ANTROPOLOGIA EM ROUSSEAU E COMO ELA SE CONTRAPÕE À TRADIÇÃO

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INTRODUÇÃO

A antropologia filosófica tem como objetivo dar resposta a uma questão que até os dias de hoje não chegou a uma resposta satisfatória: o que é o homem? Diferentemente das outras ciências que buscam por meios materiais esta resposta, antropologia promete buscar no filosofar, na atividade racional a resposta mais essencial à questão do homem, veja bem a proposta feita, promete buscar e não dá uma resposta.

O objeto desta pesquisa, entretanto, não é dar esta resposta, mas apenas encontrar na filosofia de Jean-Jaques Rousseau elementos de antropologia filosófica e, fazendo um paralelo com a filosofia tradicional, especificamente às filosofias de Platão, Aristóteles e René Descartes, encontrar um ponto de contraposição entre a antropologia rousseauniana e a antropologia da supracitada filosofia. Pretendemos antes de tudo fazer uma rápida passagem pelo cerne de suas respectivas antropologias para depois podermos fazer um paralelo e por fim fazermos a contraposição.

Considerando a complexidade do assunto e admitindo a pouca sapiência do nosso filosofar, não nos limitamos às obras dos filósofos citados anteriormente, porque elas exigem uma boa maturidade filosófica para sua compreensão, portanto buscamos auxilio em Battista Mondin que tem muito a nos oferecer no que diz respeito à história da filosofia e à antropologia filosófica.


1 – A questão da antropologia e como ela é tratada na tradição.

Estudar antropologia em Rousseau para fazer um paralelo com a antropologia da tradição é necessário antes buscar as definições antropológicas dadas por ela. Quando falamos em tradição esta nos remete a um número bem vasto de filósofos, que em suas especulações nos deram diferentes concepções acerca do homem, portanto vamos nos ater apenas a Platão, a Aristóteles e a René Descartes para que possamos ver até que ponto a antropologia rousseauniana é contrária à tradição.

Segundo Battista Mondin, as discrepâncias existentes nas respostas dadas pela filosofia à questão do homem devem-se as diferentes perspectivas e métodos utilizados. Battista Mondin destaca três: a cosmocêntrica, perspectiva sob a qual os filósofos da Antigüidade construíram sua antropologia; a teocêntrica, difundida na Idade Média e a antropocêntrica, amplamente aceita na modernidade. Os métodos destacados são quatro; o metafísico, o naturalístico, o histórico e o existencial.

Platão parte da perspectiva cosmocêntrica para dar a sua resposta à questão do homem e seu método, metafísico. Platão defende que o homem é essencialmente alma estando este preso e sendo cárcere do corpo. Sua teoria das idéias mostra bem esta visão do homem, o mundo sensível, finito corruptível não poderia oferecer nenhuma verdade ao homem, que verdade é esta dada por algo que está em constante mudança? A missão do homem, portanto era libertar-se do corpo chegando a contemplação do mundo das idéias, sua educação deveria ser voltada para este fim.

Ainda, na perspectiva cosmocêntrica, encontramos Aristóteles que busca na natureza (physis) um fundamento para a principal característica que ele deu ao homem “o homem é naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade”. Aristóteles apesar de direcionar suas especulações acerca do homem na política, deixando de lado a valorização do mundo das idéias não deixa de admitir a dualidade humana, segundo Aristóteles o homem é matéria (corpo) e alma (forma).

René Descartes, filósofo moderno, adota a perspectiva antropocêntrica por buscar no próprio homem a característica que melhor lhe identifica. Descartes vê a razão, o que melhor lhe define. O seu Cogito coloca a razão como fundamento existencial do homem, ou seja, o homem existe por ter consciência de sua existência.

Vimos até este momento três definições do homem que apesar de discrepantes podem em alguns aspectos se aproximar, por exemplo, a antropologia de Aristóteles e Platão, apesar de o primeiro não concordar com a independência da alma, sua antropologia parte do campo cosmocêntrico e este utiliza o método metafísico, Descartes também seguiu o método metafísico, contudo parte da esfera antropocêntrica.


2 – A antropologia em Rousseau e como ela se confronta com a tradição.

Assim como nas filosofias estudadas anteriormente, em Rousseau não encontramos especificamente uma antropologia, podemos, entretanto, encontrar elementos desta ciência em seu discurso político que em alguns aspectos discorda da antropologia antiga (Platão e Aristóteles) e da contemporânea a ele (modernidade), no caso a citada neste texto, a de Descartes.

O cerne da antropologia rousseauniana é a sua crítica ao estado como não fundamentado na natureza, no sentido de que esta determina sem o consentimento do homem, entretanto Rousseau defende que o estado surgiu da necessidade do homem de melhorar sua condição de vida, outro aspecto importante em sua antropologia é a valorização da liberdade como principal qualidade que define o ser humano.

Rousseau discorda com a Antigüidade especificamente com Aristóteles ao dizer que o homem se associa não porque é de sua natureza, pois diferentemente dos outros animais, o homem é um ser livre e associar-se pressupõe renunciar a sua liberdade ilimitada da qual a natureza lhe dotou, portanto “renunciar a liberdade é”, para Rousseau, “renunciar a qualidade de homem, aos direitos da humanidade e até dos seus próprios deveres”.

Rousseau legitima apenas uma forma de associação, a família, para ele a única natural, pois esta era suficiente para a conservação do homem, as outras formas de associação (clã, tribo, estado) surgiram a partir de convenções para que pudesse ampliar sua conservação, uma vez que o estado natural, já não lhe possibilitava sua sobrevivência. Apesar de Rousseau defender o estado natural como a melhor forma de vida para o homem e, também defender que o estado não se fundamenta na natureza, Rousseau não está sugerindo que o homem retorne a tal estado, ele apenas faz um balanço do que o homem ganhou e perdeu com o estado e fazendo este paralelo ele defende o estado, a soberania popular, a propriedade privada e principalmente, uma consolidação da liberdade:

“Reduzamos todo este balanço a termos de fácil comparação. O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo quanto aventura e pode alcançar. O que com ele ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo o que possui”.

Podemos observar que a antropologia em Rousseau difere da Antiguidade pelo fato de migrar da esfera cosmocêntrica para a antropocêntrica, uma vez que Rousseau busca no próprio homem respostas para a sua questão, esta característica de sua antropologia, porém, não o afasta da abordagem adotada pela modernidade que especulou o homem sob esta mesma ótica, entretanto a sua supervalorização da liberdade, como essência do homem, o deixa um pouco afastado do discurso iluminista, que defendia como determinante do homem a razão.


CONCLUSÃO

Podemos constatar após a pesquisa o quanto antropologia se faz presente na obra de Rousseau, apesar de este direcionar suas especulações no âmbito político e não querer intencionalmente abordar este aspecto da filosofia.

A antropologia de Rousseau traz uma novidade para a modernidade, é a idéia de supervalorização da liberdade como identidade fundamental do ser humano em contraposição à filosofia tradicional, especificamente, a de Aristóteles que via na capacidade do homem de associar-se sua essência e o que melhor o qualifica. Sua antropologia parece de certo modo se contrapor também ao ideal iluminista que tinha a razão como a essência humana.

Vimos também que embora a filosofia política de Rousseau conteste o estado moderno, principalmente por ele não defender que o ato do homem associar-se não é algo inerente a ele e também por não argumentar a favor da razão, que era o papel da filosofia de sua época, Rousseau em momento algum sugere que o homem deva voltar ao estado natural, ele ao contrário, faz somente um paralelo entre as duas formas de convivência para mostrar que o homem de fato perdeu algumas regalias saindo do estado natural, tais como, a liberdade ilimitada, entretanto ganhou outras com sua alienação ao estado, a liberdade moral.

Em resumo é notável uma antropologia em Rousseau, embora ele não tenha encaminhado seu discurso com este interesse; uma antagonização frente à tradição e um acréscimo bastante significativo aos ideais iluministas, não podemos esquecer que os ideais de liberdade, igualdade, e fraternidade serviram mais tarde de fundamento para a revolução burguesa que eclodiu na França em 1789.


BIBLIOGRAFIA

ARISTÓTELES, A Política. Trad. Nestor S. Chaves. Ediouro Publicações S.A., ed. 15°. São Paulo, 1998.

MONDIN, Battista, Introdução à Filosofia. Trad. J. Renard e Luiz J. Gaio. Paulus, ed. 13°. São Paulo, 2002.

ROUSSEAU, Jean-Jaques, Do Contrato Social. Trad. Lourdes S. Machado. Nova Cultural. São Paulo, 1999. (COLEÇÃO OS PENSADORES).

Autor: Raimundo Wagner Gomes


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