A NATUREZA HUMANA SEGUNDO FREUD E CARL ROGERS

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A Natureza Humana Segundo Freud e Carl Rogers


INTRODUÇÃO

Um dos pontos mais contraditórios entre a teoria psicanalítica e a teoria centrada na pessoa é aquele que diz respeito à natureza humana. Os autores que abordam essas teorias, freqüentemente, enfatizam tal aspecto. Parece não haver dúvidas de que a posição de Rogers é nitidamente otimista em confronto com a de Freud.

O processo experiencial e o contexto sociocultural e histórico, de cada um, talvez possam ser responsabilizados pelas ênfases que dão às suas abordagens. Rogers, americano, filho de pais de princípios religiosos rígidos, porém afetivos no trato com as crianças, faziam com que prevalecesse em família um clima de união e de valor ao trabalho, embora mantivessem uma vida social bem reduzida, o que de certo modo influenciou a postura tímida e isolada do jovem Rogers. Nasceu em janeiro de 1902 e morreu em fevereiro de 1987, participando, portanto, dos conflitos deste quase final de século. Considerado um revolucionário tranqüilo, por Farson , pela maneira como contribuiu para mudar vários aspectos da psicologia e de outras áreas, é sem dúvida alguma um marco referencial na obra psicológica existente. Freud, filho de pais judeus, perseguido pelo nazismo, sofreu durante toda a sua vida a discriminação pela sua origem, por conta disso, desde cedo aprendeu a se opor ao ambiente e a manter “um certo grau de independência de julgamentos”. Foi obrigado, ainda por conta da perseguição nazista, a se exilar no final da sua vida na Inglaterra, onde morreu em 1939, de câncer. Nascido no ano de 1856, em Freiberg, Morávia, pequena cidade situada na atual Eslováquia , sofreu os entraves de duas guerras mundiais. Além disso, sua época, marcada pela repressão sexual, trouxe-lhe experiências profissionais bem diferentes das de Rogers. Foi o criador da Psicanálise e influenciou, igualmente, várias áreas do conhecimento, além da Psicologia.

É evidente que o modo como os terapeutas percebem o homem, é grandemente responsável pela forma como se conduzirão, enquanto profissionais, daí a importância desse estudo. Por outro lado, tais concepções, trazem fortes implicações para a gerência de suas próprias vidas.


A NATUREZA HUMANA SEGUNDO FREUD

O modelo de homem apresentado pela psicanálise pode ser resumido nos seguintes termos, de acordo com Kline (1988):

O homem tem dois impulsos principais: sexualidade e agressão, juntos com motivos determinados pelo meio ambiente, tais como os conflitos de Édipo e de castração, que exigem expressão. Uma vez que estes operam um sistema de energia fechado, a expressão é vital. Através da mediação do ego em defesas bem e malsucedidas a expressão direta e indireta, na forma de sintomas neuróticos e atos simbólicos, é conseguida. Este modelo de homem necessita de um alto grau de controle na sociedade e saídas institucionalizadas para os impulsos. Sem esses, de acordo com o modelo freudiano, viveríamos de forma arriscada (p.143).

Freud considera, na sua teoria, a pulsão de vida e a pulsão de morte como faces da mesma moeda, dando a entender que eros e tanatos têm o mesmo peso. Todas as duas formas de energias transitam livremente no inconsciente, cujo único objetivo consiste em aliviar suas tensões, segundo o princípio do prazer e de acordo com o processo primário. Para ele, o homem é possuidor de um permanente conflito entre forças antagônicas existentes em seu interior.

O id totalmente inconsciente, não obstante, nem bom nem mal, abstém-se de qualquer lógica ou racionalidade e faz tudo o que lhe é possível fazer para atingir seus objetivos, ou seja: livrar-se da pressão de energias, das quais ele é o próprio reservatório. O ego, por sua vez, gerado que foi pelo id, no sentido de facilitar-lhe a obtenção do prazer, tenta a todo custo servir de mediador entre as exigências dele e as exigências da realidade externa, reduzindo ou adiando o seu prazer, em prol de uma racionalidade aceitável. Um terceiro elemento, oriundo do ego, ganha força com o complexo de Édipo e de castração, e também participa desse jogo de poder. Trata-se do superego, o aliado da cultura, na perpetuação das normas e dos valores sociais. Agora, o ego, além de mediador entre as exigências do id, do superego e da realidade externa, precisa se fortalecer para dominar o mais possível o conteúdo inconsciente e escrever a sua própria história, pois, como vocês devem estar lembrados, o ego e o superego têm o seu lado obscuro ou inconsciente.

Quando apreciamos a obra freudiana, observamos que toda ela é marcada por um certo ceticismo em relação ao homem. Sendo a natureza humana, na sua visão, determinada, sobretudo, pelas pulsões e forças irracionais, oriundas do inconsciente; pela busca de um equilíbrio homeostático; e pelas experiências vividas na primeira infância.

Tudo o que o homem construiu – as artes, as ciências, suas instituições e a própria civilização – num contexto mais amplo, não passa de sublimações dos seus impulsos sexuais e agressivos. Neste sentido, pode-se afirmar que, sem as defesas é impossível a civilização, e que uma sociedade livre e sem necessidade de controle está fora de cogitação.

Considerando que a psicanálise, enquanto tratamento, tem por objetivo restaurar a harmonia entre o id, o ego e o superego, parece que, só através da mesma, o indivíduo tem alguma chance de mudar esse quadro determinista. Mas, o próprio Freud não se mostrava muito otimista, ao afirmar: (…)”a análise não se propõe abolir a possibilidade de reações mórbidas, e sim proporcionar ao ego do paciente liberdade para optar de uma maneira ou de outra”.(Cit. por May, 1982, p.218)

Na teoria psicanalítica os neuróticos são atormentados por sentimentos de culpa constantes, pelo fato de possuírem um superego forte e um ego fragilizado. Tais sentimentos tendem a impossibilitar ou diminuir a expressão pulsional, o que provoca nele um sentimento, freqüente, de frustração. Ao passo que, os psicóticos são indivíduos dominados pelo seu id, pois, em decorrência da quebra de suas defesas, eles perderam o contato com a realidade. O ego precisa ser restaurado para que ele volte aos padrões normais de funcionalidade.

Freud considerava o complexo de Édipo como núcleo das neuroses. Isso significa que, a menos que aprendamos a chegar a um acordo com nosso amor e ódio ambivalentes em relação aos nossos pais e possamos aceitar os sentimentos edipianos, não negá-los, reprimi-los ou encená-los, nunca poderemos formar relacionamentos emocionais adequados com outras pessoas, e a necessidade de expressar e receber afeição, conforme é vista na criança, nunca poderá ser satisfeita. Essa é uma causa primária da perturbação neurótica (Kline, 1988, p.40).

Por outro lado, percebemos nos psicanalistas uma tendência para enfatizar os aspectos destrutivos da natureza humana.
Freud fez diversos comentários sobre a supressão do conteúdo psíquico desagradável em sua nona conferência que tratava da censura onírica. O auditório protestava contra o fato de que a psicanálise atribuía muito do comportamento a uma predisposição fundamental para o mal. Freud procurou mostrar que o auditório não enxergava a vileza egoística da natureza humana e o fato de que o homem não é muito digno de confiança a tudo o que se refere a vida sexual. Falou ainda da guerra que devastava a Europa, dando a entender que tanta destruição não poderia ser desencadeada por uns poucos homens ambiciosos e sem princípios, se essas tendências destrutivas não existissem na maior parte da humanidade. Afirma Freud: ‘Não é nosso propósito negar a nobreza humana, nem fizemos nada para diminuir seu valor. Ao contrário, mostrei-lhes não apenas o desejo do mal que é censurado mas também a censura que o suprime e o torna irreconhecível’ (Riviere, cit. por Stefflre & Grant, 1976, p.159).

Toda obra freudiana se apresenta repleta de afirmações que traduzem seu pessimismo com relação ao homem, quer quando se refere ao “princípio do prazer” quer quando se refere a repressão necessária para suplantar a marcante hostilidade presente, em cada um de nós, na sua opinião.

A hostilidade humana, ao que tudo indica, não tem limites: o homem é hostil não só a sociedade como também a seus companheiros mais próximos. É, pelo menos isso, o que nos afirma Freud no trecho abaixo:

A sociedade civilizada está perpetuamente ameaçada pela desintegração por causa dessa hostilidade primária dos homens entre si… A cultura tem de recorrer a todo reforço possível a fim de eregir barreiras contra o instinto agressivo dos homens… Daí… seu mandamento ideal de amor ao próximo como a si mesmo ser realmente justificável pelo fato de que nada está tão completamente em desacordo com a natureza humana original. (Freud (1930), cit. por Walker, 1957, p.3)

Diante de um ser tão hostil e desintegrador, nada mais natural do que a sociedade fazer uso do seu poder de coerção.
Parece mais provável que cada cultura seja edificada sobre a coerção e a renúncia instintiva; é duvidoso que, sem coerção a maioria dos homens esteja pronta para submeter-se ao trabalho necessário para adquirir novos meios de suportar a vida. A gente tem, eu penso, de contar com o fato de que em todos os homens estão presentes tendências destrutivas e, portanto, anti-sociais e anti-culturais e que, num grande número de pessoas, são bastantes fortes a ponto de lhes determinar o comportamento na sociedade. (Freud, cit. por Walker, 1957, p.2).

Como podemos perceber, Freud acreditava, em um homem cujo organismo era grandemente dominado pelas suas pulsões destrutivas. Diante desse quadro predominantemente hostil, parece que não havia outra saída a não ser a da coerção social, como elemento coibidor desse aspecto tão forte de sua natureza. Cabendo, portanto, a cada cultura, no seu processo de desenvolvimento, aprender a controlar os desejos do id, de acordo com os seus próprios valores. De qualquer modo, “até o início da idade adulta, na maioria das sociedades, o id terá sido domesticado. Quando não o é, o indivíduo costuma ser considerado muito especial, louco, mal, sagrado, ou qualquer combinação dos quatro”. (Kline, p.24/5)

Mas, ao que parece, ao longo de sua história, Freud reformulou alguns dos seus pontos de vista, passando a enfatizar, também outros aspectos da constituição humana. Aliás, a revisão e reformulação de conceitos, a largueza de percepções e de coragem para voltar atrás, quando necessário, sempre fizeram parte do dia a dia desse homem de natureza positiva.

É dele os seguintes dizeres: “Senhores – como sabem, nunca nos vangloriamos de que nosso conhecimento e nossa capacidade fossem completas e definitivas. Tanto anteriormente como na atualidade estamos dispostos a arrostar as imperfeições de nosso entendimento, aprender coisas novas e a modificar nossos método sem qualquer sentido que possa melhorá-los (Cit.por Ekstein, in Burton,1978,p.26). A ênfase que Freud deu, posteriormente, ao ego, parece indicar uma nova perspectiva em relação a natureza humana:

Anteriormente, Freud dizia que a psicanálise tinha como objetivo terapêutico tornar consciente o inconsciente. Isso estava em conexão com o modelo topográfico, antes da introdução do modelo estrutural e do ponto de vista adaptativo. Mais tarde, ele se expressou sobre o objetivo da análise em termos de onde estava o id, lá estará o ego, referiu-se realmente à necessidade de desenvolver a técnica de modo não apenas a tornar consciente o inconsciente, mas também a fortalecer a organização do ego de tal maneira que ela não tivesse de se defender do passado mediante a repressão, que fosse capaz de suportar e restaurar a continuidade entre o passado e o presente, e que usasse essa continuidade no sentido da adaptação, isto é, da capacidade para novas soluções de problemas (Ekstein, in Burton, 1978, p.27/8).

Em setembro de 1932, numa correspondência dirigida ao físico Albert Einstein, Freud explica a sua teoria dos instintos. Considerando a síntese feita por Freud da teoria das pulsões, inicialmente, ele nos fala da existência de dois instintos presentes no homem, segundo sua hipótese: o erótico, que tende a preservar e a unir; e o agressivo, cuja tendência é matar e destruir.
Uma vez colocada a oposição entre o amor e o ódio, Freud continua esclarecendo que devemos nos abster de colocar juízos éticos e de valor, haja vista que, essas pulsões são importantes ao homem na mesma medida.

Assim, por exemplo, o instinto de auto preservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Muito raramente uma ação é obra de um impulso instintual único. Como conseqüência de um pouco de especulação, podemos supor que esse instinto está em atividade em toda a criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando , com o auxílio de órgãos especiais é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição do mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação (Freud (1932), 1976, p.252/4).

Freud deixa claro, como podemos observar na conclusão deste trecho, que os “impulsos condenáveis e perigosos” são justamente os que mais próximos estão da natureza humana.

Continuando, ele esclarece que, “de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas do homem”(…). Não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-lo num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra” (p.255).

Em seguida, apresenta algumas sugestões, que ele denomina métodos indiretos para acabar com a guerra:

Se o desejo de aderir a guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista. Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual.(…) O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade se baseia nelas, em grande escala (p.255).

A outra sugestão refere-se a educação dos líderes, no sentido de se evitar o abuso de poder cometido, geralmente, pelas autoridades. Pois, segundo ele, uma vez que, os homens tendem a se classificar em líderes e seguidores, faz-se necessário uma melhor atenção à educação daqueles que não se deixam intimidar e têm por objetivo a busca da verdade e o comando das massas submissas.

Continuando, diz ele, “é desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão” (p.256).

Finalmente, Freud conclui: “Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.” (p.25)

Apesar do ponto de vista freudiano ter se mantido o mesmo, ao longo de sua obra, percebe-se uma nova postura em relação à técnica de combate: no início, marcantemente, caracterizada pelo controle e pela coerção, mais para o final, a arma sugerida era o amor e a liberdade, o que parece indicar uma abertura, ainda que precária, em relação a natureza humana; ou, pelo menos, uma crença maior na força do amor e da liberdade, como elementos indispensáveis à união e ao crescimento dos indivíduos, ao contrário da coerção.


A NATUREZA HUMANA SEGUNDO ROGERS

Ao estudarmos a teoria rogeriana, nos deparamos com um posicionamento bastante diferente daquele que vimos quando estudamos a teoria freudiana, no que se refere a natureza humana. Nela destaca-se a grande confiança que Rogers sentia pelo homem. A grande crença que ele sentia na capacidade do indivíduo é, assim, enunciada: “O ser humano tem a capacidade, latente ou manifesta, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia necessárias ao funcionamento adequado” (Rogers & Kinget, 1977, p.39).

Acredita ele que, se o homem não possui lesões ou conflitos estruturais profundos, apresenta esta capacidade. E que esta é uma característica inerente ao homem que independe de aprendizagem. Todavia, para que esta potencialidade logre a sua atualização, é necessário um clima de calor humano, desprovido de ameaças ou desafios à imagem que a pessoa faz de si mesma.

A concepção de uma natureza “angélica” do homem, atribuída a Rogers, encontra-se, portanto, bem longe da verdade.

Dizia Rogers: Não possuo visão ingênua da natureza humana. Tenho bem consciência de que para se defender e movido por medos intensos, indivíduos podem e, de fato, se comportam de modo incrivelmente destrutivo, imaturo, regressivo, anti-social e nocivo (Rogers, 1961, p.27.).

Mas a compreensão de Rogers a respeito da natureza humana vai além dessa constatação: Contrariamente à opinião que vê os mais profundos instintos do homem como sendo destrutivos, observa-se, quando o homem é, verdadeiramente, livre para tornar-se o que ele é no mais fundo de seu ser, quando é livre para agir conforme sua natureza, como um ser capaz de perceber as coisas que o cercam, então ele, nitidamente, se encaminha para a globalidade e a integração. Como já disse em outra publicação (Rogers, 1961, p.105).

Quando o homem é de todo um homem, quando ele é o seu organismo completo, quando a percepção da experiência, esse atributo peculiarmente humano, está operando na sua máxima plenitude, então se pode confiar nele, então seu comportamento é construtivo. Nem sempre será convencional, nem sempre será conformista. Será individualizado. Mas será também socializado (Rogers, in Burton, 1978, p.195).

Apesar de sua grande confiança no homem, Rogers sabe que somente consciente dos fatos que o cercam, poderá o indivíduo tomar decisões acertadas. E preocupa-se ante a consciência de que a nossa sociedade, na pele dos políticos, dos funcionários do governo, da indústria, da extrema direita e da extrema esquerda, entre outros, estejam todos empenhados em esconder os fatos ( Cf. Rogers, in Evans, 1977).

Ao longo de sua experiência, ele constatou que muitos dos sentimentos, considerados positivos, como o amor, a confiança e a bondade são, muitas vezes, aqueles mais profundamente recalcados, e não somente aqueles impulsos socialmente proibidos.
É, justamente, por conta de suas observações, enquanto terapeuta, que ele é levado a não acreditar que, uma vez liberada a camada mais profunda da natureza humana, nos depararíamos com um id incontrolável e destrutivo.

As observações de Rogers o conduziram, realmente, a uma idéia bem diferente da natureza humana, o que, num certo sentido, a identifica com o próprio fluxo da vida. E, referindo-se àquelas pessoas com quem ele trabalhou nas salas de fundo dos hospitais estaduais, ele afirma que as condições em que se desenvolveram essas pessoas têm sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem anormais, distorcidas, pouco humanas. E no entanto, pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se dos recursos que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa (Rogers, 1983, p.41).

A abordagem centrada na pessoa considera a tendência realizadora ou atualizante como uma motivação polimorfa. Ao nível do comportamento, esta tendência pode assumir diversas formas, em consonância com as necessidades presentes no organismo. Mas a busca de satisfação dessas necessidades será feita no sentido de promover a auto-estima e não de diminuí-la, exceto quando algumas delas, particularmente as básicas, tornam-se excessivamente urgentes.

Como se sabe, as teorias vigentes que tratam da motivação, tendem a descrevê-la a partir do modelo utilizado pela biologia, segundo o qual o organismo procura reduzir suas tensões e restabelecer um estado de equilíbrio. A teoria freudiana, por exemplo, considera esse modelo.

Rogers discorda dessa orientação, pois, para ele, os organismos estão sempre em busca, num eterno vir-a-ser, de um modo bem diferente do equilíbrio homeostático preconizado por Freud quando diz: “O sistema nervoso é… um aparelho que deveria se manter, se fosse possível, num estado de completa não estimulação”, haja vista que, quando privado de estimulação externa, ele se abre para uma imensidão de estímulos internos, muitas vezes, semelhantes, aqueles dos relatos de experiências cósmicas. No seu entendimento, somente um organismo doente, mantém-se num equilíbrio passivo.

Portanto, segundo ele, a homeostase não pode se constituir na orientação última do organismo, haja vista que ele está sempre à procura de estímulos mais complexos. No homem, essa busca de estímulos mais enriquecedores é denominada curiosidade.
Os organismos estão sempre em busca de algo, sempre iniciando algo, sempre ‘prontos para alguma coisa’. há uma fonte central de energia no organismo humano. Essa fonte é uma função do sistema como um todo, e não uma parte dele. A maneira mais simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude, à auto-realização, que abrange não só a manutenção mas também o crescimento do organismo (Rogers, 1983, p.44).

A tendência de se valorizar um ou outro aspecto de sua constituição, não pode ser feita sem acarretar prejuízo à compreensão do que seja ser uma pessoa. “Creio que o homem é mais sábio do que o seu intelecto considerado isoladamente e que as pessoas (que funcionam bem) aprendem a confiar em sua experiência como a mais satisfatória e sábia indicação para o comportamento apropriado.”(Rogers & Wood, in Burton, 1978, p.196)


CONCLUSÃO

“O homem nem é bom nem é mau, ele simplesmente é”. De fato, atribuir-se ao homem uma energia agressiva, como o fez Freud, não significa caracterizá-lo como mau. Do mesmo modo, atribuir-se ao indivíduo, uma natureza positiva, como defende Rogers, não implica em dizer que o homem é bom, mas sim que existe nele uma tendência para o crescimento – para a atualização do seu potencial – como, aliás, é visível em todos os seres vivos.

É inegável a ênfase que Freud dá aos aspectos destrutivos do homem. A necessidade, colocada por ele, no sentido de controlar e de coibir o indivíduo, devido ao perigo que ele poderia representar para a sociedade, leva-nos a concluir que o homem, preconizado por Freud, não é, socialmente falando, muito digno de confiança.

Em Rogers observa-se o inverso, pois ele acredita que é justamente um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, o que o torna hostil ou anti-social. Caso contrário, nada temos a temer, pois, seu comportamento tenderá a ser construtivo. “Será individualizado. Mas será também socializado” (Rogers & Wood, in Burton, 1978, p.195).

Freud enfatiza o homem determinado por forças inconscientes, que necessitam do controle social para sua própria manutenção e da sociedade. Rogers enfatiza o homem auto-determinado, apesar de perceber e colocar na sua apreciação os limites dessa possibilidade.

Não resta dúvida de que a história de vida das pessoas e a maneira como vivenciaram essa história, podem influenciar no modo como se conduzem socialmente. Os próprios autores, em questão, foram influenciados pelas suas histórias, ao desenvolverem pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EVANS, R. – Carl Rogers: o homem e suas idéias – Martins Fontes, SP, 1979.

FREUD S. – (1933 [1932]) Novas Conferências Introdutórias Sobre a Psicanálise, Imago, Ed. Standard Brasileira, RJ, 1976, vol. XXII.

_______ – ( )Mal-Estar na Civilização – Imago, Peq. Col. da Obra de Freud, Livro 8, RJ, 1974.

JUSTO, Henrique – Carl Rogers, Liv. Stº. Antonio, RS, 1978, 4ª ed.

KLINE, P. – Psicologia e Teoria Freudiana, Imago, RJ, 1988.

LAPLANCHE, J. L. & PONTALIS, J.-B. – Vocabulário de Psicanálise, Moraes Editores, Lisboa, 1976.

ROGERS, C. R. – Tornar-se Pessoa, Martins Fontes, Lisboa, 1974, 2ª ed.

ROGERS, C. R. & KINGET, G. M. – Psicoterapia e Relações Humanas – Interlivros, BH, 1977, 2ª ed. vol.I, II

ROGERS, Carl R. – Liberdade de Aprender na Nossa Década, RS, Artes Médicas, 1985.

ROGERS, Carl & ROSENBERG, Rachel – A pessoa Como Centro, SP,
EPU, 1977.

ROGERS, Carl et. alii – Em busca de Vida, SP, Summus Editorial, 1983.

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