COERÊNCIA: A SUA REDAÇÃO PRECISA FAZER SENTIDO

Para que seu texto seja claro, compreensível e possa transmitir a ideia que você queira passar, é importante que ele tenha duas características: coesão e a coerência. Entenda o que são esses conceitos e saiba como utilizá-los em suas redações.

Deve-se ter em mente que escrever não é apenas colocar palavras no papel. É preciso trabalhar muito para ter um bom texto. Então aí vai uma dica: para começar, pense no fim! Isso mesmo! Qual a finalidade do seu texto? O que você quer com ele? Responda então, para si mesmo, às seguintes questões:

1- Qual a finalidade do texto? Para que ele serve?
2 – Qual o assunto? Sobre o que vou escrever?
3 – Quem vai ler o meu texto?
4 – Qual tipo de texto vou fazer?

Vamos a um exemplo concreto. Imagine que você vai escrever uma carta (ou um e-mail) para um jornal comentando uma notícia sobre alimentos transgênicos. Você deve, então, levar em consideração:

  • a finalidade de sua carta (participar do debate, dando sua opinião);
  • o que quer comentar (alimentação e transgênicos);
  • para quem está escrevendo (os outros leitores do jornal);
  • o tipo de texto: a carta ou e-mail.

    Depois de ter pensado nisso tudo, você dá sua opinião, usando elementos da carta e escolhendo argumentos que sustentem suas ideias. Assim, para escrever sua carta, você – como autor – precisa elaborar um texto “coerente”, ou seja, que faça sentido. O texto deve ser coerente não só com suas ideias, mas também coerente em relação ao seu objetivo, ao leitor que pretende atingir, ao gênero textual que está desenvolvendo.
    Vamos pensar um pouco mais a esse respeito…

     

    Coesão e coerência

    Imagine a seguinte situação: na grande decisão de um campeonato, o técnico de um dos times declarou aos jornalistas:
    “Vamos respeitar o adversário, mas, agora, nosso time está coeso“.

    Agora, numa outra situação, a namorada diz para o namorado:

    “Não adianta. Não vou mais perdoar você. Quero que tenha atitudes coerentes.

    Na primeira situação, o técnico enfatizou o fato de seu time estar coeso, como uma qualidade importante para ganharem o jogo. “Coeso” significa “unido”, “intimamente ligado”, “harmônico”.

    Na segunda situação, a namorada cobra atitudes coerentes do namorado. “Coerência” significa “harmonia”, “conexão”, “lógica”.

    Sem coesão e coerência, sua redação não existe! Quando muito, há um amontoado desconexo de palavras colocadas lado a lado. Vamos a mais uma reflexão? Desta vez, leia o trecho de uma crônica de Millôr Fernandes.

     

    “As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica” - Richard Gehman

    “Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.”
    “Junto com as outras?”
    “Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.”;
    “Sim senhora. Olha, o homem está aí.”
    “Aquele de quando choveu?”
    “Não. O que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.”
    “Que é que você disse a ele?”
    “Eu disse para ele continuar.”
    “Ele já começou?”
    “Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.”
    (…)

    (Millôr Fernandes. “Trinta anos de mim mesmo”. São Paulo: Abril Cultural, 1973)

    Veja como o humorista faz sua sátira, a partir de duas ideias básicas: “as mulheres falam demais” e “somente as mulheres se entendem”.

    Comece a analisar pelo título a ironia do autor: “A vaguidão específica” (como algo pode ser vago e específico, ao mesmo tempo? Só as mulheres, diria Millôr e os que pensam como ele…). Para confirmar suas ideias, ele busca uma “autoridade” para fazer a citação: Richard Gehman (quem seria? Um estrangeiro, pelo nome. Novamente, o humorista brinca com uma ideia pronta: sendo “alguém de fora” deve ter muito a nos ensinar…).

    Quem participa da história narrada? Duas mulheres. São elas patroa e empregada? Mãe e filha? Não sabemos. Qual é o assunto de que falam as duas mulheres? Nós, leitores, não sabemos, mas as duas personagens sabem, não é mesmo?

    A que se referem as palavras e trechos: “isso”, “outras”, “alguém”, “qualquer coisa”, “lugar do outro dia”, “o homem”, “Aquele”, “o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo”, “continuar”, “começou”? Os leitores não sabem, mas as mulheres sim e como as duas sabem do que estão falando, a “costura” do texto vai sendo feito de forma coerente e coesa.

    Você viu que Millôr Fernandes, intencionalmente, quis brincar com um preconceito social a respeito da mulher e seu jeito de falar, considerado excessivo. Assim, para entendermos o texto, como coerente e coeso, é preciso levar em conta o fato do autor ser um humorista e seu texto trazer essa marca da “surpresa” ou do “olhar sobre outro ângulo” – como numa piada.

     

Alfredina Nery é professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua/linguagem/leitura.