. Os templos abandonados tiveram seu primeiro desgaste na cobertura, então como hoje o ponto fraco de toda construção relegada ao abandono. A umi-dade, penetrando nas paredes feitas de terra, leva fatalmente à perda de resistên-cia e ao desmoronamento.
A pedra apareceu nas construções coloniais em Minas Gerais, com o emprego da pedra sabão e do itacolomito, já no fim do século XVIII. A pedra sabão, um silicato macio, permitiu magníficas composições artísticas nas fachadas, nos púlpitos, nas pias batismais e nos lavabos de sacristia. Mas só foi empregada onde encontrada – em Ouro Preto, Mariana e Congonhas.
Na maioria da igrejas, a madeira fez as vezes da pedra. Os esteios e bal-drames de braúna e aroeira são os que garantem, ainda hoje, a estabilidade das igrejas existentes em todo o nosso longuíquo interior. Graças à existência dessas madeiras duríssimas e resistentes ao desgaste do tempo, foi possível a construção de grandes templos que perduram até os nossos dias. Basta citar alguns exemplos, como a Igreja Matriz de Pirenópolis (antiga Meia Ponte), em Goiás, e a Igreja Matriz de Santo Antônio, em Paracatu, Minas Gerais.
Por isso, salvo exceções, o aspecto externo de nossas igrejas coloniais é simples e sem enfeites decorativos, o que levou ao conceito de ser pobre o bar-roco do exterior de nossas contruções religiosas, em contraste com a riqueza do interior.
Pela carência de recursos amplos, decorria largo espaço de tempo entre o início da obra e seu acabamento final. As condições econômicas podiam sofrer oscilações que levavam a acelerar ou retardar a construção. Nesta condições tão instáveis da nossa vida colonial, compreende-se que fosse intenso o afã de levan-tar o edifício, já que, uma vez coberto o templo, o trabalho de acabamento era compatível com o culto divino iniciado de imediato, com a montagem do primeiro altar provisório e o sepultamento em solo consagrado. Compreende-se que houvesse pressa no levantar o arabouço da igreja. Recursos nem sempre abundantes, aliados à ânsia de ver o templo levantado, não davam margem a maiores preocupações arquitetônicas, sobretudo nos distantes núcleos de popu-lação, em geral tão errantes como o próprio ouro que se buscava. Templos monumentais pela proporção, mas de fachadas lisas, sem enfeites, esta a regra da nossa arquitetura religiosa colonial. Valia apenas o porte da construção, com sua fachada de frontão com arremates barrocos, sobretudo volutas, ladeada por uma ou, mais comumente, duas torres.
Mas o Brasil sempre foi o paraíso das madeiras, além de ser uma colônia e depois um país escravista. Madeira e mão-de-obra baratas, portanto, foram a chave da suntuosidade do interior de nossos templos. O que faltou para o exte-rior, sobrou para o interior, a partir da monumental porta: a madeira. O que os portugueses faziam com a pedra lavrada, em composições incríveis, que demandavam hábeis artesãos especializados, se veio fazer no Brasil-colônia com a talha em madeira. Esta era abundante, fácil de trabalhar e obediente ao cinzel do escravo-artesão. Observando-se o interior das nossas igrejas barrocas, vê-se a abundância de talha em cedro recamada de folhas de ouro, o que é característicos do barroco brasileiro. Os artistas que para aqui vieram seguiram os usos da terra, arregimentando logo entre a numerosa população escrava e a marginalizada dos mulatos aqueles a quem ensinaram o ofício de entalhadores e que executavam o grosso do trabalho, permitindo que se ornasse o interior dos templos com a hoje tão admirada talha dourada. A feliz associação da abundância de madeira ade-quada, geralmente o macio cedro que era refratário ao cupim (sabe-se hoje que por 100 anos, apenas) ou de madeiras duras como o jacarandá e o vinhático, com o trabalho do escravo-artesão orientado pelo artista adventício e depois autóctone, permitiu a perpetuação do barroco no Brasil.

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A religião católica, presente no barroco, teve campo livre para a sua expansão, que foi imensa e dominante, sem heresias ou discordâncias. As construções religiosas predominaram totalmente sobre as construções civis, bastando lembrar o grande número de igrejas que proliferaram numa competição pela melhor, a maior e a mais rica. Por isso o barroco, sendo um estilo que presidia a todas as manifestações artísticas da época, teve um campo imenso à sua frente, onde proliferou e dominou totalmente.
A escravidão nasceu com o próprio Descobrimento. Os primeiros escravos foram os ingênuos selvagens que, a pretexto da catequese para a salvação de suas almas, foram aprisionados, sendo-lhes imposto o seguirem os usos de costu-mes dos colonizadores como servos, criados para todo o serviço braçal, sem maiores direitos.
Enquanto o selvagem foi escravo atuou na lavoura, na pecuária e na vida doméstica. Mas, rebelde, jamais se adaptou à vida reclusa e ordenada. Ao cativeiro opunha-se a força incoercível da natureza, atraindo-se para a

liberdade sem limitações.
A escravidão negra foi a que realmente resolveu o problema da mão-de-obra da colônia. O conceito da época impunha que os brancos administrassem e os escravos trabalhassem. Sem o trabalho escravo, por certo o ritmo da coloni-zação da América teria sido bem mais lento. O negro adaptou-se ao trabalho imposto pela chibata, adquiriu rapidamente os costumes que lhe eram incul-cados, suportou muito bem o clima brasileiro e tinha grande resistência. Ao contrário do índio, que morria com facilidade, contaminado pelas doenças infecciosas, a simples gripe ou o sarampo, o negro tinha seu maior inimigo na bexiga, que fazia entre eles terrível razia.
O protesto do negro era também enérgico, mas o poder do sofrimento imposto pelos castigos corporais superava, via de regra, sua obstinação, tornando-o dócil e conformado: sem dúvida o negro, e sobretudo o produto do cruzamento com o branco, o mulato, assimilaram rapidamente as aptidões artesanais que lhes eram ensinadas, tornando-se hábeis artistas que tomaram a seu cargo o desenvolvimento das complicadas decorações barrocas do interior da igrejas.

A raça negra, mais evoluída que a indígena, com a sua cultura milenar na África, soube adaptar-se às condições do cativeiro, e por essa adaptação, sobre-viveu, proliferou e absorveu os conhecimentos da raça branca, fundindo-se com ela.

Numerosos foram os artistas coloniais mulatos, bastando lembrar Aleija-dinho na escultura, Ataíde na pintura e Lobo de Mesquita na música, todos do fim do século XVIII. Milhares teriam sido simples artesãos-escravos algudados – no serviço de cantaria, talha, ouriversaria, douração, sem falar nos ofícios de pedreiro, carpinteiro, marceneiro, etc. Este contigente de mão-de-obra especiali-zada, ainda que escrava, foi o responsável pela proliferação de tantas construções barrocas no nosso período colonial.

 

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O negro atuou no desenvolvimento do barroco no Brasil. Enquanto Portugal recebia o ouro e o diamante puro e límpido em tão grande quantidade, esbanjando-o ao capricho do monarca e doa validos da corte, aqui, na realidade da luta pela extração, esse tesouro era manchado pelo suor e pelo sangue de escravos. A fome, a luta fratricida, os assassínios foram moeda corrente nas zonas de mineração. O tratamento dado aos escravos, desde sua captura na África até sua venda nos mercados da costa, foi estigmatizado pela pena de inúmeros escritores e poetas. A ambição do homem branco, que não podia prescindir do trabalho escravo para a colonização do Novo Mundo, levou-o a negar a condição humana do indígena e do negro, que eram tratados como obje-tos ou como animais.
Ainda que se atribua aos brasileiros um melhor tratamento de seus escravos do que o dispensado pelos espanhóis e ingleses, tal conceito se aplica ao século XIX, no ciclo do café. Mas nos séculos anteriores o negro foi explorado ao máximo, sob a pressão da necessidade de uma produção maior de açúcar e de uma extração crescente de ouro e diamantes.
Ainda que o ciclo do açúcar tenha criado condições favoráveis ao desabrochar do barroco nas cidades da costa, o ouro, tão abundante em todo o século XVIII, desvariou a imaginação de nossa devota população e desencadeou, na única via livre de controle econômico – as igrejas – a possibilidade de um desenvolvimento artístico sem paralelo em toda a nossa História.
O ouro brasileiro influiu nas relações econômicas de toda a Europa de longa data sensibilizada com o êxito das Descobertas e de seus resultados mirabolantes, proporcionados pelo comércio com as Índias – trabalho de portugueses e holandeses e pela exploração da América espanhola, no que ela representou em ouro e prata para a Espanha. Tardou, mas veio com uma abundância que excedeu as perspectivas logo ampliadas com a descoberta de diamantes, um acréscimo brilhante às toneladas do metal extraídas no Brasil.

Tamanho foi o alvoroço causado pela descoberta do ouro no Brasil, que São Paulo se esvaziou de seus homens e escravos. Portugal se sentiu ameaçado pelo êxodo de sua população masculina para a colônia, e D. João V decretou leis limitando esta imigração. As tripulações dos navios desertavam em massa, o mesmo fazendo os soldados das guarnições fronteiriças; muitos padres abandonaram suas paróquias e chegaram a constituir focos de perturbação nas minas pela sua conduta desregrada, embora usufruindo da condição de sacer-dotes. Numerosos artistas e artesãos faziam parte dessa migração e imigração anônima, ocasionando deficit de mão-de-obra em todos os centros habitados da orla marítima. Com seus senhores seguiam os escravos negros, em cujas costas recaiu o peso dos esforços pela apuração do ouro descoberto. Esvaziaram-se as lavouras canavieiras e esgotaram-se nos mercados os escravos, que atingiram preços jamais alcançados. O custo de vida subiu vertiginosamente, até em São Paulo, capitania que vegetava numa economia agrícola miserável e sem expor-tação. Para esta multidão de mineradores nada mais chegava: boiadas das vacarias do sul passavam por Curitiba, em demanda dos centros de mineração; todos os gêneros produzidos em São Paulo eram pouco para a remessa para as minas, onde alcançavam preços astronômicos, da Bahia, pela via interiorana do rio São Francisco, afluíam boiadas e gêneros de toda sorte, apesar dos esforços da Coroa portuguesa para cercear este comércio. Porque, por onde vinham gêneros alimentícios, saía o ouro contrabandeado, em quantidades maiores do que o apurado diante das autoridades fiscais.

Poder-se-ia definir o mundo da mineração dos últimos anos do século XVII e das primeiras décadas do século XVIII como um conglomerado de entes humanos, senhores e escravos sem escrúpulos e sem leis, lutando pelo fim que a todos reunia: a obtenção do ouro.
A conseqüência desse estado de constante convulsão social, num meio primitivo de acentuada crença religiosa e com elevada criminalidade, teria que se uma só: a procura de Deus. Por várias razões se chega à necessidade de Deus: a gratidão pelas mercês recebidas – sucesso na mineração do ouro -, a recuperação da saúde, o livramento de perigos e a culpa como expiação de ofensas a seus semelhantes; e já vimos que não houve falta de oportunidade para a prática de todos os crimes contra semelhantes brancos e pretos escravos.


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