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A FACE OCULTA DA ESCOLA

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A Face Oculta da Escola


No interior das escolas e universidades, seja através das críticas ferrenhas daqueles que se opõem a essa vinculação linear ou das adesões rápidas e acríticas daqueles que só vêem sentido na existência do sistema educativo na sua aderência direta e imediata ao mundo da produção, o assunto e iniciativas estão na ordem do dia.

Argumentos a favor e contra não faltam aos defensores dessas diferentes posturas. Aqueles que criticam essa vinculação estreita entre as instituições, alertam para os perigos do atrelamento das funções educacionais aos interesses pragmáticos, imediatos e utilitaristas do mercado.

Esse colocar se a reboque descaracterizaria a existência e as funções de escolas e universidades. Por sua vez, os defensores de um estreitamento nessas relações apontam a necessidade de as instituições educativas se tornarem coetâneas e partícipes do momento atual, em que, de um lado, a entrada e permanência dos trabalhadores no chamado mercado de trabalho está a exigir deles uma elevação na sua qualificação e, de outro, a qualidade e a competitividade de produtos e serviços tornam imperioso um incremento na quantidade e qualidade da educação de produtores e consumidores.

Aparentemente alheios a essas discussões que muitas vezes consideram metafísicas, academicistas os empresários, através dos seus órgãos de representação ou dos teóricos que os subsidiam, defendem abertamente essa vinculação imediata; estabelecem parcerias diretamente com escolas e universidades, com o Ministério da Educação e Secretarias estaduais e municipais de Educação e, no limite, criam escolas no interior das empresas, transformando as próprias empresas em “organizações qualificantes”.

Para esta categoria que abrange milhões de jovens e adultos, trabalhadores e estudantes, essa disputa tem um sabor escolástico.

O fato de quase não serem consultados, de não participarem do debate não significa apenas que estão sendo excluídos de uma discussão: significa uma exclusão que dificulta ou lhes barra o caminho da construção das qualificações necessárias para enfrentar os imensos desafios de um momento em que a luta para ingressar, manter se e regressar à escola/universidade e a batalha para ingressar, manter se e ser reabsorvido pelo chamado mercado de trabalho ocorrem não mais em tempos e espaços geográficos e cronológicos diferentes. São concomitantes, aqui e agora, on line.

As novas tecnologias da informação e da comunicação, na condição de suporte e intermediação do novo e veloz mundo do trabalho que está se redesenhando, exigem envolvimento e participação de todos.

Segundo Fernandez Enguita (1989, p. 192), as revoluções tendem a subverter as relações existentes, sendo que suas promessas são, na maioria das vezes, mais atrativas para os grupos menos favorecidos, enquanto que se mostram mais ameaçadoras para as classes privilegiadas.

Neste sentido a escola exerce um duplo papel: ao mesmo tempo em que oportuniza condições de melhora e escala social dos indivíduos através da elevação das exigências em termos educacionais, permite aos grupos ocupacionais reforçar a sua posição controlando as possibilidades do acesso aos mesmos.

Desta forma, segundo concepção burguesa, as recompensas sociais devem ser distribuídas de acordo com o rendimento dos indivíduos. A condição, para isso, é que todos participem, com iguais oportunidades, de uma competição regulada de tal maneira que se possam neutralizar as influências externas.

Percebe-se que a escola, mesmo pregando nobres ideais como solidariedade, cooperação, trabalho em equipe, etc continua a estimular a competição entre seus alunos. Na maior parte das vezes quando se fala de um aluno é aplicado, que está sempre disposto a cooperar, significa que ele está resignado a envolver-se nas propostas apresentadas pelo professor, isto é, a obedecer cegamente ao educador da mesma forma que obedecerá futuramente sem questionamentos ao seu patrão.

Outro fato interessante estimulado pela escola significa que o sucesso de um aluno implica diretamente no fracasso do outro, e vice-versa. Isto é, se um educador obtiver conceito razoável ou baixo em uma matéria, será sobrepujado por aquele que obtiver melhores resultados.

Por outro lado, se for este segundo aluno que apresentar resultados inferiores em determinada disciplina, ficará numa posição aquém ante os demais. Visto sob este aspecto, a escola pode ser considerada uma arena repleta de gladiadores, os quais transferirão a sua periculosidade para a sociedade que os espera.

E ainda: forçado pelo professor a responder em voz alta a resposta de determinada questão o aluno não a souber, e um colega de classe, constrangido pela situação do colega lhe ajuda Assoprando a resposta correta ou lhe dando uma dica capaz de lhe dar condições de se sair bem da situação, passam a ser os dois alvos de críticas tanto pelo educador quanto por colegas mais adaptados e submissos ao sistema.

Isto representa um grande paradoxo: se a escola prega a importância da solidariedade e da fraternidade entre os seres humanos, porque condena aquele aluno que soprou uma resposta ou passou uma cola a um colega que estava passando por dificuldades, solidariezando-se e humanizando-se com a sua situação?

Desta forma percebe-se que o conhecimento vem a ser um espécie de propriedade privada, medida individualmente em oposição aos demais. Assim sendo, mesmo freqüentando uma sala de aula por aproximadamente duzentos dias por ano, recebem os mesmos preceitos e lições, conviverem em ambiente físicos nada espaçosos e que forçam a proximidade física, o atual sistema propõe que os educandos tratem-se como estranhos, que o colega da carteira ao lado representa um elemento rival, hostil, que não pode ser ajudado em um momento de precisão.

Quanto á consciência estratificada, Fernandez Enguita (1989, p. 210) diz que a relação entre educação e estratificação social é bem conhecida, principalmente no que tange as diferenças sociais aceitas e mantidas através de sua própria estratificação interna.

As instituições escolares, ao apresentarem seus princípios internos, seus critérios de seleção e demais mecanismos como produtos lógicos, científicos e indiscutíveis, acostumam os alunos à idéia de que sua classificação e hierarquização é um fator inevitável. A partir daí os educandos passam a pensar que também são inevitáveis de classe e de salários, o prestígio na sociedade e demais formas de hierarquização.

A partir dessa considerações pode-se constatar que o fato de uma origem social adequada é causa tanto de uma boa educação quanto de um bom destino social. Porém, é a escala que produz estas diferenças: ao estabelecer uma norma comum para todos os alunos objetivando sua capacitação e disponibilidade para o trabalho, acaba por gerar uma diferenciação em torno do rendimento: como os grupos privilegiados têm maiores chances de sucesso, sobressaindo-se ante os demais, a escola acaba por eleger o eleitor, contribuindo para reproduzir não somente a estrutura de classes da sociedade, mas também as características das mesmas.

CULTURA DE PAZ VERSUS VIOLÊNCIAS

Reconhecendo a importância de se construir uma Cultura de Paz, Milani (2003) afirma que Apara que relações de paz, respeito e cooperação prevaleçam numa escola ou comunidade não bastam boas intenções e belos discursos (p.31), mas transformações indispensáveis para que a paz seja o princípio governante de todas as relações humanas e sociais.

O autor alerta quanto ao discurso da paz que permeia o senso comum, que tende a assumir o caráter abstrato de um ideal que todos desejam mas que raros se dispõem a construir: Quando isso acontece, a proposta corre o risco de tornar se uma mera expressão de boas intenções, ingênua em sua consistência e reduzida, em sua abrangência, à ação do indivíduo nas suas relações interpessoais.

O terceiro paradigma constitui a cultura de paz, que propõe mudanças inspiradas em valores como justiça, diversidade, respeito e solidariedade, por parte de indivíduos, grupos, instituições e governos (MILANI, 2003, p.38). Esse modelo enfatiza a viabilidade de se reduzir os níveis de violência através de intervenções fundamentadas na educação, saúde, participação cidadã e melhoria da qualidade de vida.

Desta forma, enquanto o primeiro enfoque tende a interpretar a violência como uma expressão exclusiva de pessoas incapacitadas para o convívio social; e o segundo tende a considerar o indivíduo violento como vítima da sociedade; o terceiro, correspondente ao modelo da Cultura de Paz, analisa a violência como um fenômeno multidimensional e multicausal, que se manifesta por expressões individuais, grupais e/ou institucionais, e cujo enfrentamento exigirá mudanças culturais, sociais, econômicas, morais de parte de todos (MILANI, 2003, p.39).

Um dos aspectos da atuação da Psicologia Escolar refere se à criação de espaços para a conscientização de professores e atores escolares sobre os seus papéis, funções e responsabilidades, promovendo uma ação reflexiva e intencionalmente direcionada à construção de relações e estratégias coerentes com a demanda e os objetivos educacionais.

As concepções de sucesso e fracasso, paz e violência permeiam os discursos e as práticas cotidianas, cujas vozes necessitam ser validadas, >devolvidas= e >ecoadas= de forma a promover a conscientização das ações e do caráter sintomático dos comportamentos no contexto escolar.

Neste sentido, as relações interpessoais constituem uma unidade de análise da prática pedagógica, criando com e entre os professores um espaço de interlocução que promova a conscientização das complexas redes interativas que permeiam o contexto escolar.

No que tange à construção da Cultura de Paz, as habilidades interpessoais, pessoais e éticas destacam-se frente às necessárias articulações demandadas nos contextos sociais. As habilidades interpessoais, envolvem características de relacionamento social desdobradas em ações coletivas e na construção de espaços férteis de interlocução através da disponibilidade de colaboração e socialização de saberes e respeito aos diferentes pontos de vista.

As habilidades pessoais representam recursos individuais, envolvendo a disponibilidade para rever a sua própria atuação, o empenho continuado para aperfeiçoamento e o desenvolvimento de estilos e atitudes que permitam vencer desafios de forma planejada e intencional.

As habilidades éticas, por sua vez, abrangem a capacidade de identificar as várias verdades existentes da intersubjetividade das relações, o desenvolvimento da sensibilidade para considerar a singularidade das situações e a disponibilidade para o questionamento e a interrogação reflexivos, críticos e constantes sobre suas próprias decisões, ações e atitudes, exercitando a ética da tolerância e da solidariedade.

REFERÊNCIAS

FERNANDEZ ENGUITA, Mariano. A face oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. 272 p.

MILANI, Feizi M.; JESUS, Rita de Cássia Dias. (Orgs). Cultura de Paz: estratégias, mapas e bússolas. Salvador: Inpaz, 2003. P.31 – 58.

Autor: Carlos Ademir Hoeckel

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