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ALEXANDRE HERCULANO: UM MESTRE DA NARRATIVA HISTÓRICA


Um dos principais expoentes do romantismo português, Alexandre Herculano (1810-1877), além de romancista, tem uma vasta atuação como historiador, jornalista e poeta. Basta lembrar, entre suas pesquisas, as publicações História de PortugalHistória da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal e Portugaliae Monumenta Historica, uma coleção de documentos valiosos recolhidos de cartórios conventuais do país.

O ponto mais forte de Herculano, justamente por essa formação, é a narrativa histórica. Sua prosa traz elementos mistos do historiador, manifestado na detalhada reconstituição de ambientes e costumes do passado, com a do escritor capaz de criar e desenvolver narrativas.

Existe em sua prosa uma deliberada intenção de descrever festas religiosas, roupas, ambientes, aposentos e mesmo características minuciosas de cidades. Há um mergulho no passado, mas não são deixados de lado comentários plenos de observações filosóficas, sociais e políticas, não poucas vezes marcados por elos entre a época em que se passa a ação e o século XIX em que Herculano vive.

Herculano abordou vários períodos da história da Península Ibérica, com preferência para a Idade Média, época em que ele via as raízes da nação lusa. Entre as suas referências do gênero histórico, estão o escocês Walter Scott, autor do célebre Ivanhoé, e o francês Victor Hugo, criador de Nossa Senhora de Paris, onde está um dos personagens mais citados da literatura mundial: Quasimodo, o Corcunda de Notre-Dame.

Publicado em 1844, Eurico, o presbítero é um romance histórico situado no século VIII. A obra enfoca o fim do reino visigodo formado na região que hoje engloba Espanha e Portugal, com a chegada vitoriosa dos muçulmanos. Nesse contexto, relacionam-se os protagonistas, Eurico e Hermengarda.

O guerreiro Eurico, de origem humilde, após conquistas nos campos de batalha, pede ao Duque da Cantábria a mão de sua filha Hermengarda. O nobre recusa, e o jovem, desiludido, volta-se para a vida religiosa. Torna-se, assim, presbítero, na esperança que a vida litúrgica e a composição de poemas e hinos que tratam de temas sagrados o façam esquecer seu grande amor.

Tudo muda quando os árabes invadem a Península Ibérica. Eurico transforma-se num emblemático Cavaleiro Negro. Logo ganha destaque pela bravura, animando os visigodos a enfrentar os invasores. A situação se complica, porém, quando os árabes dominam o Mosteiro da Virgem Dolorosa e raptam Hermengarda.

O heróico Cavaleiro a salva e impede que ela seja violentada. Quando a heroína declara o seu amor, Eurico diz que nada pode ter com ela devido aos seus votos religiosos e revela a sua dupla identidade. A moça enlouquece e o soldado parte para o campo de batalha numa luta onde certamente perderá a vida, num final romântico em que a desconexão deste mundo chamado real é o único ponto de conexão possível para um amor infeliz.

*Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

Desilusão do Liberalismo

Longe de insuspeições e com erudição clara, a melhor crítica ao liberalismo chega-nos de dentro daqueles que o viveram entusiasticamente, que o apoiaram incondicionalmente e que por fim, incapazes de esconder a sua amargura perante os resultados trágicos daquilo em que um dia tanto acreditaram, o denunciam como uma maldição assassina inimiga de povos e nações. O fragmento seguinte, não deixa dúvidas da decepção que o brilhante escritor sentiu em relação ao liberalismo que disseminava o caos social no Século XIX, o século da expansão do individualismo radical.
“O povo tinha liberdade e quis licença; tinha justiça, e quis iniquidade; o povo perecerá.
Desgraçado daquele, que anda fora dos caminhos do Senhor; correndo despeado por despenhadeiros sentir-se-á por fim o baque do seu corpo, que se esmigalha batendo no fundo de um precipício.
Quando uma Nação quebra todos os laços sociais, dela será todo o dano.
Para as turbas, o cheiro do sangue é um perfume suave; o roubo uma gloriosa conquista. Porque a plebe desenfreada é um fantasma do crime, como o espectro da morte, como o grito do extermínio.
Os tiranos sorriem, e dizem por escárneo aos homens virtuosos: ide, e dai liberdade às turbas; erguei à dignidade de homens livres servos e devassos, e educados no lodo; eles vos pagarão com a única moeda que guardam em seus tesouros.
Povo! Os que hoje saúdas como numes, amanhã tu os farás em pedaços, e lhes arrastarás pelas ruas os cadáveres cobertos de feridas e pisaduras.
Porque, bem que tarde, conhecerás que eles te hão enganado. Prometeram-te abundância, e achar-te-ás faminto; prometeram-te liberdade, e achar-te-ás servo.
A licença mata a liberdade; porque se livremente oprimes, livremente podes ser opresso; se o assassínio é o teu direito, direito será para os outros assassinar-te.” (Alexandre Herculano in «A Voz do Propheta», 1ª e 2ª séries, extractos.)

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