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A centralidade da educação na sociedade do futuro

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Novas exigências de qualificação humana impõem mudanças substanciais na instituição Escola; na atitude e participação dos cidadãos ante essas mudanças que atingem de forma importante e desigual a todas as formações sociais. O exemplo das experiências concretas dos centros hegemônicos do desenvolvimento capitalista não encaminha na direção de uma democratização do conhecimento, pois a lógica da seletividade em que se baseiam as teorias econômicas da Educação se contrapõe a tal propósito. O acesso ao conhecimento científico, técnico, administrativo é fundamental ao desenvolvimento, só que a nenhum mercado é viável a distribuição democrática de seus produtos (incluindo a mercadoria educação), sob pena de deixar de ser mercado. Ainda mais, todo mercado tem de oferecer bens de qualidade e preços diferenciados, para atender a todos que o procuram; o que, na verdade, é indispensável para sua manutenção e expansão. Cada um comprará o que lhe for possível, o que não significa fazer escolhas, pois inexistem outras alternativas para a maioria da população.

Este exercício teórico é fruto de inquietações e incertezas sobre o que está acontecendo hoje, nesse mundo cambiante e desafiador em que vivemos e principalmente no que se avizinha.

Apesar do título, “A centralidade da educação na sociedade do futuro”, ser um tanto categórico, não há pretensão de sê-lo nos posicionamentos assumidos ao longo do texto, a considerar a incursão tateante num espaço ainda não suficientemente desvelado para mim, e também porque não ouso, nem posso defender conclusões apressadas e cristalizadas sobre o tema.

Traço breves considerações, ancorada em análises competentes de autores estrangeiros e brasileiros de diferentes tendências, procurando entender como são forjadas as situações que dão origem a novas linguagens, novos comportamentos culturais, a nova estética, enfim, a uma nova realidade econômica, política, social e cultural.

Espero trazer alguma contribuição àqueles que, como eu, perscrutam outros caminhos, dirimindo dúvidas e acreditando na existência de mais de um horizonte possível para a humanidade, sem o qual fica difícil ter esperanças no futuro.

Nestes tempos de modernidade ou pós-modernidade como muitos apregoam, surgem ou ressurgem nas pautas e agendas de debates dos meios acadêmicos, políticos, econômicos, culturais como no ciberespaço, questões que dada a recorrência naturalizam-se como verdades históricas inexoráveis. A educação como categoria econômica central se inscreve nessa direção: é uma infinidade de espaços surgindo: sociedade do conhecimento, sociedade de aprendentes, organizações aprendentes, sistemas com base no conhecimento, engenharia do conhecimento, ecologia cognitiva, cognitariado etc.

Um caminho para examinar a questão pode ser o de tentar compreender a relação educação e sociedade, de vez que as práticas educativas ao longo da história do capitalismo sempre se subordinaram às necessidades do capital, como poder-se-á observar nas análises de Manacorda sobre a educação através dos tempos, na Europa e na América; os discursos revelam que a formação do homem se destinou à adequação à realidade e modos específicos de subordinação ao sistema produtivo, independente do modo dominante de condução da sociedade.

Um fato importante para o desenvolvimento das sociedades foi o aparecimento da instituição escola junto com a fábrica e hoje estão surgindo novos espaços de conhecimento, em função das mudanças no processo produtivo, com especial destaque para a Informática, para outras possibilidades de acesso e produção de saber, como as redes computacionais interativas.

No decorrer deste trabalho, destaca-se o que, por enquanto ainda se denomina escola, por acreditar em sua essencialidade para a formação e emancipação humana. Certamente que não se trata dessa escola transmissora de conhecimentos embalados ou estocados e fossilizados, como úteis e os necessários a serem repassados para mentes imaturas, obedecendo a regras e padrões pré-estabelecidos; escola essa desconectada da complexidade de um mundo cambiante e global.

“Não existem outras instâncias sociais que exerçam uma interferência formativa tão longa, constante e profunda quanto a escola. Seu papel certamente se reduziu em confronto com as demais instâncias aculturadoras e socializadoras do ser humano moderno, inserido em sociedades amplas, complexas e prevalentemente urbanas. Mas ainda incumbe principalmente à escola a tarefa de garantir aos seres humanos a descoberta daquela dinâmica básica da vida que lhes permita afirmar-se prazerosamente como vidas possíveis.”

A educação escolar como já sugeri anteriormente, de alguma forma sempre se subordinou aos ditames do poder dirigente, entretanto, como assinala Frigotto nem todas as vezes claramente:

“Na medida, todavia em que o sistema capitalista se solidifica e os sistemas educacionais se estruturam, assume nitidez a defesa da universalização dualista, segmentada: escola disciplinadora e adestradora para os filhos dos trabalhadores e a escola formativa para os filhos das classes dirigentes.”

Ao particularizar-se a situação brasileira, observa-se que em 1889 foi elaborada uma política educacional a cargo do Estado, em conjunto com a Igreja. Mas, só com o Estado Novo (1930-45), o sistema educacional é utilizado para adequar a força de trabalho ao capital, tornando obrigatório o ensino primário; em 1937 é instituído o ensino profissionalizante para as classes populares, bem como a obrigatoriedade para as indústrias e sindicatos manterem escolas de aprendizagem, resultando num grande incremento das matrículas no ensino público; tem-se em 1948 a apresentação de nova Lei de Diretrizes e Bases, de cunho bastante populista, aos moldes do Governo, onde propunha a ex-tensão do ensino para as populações rurais e igualava o ensino médio (propedêutico e o técnico), só sendo aprovada em 1961 e consolidando o ensino privado.

A partir do Golpe de 1964, a educação subordina-se mais claramente aos ditames capitalistas, em termos de discurso, conforme se pode observar nos Planos Nacionais de Desenvolvimento, onde o ingresso do Brasil no rol dos países desenvolvidos, com liderança entre os integrantes da América Latina exigia uma ação revolucionária na educação, de forma a realizar uma “fecunda aliança entre educação e desenvolvimento”

Apesar de toda retórica oficial da importância da educação para o sucesso do projeto econômico do Estado, os resultados concretos das políticas educacionais dos últimos trinta anos são pouco ou nada animadores, haja vista os próprios diagnósticos dos órgãos oficiais brasileiros e internacionais

Para Castro o “milagre brasileiro” foi o de o país ter atingido um razoável nível de desenvolvimento com tão pouca educação.

Talvez se possa dizer que para o processo produtivo do tipo padronizado, tipo Taylorista/Fordista, onde as máquinas rígidas exigem pouca qualificação, para executar tarefas repetitivas ou mesmo uma capacitação mais especializada, a escola com o auxílio do treinamento no próprio local de trabalho permitiu concretizar. Claro que isso não acontece, dessa forma tão simplificada, por envolver outras relações, que no momento não compete aprofundar.

Por outro lado, os recursos humanos de nível superior (e não mão-de-obra) necessários à direção e organização do processo produtivo e administração do País são preparados nas instituições públicas de ensino superior e nas pós-graduações nacionais e inter-nacionais, aliadas a outras formas de qualificação só, em geral, acessíveis aos de melhores condições econômicas. Será que é possível vincular-se diretamente o nível de desenvolvimento dos países capitalistas aos indicadores educacionais elevados?

Mesmo não tendo os dados que permitam responder a questão, algumas indicações de autores como Apple e Costa evidenciam a não democratização do acesso ao conhecimento. Ainda para sinalizar a questão, utilizo a análise jornalística de Gilberto Dimenstein da Folha de São Paulo, em sua coluna sobre a América, em 04 de agosto de 1996, onde expressa o pronunciamento de Carole Bellamy, dirigente da UNICEF de “Brasil e EUA têm um traço em comum. Seus indicadores sociais são muito inferiores a seu potencial econômico.”

Hoje, com as brutais transformações advindas de um inigualável progresso científico e tecnológico, as exigências de edu-cação se intensificam num cenário de maior amplitude, onde o novo cidadão precisa juntar inteligência, conhecimento e capacidade emocional e social para enfrentar e poder atuar rumo às mudanças requeridas.

A qualificação humana, portanto, vai além da aquisição de conhecimentos intelectuais para outros atributos como liderança, versatilidade, flexibilidade, rapidez de decisões, saber trabalhar em equipe, ter equilíbrio emocional e físico, ser comunicativo, solidário, dentre outros. Será que essa pessoa pode existir? Será que na lógica da economia de mercado, onde a competitividade é palavra de ordem, há espaço para solidariedade (que exige um grau elevado de generosidade)?

Embora já haja relativo com-senso entre os estudiosos da pós-modernidade sobre a inexorabilidade de mais conhecimento e qualificação, em parte, alguns elencados neste trabalho, considero necessário examinar o que está por trás desse novo padrão econômico-social-cultural e, notadamente que relações sociais o produziram.

Valho-me da análise de David Harvey para localizar no Fordismo a origem dessa nova realidade acima explicitada, caracterizando-o como um período que vai mais ou menos de 1945 a 1973, de regulação, cuja base se assenta na teorização Keynesiana, fundamentada num conjunto de medidas de controle e gerência do trabalho, de tecnologias, de hábitos de consumo e de configurações do poder político-econômico.

O empresário americano Henry Ford começou a inovar em sua fábrica de automóveis, no Michigan implantando a jornada de trabalho com oito horas e um incentivo de produtividade a seus operários. Entretanto, não foi isso que o diferenciou de outros empreendedores, notadamente após a publicação da obra “Os Princípios da Administração Científica”de F. W. Taylor, em 1911, onde este demonstrava como a produtividade poderia ser aumentada através da racionalização do uso do tempo e movimento cronometrados na realização das tarefas.

O insight de Ford foi descobrir que a produção em massa significava consumo de massa, um novo sistema de reprodução da força de trabalho, novos métodos de organização e controle do processo produtivo – um novo modo de vida total – ancorado no poder corporativo da regulação econômica

O Fordismo-Keynesiano como modo de acumulação capitalista propiciou uma expansão crescente de seu poder na formação de mercados de massas global, na abertura internacional, na globalização da oferta de matéria prima, na implantação e/ou implementação de outros empreendimentos nas áreas de seguros, hotéis, aero-portos, turismo, dentre outros.

O estabelecimento desse modo de acumulação foi desigual nos diversos países em função da correlação de forças políticas, econômicas e sociais internas e externas, gerando, em grande medida, descontentamentos, notadamente no Terceiro Mundo, onde a dita modernização vinha carregada de promessas de desenvolvimento, associado à melhoria das condições gerais de vida, o que não ocorreu, excetuando o caso das elites.

Até no seu berço de origem, os Estados Unidos, o Fordismo foi incapaz de conter a crise inerente ao sistema capitalista, apesar de todo o apoio do Estado e do controle exercido na organização e reprodução da força de trabalho, o movimento de luta dos trabalha-dores se qualificou e aumentou suas reivindicações.

Francisco de Oliveira faz uma análise interessante e coerente sobre a crise do Estado-Providência, dizendo que “a crescente internacionalização retirou parte dos ganhos fiscais correspondentes ao investimento e à renda que o fundo público articulava e financiava”, deixando para o Estado nacional a responsabilidade pela reprodução da força de trabalho e do capital, além de que os incentivos financeiros do fundo público deslancharam uma infinidade de inovações que não têm condições de servir à produção, com a parcela dos lucros auferidos, necessitando cada vez mais de recursos do Estado, sem regulação, numa volta do livre-mercado, segundo os ideais neoliberais. Essa crise estrutural do sistema capitalista tem levado a altas taxas de desemprego, que ajudam fortemente no desmantelamento do sindicalismo, forçando as economias a lutarem por novos mercados, num processo de competição desenfreada: impulsionando a criação de novos setores de produção e serviços, estabelecendo novas relações de trabalho e inovações de toda ordem.

Os centros avançados do capitalismo inauguram um novo modo de acumulação, centrado na flexibilidade e altamente tecnologizado numa escala mundial, obrigando as economias periféricas a reposicionarem-se, com altos custos sociais. Para quem, como o Brasil, nem chegara ao verdadeiro Estado do Bem Estar, o problema se agudiza.

Como o objetivo desse texto não é fazer um estudo sobre o processo de desenvolvimento capitalista , nem tampouco ousar analisar as teorias econômicas, a incursão por estas deu-se em função da necessidade de tentar compreender um pouco dos meandros dos fenômenos surgidos, em determinados momentos históricos.

A nova base produtiva, centrada na microeletrônica, informática, microbiologia e engenharia genética, capaz de criar novos materiais e fontes de energia (recurso escasso, indispensável ao desenvolvimento), diminui o uso de capital vivo e revoluciona o processo produtivo como um todo, incluindo as relações de trabalho.

Conforme já foi assinalado anteriormente, o conhecimento científico, técnico e administrativo e a informação são peças-chave, nesse novo modo de acumulação flexível global, num mundo transformado num hipermercado onde “todos” poderão entrar e fazer suas escolhas. Fica complicado compreender como todos terão acesso, se a lógica da excludência e competitividade são os pilares desse sistema.

A posse do conhecimento é determinante como vantagem competitiva e imprescindível nesse processo de produção, altamente informatizado, diferente da padronização fordista, que atuava com especializações. A rapidez na tomada de decisões, o trabalho cooperativo grupal, capacidade de inovar, a versatilidade, a mobilidade espacial se impõem como pré-requisitos aos trabalhadores estáveis, notadamente os que desempenham funções de supervisão de máquinas frágeis e vulneráveis, correspondendo a um grupo reduzido de empregados.

Esses indicativos talvez possam ajudar a compreender o porquê da preocupação educativa e humanística do empresariado com o trabalhador, nessa nova realidade, porque além da fragilidade da máquina, a empresa flexível atua na direção do defeito zero, na produção, como se pode ver no exemplo dado por Antunes, de uma fábrica japonesa em que os robôs fazem a maior parte do trabalho, mas que vivem quebrados sendo necessário o auxílio dos operários para prevenir e reparar os danos, ocasionando um incessante serviço, que não elimina o trabalho mas o qualifica.

A análise de Harvey sobre o mercado de trabalho norte-americano é reveladora, ao afirmar que os recursos humanos de alto nível, de direção, em número reduzido, usufruem de alguns generosos benefícios, como salário indireto e necessitam ter uma capacidade cognitiva, emocional e física considerável (aquelas qualidades de que já tratei repetidamente), trabalham em tempo integral, recebem promoção e reciclagem.

Outro grupo é formado pelo pessoal facilmente descartável, mais administrativo, como secretária, pessoal do setor financeiro e serviços auxiliares, facilmente disponível no mercado. Geralmente não têm oportunidade de fazer carreira ou usufruir de capacita-ções.

Há ainda aqueles também periféricos, temporários, casuais que trabalham em tempo parcial, sem segurança no emprego – os chamados trabalhadores flexíveis ou seja, trabalham em qualquer lugar e se encaixam às determinações particulares das empresas. São esses que mais interessam ao processo de acumulação flexível.

Na medida em que as ne-cessidades de qualificação intensificam e a força de trabalho é tão móvel, além de numerosa, a discriminação e exclusão aumentam, notadamente para as minorias, no sentido sociológico do termo, negros, imigrantes. Ainda mais, a considerar-se a força da imagem e da aparência, os feios, velhos e deficientes também serão excluídos.

Como parte desse novo modo produtivo, a terceirização oferece oportunidades para a abertura de pequenos negócios, que servirão às empresas maiores; ressuscitam oficinas artesanais familiares e outras estratégias de sobrevivência.

Quem regulará esse mercado perverso, se os trabalhadores deixam de ser atores com poderes de participar da disputa por seus direitos, já que as entidades sindicais estão sendo solapadas e também porque como poderão se organizar com interesses tão diferentes? Será que o mercado comporta tantos pequenos negócios, na lógica da competitividade?

As indagações são muitas, mas preciso mapear a questão da centralidade da educação, objeto deste exercício intelectual.

Da escola aos novos espaços do conhecimento

Muitos estudiosos da área de Educação, Economia, Ciências Sociais e Filosofia, de diferentes tendências ideológicas, têm-se ocupado do estudo da pós-modernidade. Destaco a análise de Hugo Assmann que evidencia que o mundo está imerso na “economia do conhecimento” (knowledge economy), a qual se caracteriza pelo predomínio das redes de informação e conhecimento, onde desponta um novo tipo de capital – informação – conhecimento; sendo portanto a educação escolar fundamental para “criar as condições para que desabrochem e se entrelacem, na vida concreta das pessoas, os nexos corporais, as linguagens e os comportamentos, de modo a poder constituir uma ecologia cognitiva favorável à auto-organização unificada de processos vitais e processos cognitivos.”

Assmann, embora reconheça a importância, relativiza e particulariza o papel da instituição escola, em função de outras instâncias aculturadoras e socializadoras existentes na sociedade ampla, complexa e prevalentemente urbana, como a mídia e a cibernética.

Ressalto como mais relevante no posicionamento acima, o entendimento do autor da necessidade de sinonimizar processos vitais e processos cognitivos, considerando a aquisição de conhecimentos sistematizados como condição de viver.

Outro ponto da abordagem que, para mim, deve ser enfatizado é que o autor, mesmo criticando a crença exacerbada na capacidade do mercado, na lógica da exclusão e insensibilidade das pessoas, não sinaliza para outra alternativa de desenvolvimento da sociedade, fora da economia de livre-mercado.

Ladislau Dowbor defende a necessidade da criação de espaços de consensos entre diferentes atores sociais, como: empresa, escola, igreja, sindicatos, ONGs, diante do sistema vigente guiado pela lógica da competição. Se cada um partícipe da luta se isola nos seus posicionamentos, não há como mudar: “é importante entender que a transformação dos espaços do conhecimento não pode se dar apenas de dentro dos espaços da educação…” Encara a educação como “motor” da modernização.

Já Lemke posiciona-se diferentemente dos autores examinados acerca da educação para a pós-modernidade, rechaçando o papel da escola, tal como a conhecemos hoje; não acredita na sua adaptabilidade e flexibilidade aos futuros possíveis: “as escolas continuarão a existir em retalhos, mas se tornarão cada vez mais esparsas e menos relevantes ao sistema como um todo, em relação aos seus futuros.”

A análise de Lemke é instigante e desafiadora, e vem reforçar uma realidade perversa, onde a competição divide o mundo entre vencedores e perdedores, sem lugar para solidariedade, para o prazer do encontro com a autoridade, para o compartilhar do prazer de captar o sentido do inútil, do lúdico. Ele valoriza a educação individual, única e solitária que se efetiva via ciberespaço. Quem terá possiblidade de acesso a esse universo? Não seria cruel, um educador acreditar na auto-regulação das espécies, num darwinismo social ?

Dowbor reconhece a função econômica, social, política e ideológica da escola, entretanto critica o modo dela educar através de livros-texto, por serem muito limitados, em função de uma gama enorme de informações existentes; sobrecarrega o poder das outras fontes, como a mídia, ciberespaço e as realidades virtuais. Enfatiza o papel da educação informal e do autodidatismo como regra da sociedade do futuro.

Há uma corrente representada por intelectuais que mesmo compreendendo a demanda por mais conhecimentos e informações, conseguem identificar outros horizontes possíveis para a humanidade, não se conformando com o determinismo capitalista como única possibilidade civilizatória, de inspiração neoliberal, extremamente excludente socialmente, onde o conhecimento, enquanto mercadoria só poderá ser adquirido por poucos.

Considerações finais

O resultado concreto deste trabalho não é conclusivo, mas com certeza se encaminha muito mais pela identificação de que a questão maior não é, portanto, a vinculação ou não da educação escolar, capacitação emocional, física e mental ao novo modo de produção que se inaugura, como condição de existência ou prosperidade desse processo de acumulação, denominado de flexível. Mas, como esses conhecimentos serão apropriados pelo conjunto de segmentos excluídos, que a considerar a lógica do sistema que o determina, será bastante desigual e até desumano.

Se o olhar se dirigir para o que está acontecendo hoje nos Estados Unidos e, particularmente no Brasil, verifica-se que as elites dirigentes não estão se encaminhando na direção da sociedade do conhecimento, via escolarização e intelectualização de todos os partícipes sociais e, em especial das classes menos favorecidas.

Veja-se o que está acontecendo, por exemplo, nas escolas elementares e secundárias de Los Angeles, onde estão sendo eliminadas, dos currículos, áreas não consideradas essenciais (o contrário do que está sendo dito e escrito hoje, pelo menos no Brasil) como arte, música, línguas estrangeiras, ao mesmo tempo em que está sendo veiculado nas salas de aulas um programa de notícias de televisão comercial – Canal Um, dividido entre dez minutos de notícias nacionais e internacionais e dois minutos de propaganda.

Ora, exige-se tanto do novo trabalhador e pergunta-se como este alcançará níveis tão altos de exigências intelectuais e operativas, se a educação que lhe é oferecida fica tanto a desejar até nos países mais desenvolvidos como o exemplo dos Estados Unidos, em que a cultura humanística é dispensável em troca da instrumental.

Veja-se o caso do Brasil na profissionalização do ensino médio, preconizada pelo MEC, em que se pretende eliminar do currículo desse ensino as disciplinas consideradas dispensáveis, por não estarem diretamente relacionadas à profissão à qual o estudante se destina, enquanto que para uma minoria se aumenta o nível de exigências para ingresso nos cursos superiores de boa qualidade.

Sabe-se que informações precisam ser processadas, criticadas e selecionadas para cumprirem um papel importante na formação dos homens e que para isso acontecer, há necessidade do domínio de um ferramental intelectual, capaz de fazê-los avançar e não apenas assumir tais informações como verdades absolutas, o que se exerce pelo poder da crítica, que só a cultura humanística é capaz de propiciar.

Por outro lado, numa sociedade competitiva, injusta e solitária como humanizar o homem, sem que tenha acesso à cultura “inútil”, do ponto de vista capitalista, sem desenvolver ou estimular a sensibilidade, advinda do convívio enriquecedor com as artes.

Além disso, o governo Bill Clinton está reduzindo drasticamente os programas de auxílio aos desempregados, mães solteiras, imigrantes, como produto da visão de que todos têm chances no mercado, bastando apenas esforço pessoal, capacidade de iniciativa, espírito de empreendimento de cada um.

No Brasil, a situação não é diferente, basta ver o que aconteceu com a nova Lei de Diretrizes e Bases da educação brasileira, produto de amplos debates nacionais, mutilada por forças conservadoras no que havia de maior interesse para a classe trabalhadora: gratuidade do ensino em todos os níveis, autonomia das universidades, melhores condições gerais para os professores, dentre outros.

Ao longo deste trabalho, procurou-se examinar como a educação se situa no espaço da transição do Fordismo-Keynesiano para a acumulação flexível, globalizada.

O acesso ao conhecimento científico, técnico, administrativo é fundamental ao desenvolvimento da sociedade, só que a nenhum mercado é viável a distribuição democrática de seus produtos, sob pena de deixar de ser mercado.

Ainda mais, todo mercado tem de oferecer mercadorias de qualidade e preços diferenciados, para atender a todos que o procuram, o que, na verdade, é indispensável para sua manutenção e expansão. Cada um comprará o que lhe for possível, o que não significa fazer escolhas. Pois não existe outras alternativas.

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Autor: Evoneth Patricio Matias

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